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Arquivo | Bairradinos no Mundo

NEWARK – Lusodescendentes morrem em despiste

acidenteDois jovens lusodescendente morreram na madrugada do último domingo, em Newark, estado de Nova Jérsei, divulgou ao Jornal da Bairrada um familiar. Erik Pires, de 19 anos, era filho de José Pires e de Maria Pires, naturais dos Carris, Oiã, enquanto que Filipe Timóteo, também com 19 anos, era filho de José Timóteo e Dora Timóteo, naturais da Gafanha da Boa Hora. As causas que terão motivado o despiste não são conhecidas

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A única portuguesa a fazer stand up comedy no estrangeiro

A única portuguesa a fazer stand up comedy no estrangeiro

Ela é a única mulher a fazer stand up em Brasília, e assegura que será mesmo a única portuguesa a fazer este peculiar espetáculo de humor no estrangeiro. Catarina Matos, 34 anos, viveu metade da sua vida na Mealhada mas foi no concelho vizinho de Anadia que concluiu o básico e o secundário – no Colégio N.ª Sra. da Assunção, em Famalicão, até ao 9.º ano e no Liceu de Anadia, até ao 12.º.
Conheceu o marido em Lisboa e foi com ele que, em janeiro do ano passado, atravessou o Atlântico para iniciar uma nova aventura no Brasil. A primeira paragem foi em São Paulo mas apenas durante meio ano. Desde então, mora na capital, onde cumpre um sonho antigo: ser humorista.

Nem historiadora nem psicóloga

Catarina Matos estava longe de saber o que a vida lhe reservava, quando entrou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, para tirar o curso de História. Mas a sua paixão académica não era aquela. Foi então estudar Psicologia no ISPA – Instituto Superior de Psicologia Aplicada, mas, como a própria firma, “sempre fui psicóloga não-praticante”.
Terminou o curso e uma agência de publicidade, a BBDO, ansiosa por  sangue-novo, lançou a rede a 600 e muitos alunos para apenas nove lugares. Um deles foi para Catarina Matos. “Assim começou minha a odisseia de dez anos como criativa, que passou por agências como DDB Lisboa, McCann Erickson Portugal, Grand Union e, como sou bilingue, também trabalhei como copywriter externa da BBH Londres”, recorda a jovem mealhadense.
Em janeiro de 2013, Catarina Matos deixa Portugal e a publicidade para perseguir o sonho de fazer humor.

Loucura

Foi em São Paulo, uma das melhores escolas de humor, que tudo começou. “Passados apenas cinco dias de viver nesta cidade gigante, subi ao palco do Teatro Folha, sem nunca antes o ter feito e agora, olhando para trás, foi um misto de loucura, coragem e vontade reprimida a querer rebentar”, conta a humorista. Ao lado de nomes como Maurício Meirelles (CQC), Marcela Leal, Mhel Marrer, Ben Ludmer “e o meu querido Padrinho, Daniel Duncan, eu parecia que tinha voltado a nascer”. E foi ao pé dos grandes que soube “que era isto mesmo que eu queria ser quando fosse grande”.
Inscreveu-se em cursos com grandes humoristas “que até aí só tinha visto no youtube” e de repente era aluna de stand up “da brilhante Carol Zoccoli”. Depois, no curso de Teatro de Improviso, “fui aluna do Marcio Ballas, de quem fiquei amiga para sempre.”

Partilhando o palco com os melhores

Foi nestas noites de quarta-feira que, no fim do espetáculo, “jantei com pessoas incríveis como o Rafinha Bastos, Gregório Duvivier da Porta dos Fundos, tive o prazer de dividir o palco com nomes que já admirava desde Lisboa: Rogério Vilela (Mundo Canibal), Nando Viana, etc..”
Por motivos pessoais, teve de se mudar para Brasília, onde teve como Padrinho o pioneiro do stand up nesta cidade, Edson Duavy. “Atuei num Teatro lotado, dividindo os aplausos com Ricardo Pipo (Melhores do Mundo), Daniel Duncan  – sim, foi um encontro de padrinhos! – e Vitor Sarro (Globo)”. Mais uns dias e estava a subir aos palcos com a Companhia Setebelos, um grupo muito aclamado em Brasília, onde atuou com Fabiano Cambota (Pedra Letícia).
Ao mesmo tempo que continuou com a comédia, frequentou oficinas de Teatro, onde esteve em cartaz com textos da sua autoria. Agora, estuda nos níveis avançados e escreve ainda mais peças.
Catarina Matos diz-se uma pessoa “tão feliz que nem consigo descrever”. “Apesar de ser uma profissão que dá muito trabalho, a recompensa é gigante em termos de contacto direto com o público. E as pessoas pensam que as profissões relacionadas com entretenimento não dão trabalho a quem faz, mas nos bastidores trabalha-se muito.”

Fosso Portugal-Brasil

A bairradina esteve recentemente em Portugal, onde atuou em palcos de Lisboa e do Porto; foi entrevistada em programas de televisão e até motivo de reportagem em revistas sociais. “Na noite do Villaret, nos últimos minutinhos, olhei para a sala, esgotada, e tive de engolir umas lagrimitas”, confessa.
Mas, no aspeto do humor, há um fosso gigantesco entre Portugal e Brasil. Começando pela maneira como a própria profissão é encarada. “Em Portugal, raras são as pessoas que conseguem viver 100% dela. Aqui, felizmente, consigo fazer isso.” E há, naquele país, vontade de ir ver stand up, seja a que dia da semana for. “As pessoas esgotam teatros e bares, há muitos fãs a seguir artistas e todos os dias há centenas de pessoas novas a começar a carreira.”
Catarina Matos não esconde as saudades de Portugal, e procura dar um salto ao nosso país, pelo menos de meio em meio ano. Já da Bairrada, as saudades são… “imensas!!! Falo da Bairrada aqui às pessoas que conheço e a reação é de querer conhecer!” No Brasil, não convive muito com portugueses, mas vive na mesma cidade que Francisco Gomes, “um excelente músico e que por coincidência foi meu companheiro de banda, os Meidein”.
Catarina Matos quer vir a Portugal mais vezes e pôr os conterrâneos a rir. Regressar em definitivo, para já, não está nos planos. A situação profissional do marido, Jorge Teixeira, continua em ascensão, na prestigiada agência Click Isobar, uma das melhores agências digitais do Brasil. E, quanto à situação profissional de Catarina, “basta dizer que aqui no Brasil ela é possível, e que em Portugal não”.
Oriana Pataco

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Dois bairradinos numa capital multicultural

Dois bairradinos numa capital multicultural

Nuno Oliveira trabalhava há mais de quatro anos na Critical Software, em Coimbra, como Software Developer (programador). Jovem licenciado em Engenharia Informática pelo ISEP (Instituto Superior de Engenharia do Porto) e com ambição de progredir na carreira, rapidamente percebeu que as melhores oportunidades só as encontraria fora de Portugal. Natural de Avelãs de Caminho, concelho de Anadia, partiu primeiro, com destino a Londres. Só depois se lhe juntou a esposa, Daniela Oliveira, licenciada em Bioquímica e Química Alimentar e com Mestrado em Química Analítica e Controlo de Qualidade (ambos pela Universidade de Aveiro), a trabalhar há quase três anos como secretária clínica na Sanfil – Casa de Saúde Santa Filomena, em Coimbra.
Dar um passo em frente em termos profissionais era um dos objetivos do jovem casal, mas “a experiência de viver fora e conhecer novas culturas” também era aliciante, confessa Nuno Oliveira. Experiência que não podia estar a correr melhor, já que, garantem, “Londres é uma cidade fantástica, cheia de vida, onde há sempre qualquer coisa para fazer ou conhecer”. “A sua multiculturalidade é impressionante, existem pessoas de todos os cantos do mundo. É muito interessante conhecer pessoas dos mais diversos países, conhecer as suas culturas, formas de estar e de pensar.” O facto de haver tanta gente de fora, faz com que Nuno e Daniela não se sintam “tão emigrantes, o que ajuda imenso na adaptação ao país”.
Um país onde se fala uma língua que ambos dominavam relativamente bem. O mais difícil foi mesmo “habituarmo-nos aos mais variados sotaques, ao calão e pronúncias tão diferentes do Inglês Americano que nos habituamos a ver nos filmes e séries”.
Nuno Oliveira continua a fazer aquilo que melhor sabe e que mais gosta. Trabalha como Software Developer numa empresa de jogos de apostas online, tais como bingo, slot machines, jogos de casino, etc., um mercado muito forte no Reino Unido. A sua empresa desenvolve jogos e websites que contam com milhares de jogadores todos os dias. Já Daniela Oliveira faz hoje finalmente aquilo para que estudou e trabalha como Técnica de Laboratório, na área de investigação e desenvolvimento para a GSK/Suntory, empresa que desenvolve as marcas de bebidas Lucozade, Ribena, Orangina e Schweppes.
Nuno e Daniela querem consolidar a estabilidade profissional que agora alcançaram e só depois pensam em aumentar a família. A quilómetros de distância ficaram, entretanto, outros familiares e amigos. E como se matam as saudades de casa? “Recorrendo às novas tecnologias, tais como o skype, ou na falta delas, há sempre o velhinho telefone”, admite Nuno Oliveira. Mas, quando as saudades já são mesmo muitas, “não há nada como dar um pulo até Portugal”, que afinal, nem é assim tão longe!
Há alguns meses a viver em Londres, já houve tempo para conhecer um pouco da cidade mas, admitem, “há ainda muito para explorar”. “A oferta cultural é imensa, são muitos os museus para visitar, na grande maioria gratuitos, os teatros, os musicais e os concertos onde ir.” Não há a praia mas, para compensar, há “enormes e fantásticos jardins espalhados por toda a cidade”.
Quanto a portugueses, já se sabe, estão um pouco por todo o lado e Londres não é exceção: “só na minha empresa já somos três”, confirma Nuno Oliveira. E já encontraram até um bairradino, um amigo de Daniela, com quem estudou em Anadia. A sul do rio, existe mesmo uma grande comunidade portuguesa, “onde se encontram imensas lojas, com os mais variados produtos portugueses, desde as revistas cor de rosa até ao leitão assado à Bairrada, encontra-se de tudo!”
Mas Portugal continua a ser a casa destes bairradinos. Por isso, o seu desejo é voltar um dia a Portugal. Quando, “só o futuro o dirá”.
Quanto ao que se ouve lá fora sobre este nosso país, a sensação é de que “muito pouco tem mudado”. “As notícias”, afirma Nuno Oliveira, “são as mesmas desde que deixamos Portugal, apenas se fala da crise e de futebol”.

Oriana Pataco

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“Embora o meu coração seja 100% Português, em termos profissionais sinto-me 100% Europeu”

“Embora o meu coração seja 100% Português, em termos profissionais sinto-me 100% Europeu”

Paulo Caiado não tinha intenções de morar no estrangeiro. Contudo, em 1996, um ano antes de concluir o curso de Engenharia Informática em Coimbra, teve “a sorte” de fazer Erasmus em Londres “e isso efetivamente mudou a minha vida”.
Natural da Mamarrosa, concelho de Oliveira do Bairro, onde reside a família mais próxima, Paulo Caiado é hoje um português perfeitamente adaptado à forma de estar e de trabalhar dos ingleses. Admite ter saudades da família – que visita, em média, uma vez por mês – do clima – “do céu sem nuvens” – e da nossa comida – “apesar de haver uns restaurantes portugueses muito bons em Stockwell!”.
Saiu de Portugal já lá vão 13 anos. Entre 2000 e 2005, residiu em Nice (França), mas metade desse tempo esteve deslocado em Londres, capital para onde acabaria por se mudar definitivamente.
Logo após terminar o curso, trabalhou na SIBS (sociedade que gere a rede multibanco portuguesa). O facto de estar já nos quadros da empresa, como Engenheiro de Software, não foi, todavia, suficiente para o “segurar em Portugal”. “Tinha vontade de aprender e conhecer coisas novas. Na altura em que decidi sair estávamos em plena bolha dot.com (bolha tecnológica do fim dos anos 90). Havia muitas coisas a acontecer cá fora e eu tinha uma enorme vontade de fazer parte do que estava a acontecer em países mais avançados do que Portugal”, destaca o jovem de 38 anos, natural da Mamarrosa.
Assim, no fim do ano 2000, partia para Nice, para trabalhar na Accenture (consultora na área de Tecnologias de Informação). “Como consultor desta empresa, nunca estive em projetos em França, estive sempre deslocado, metade do tempo em Inglaterra  – quase sempre em Londres – e também na Holanda, Suécia e Irlanda”, conta Paulo Caiado. Em 2005, transferiu-se para os escritórios da Accenture em Inglaterra. Entre 2006 e 2008, fez o MBA (Master of Business Administration) na London Business School, em Londres.
Trabalha, desde 2008, na Fidelity (segunda maior empresa mundial na gestão de fundos de investimento), onde é responsável pela análise de fundos de investimento, em estratégias alternativas (como sejam estratégias de Hedge Funds, Infraestrutura (PPP), Energias Alternativas, resseguros, matérias primas, etc.).

Mais profissionalismo e informalidade

Não tem dúvidas de que as diferenças na forma de trabalhar em Portugal e em Inglaterra são significativas. “Aqui, há bastante mais profissionalismo e o ambiente de trabalho é claramente mais informal.” Não que tudo seja perfeito, frisa, “mas há muito mais meritocracia e mais responsabilidade face a compromissos assumidos, por exemplo, numa coisa tão simples como as reuniões começarem a horas!” No trabalho, não existe a formalidade de se tratar ninguém pelo título (Dr. ou Eng.): “somos todos colegas, o que acho ótimo, é uma formalidade completamente desnecessária que ainda existe em Portugal.” Por isso, Paulo Caiado tem a consciência que, “quando voltar a Portugal, vou ter um choque com a forma de se trabalhar”.
Salienta ainda que as leis de trabalho são “bastante mais flexíveis”, o que permite que “as pessoas interiorizem que as únicas coisas que lhes garantem subsistência no futuro é o trabalho que produzem e os conhecimentos que têm para o executar, não a lei ou um bocado de papel (contrato de trabalho).”
Paulo Caiado considera que Portugal “está a pagar pelo acumular de erros cometidos nos últimos 25 anos”. A culpa… “é de todos nós, da nossa forma de fazer as coisas e de como lidamos com os outros e com a coisa pública”.
A Inglaterra chegam cada vez mais recém-licenciados, à procura de um caminho que não encontram no seu país. Paulo Caiado aplaude a decisão, já que “é uma oportunidade excelente para aprender imenso e abrir novos horizontes”.
Não está nos seus planos regressar tão cedo a Portugal. “Embora o meu coração seja 100% Português, em termos profissionais sinto-me 100% Europeu. Portugal está apenas a 2 horas de avião e os voos são baratos!”
Oriana Pataco
oriana@jb.pt

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Condecorado no Brasil por 50 anos de trabalho bem sucedido

Condecorado no Brasil por 50 anos de trabalho bem sucedido

Rui Esteves não hesita em dizer que a sua história de vida dava para escrever um livro. Nestas poucas linhas, não podemos decerto contar toda a sua vida mas, do que sabemos, podemos começar por afirmar que este bairradino, nascido na Camarneira, concelho de Cantanhede, emigrou com 12 anos para o Brasil e saiu-se muito bem. Se assim não fosse, não teria sido alvo de uma homenagem, em março, pela Câmara Municipal de São Paulo, pelos 50 anos de determinação e trabalho bem sucedido naquele país. “Recebi uma placa de condecoração assinada pelos vereadores e endereçaram-me felicidades nos meus 62 anos e por ter uma família bonita no Brasil”, ressalva Rui Esteves.
Quando chegou ao Brasil, em março de 1961, foi trabalhar no comércio de familiares que lhe haviam mandado carta de chamada. Assim era naqueles tempos.
Durante oito anos, trabalhou praticamente sem descanso, das 5h às 22h, de segunda-feira a domingo. Mais tarde, compraria o negócio aos familiares e aí ficaria mais cinco anos.
Passado esse período, começou a trabalhar num supermercado como empregado. A sua dedicação e honestidade seriam recompensadas, passando a ser o braço direito do proprietário. Com esforço e muito trabalho, de uma loja passou-se para cinco e, após ser empregado durante oito anos, o patrão, reconhecido, deu-lhe sociedade. Oito anos volvidos, ficou com uma loja só para si e, em 1991, dedicou-se a 100 por cento, com a esposa e filhos. Era uma loja num bairro de São Paulo, que conseguiu reformar e modernizar, transformando aquele supermercado numa referência, sendo muito elogiado na vila. Continuou a trabalhar por mais 18 anos. Depois, vendeu o negócio – já que os filhos seguiram outros ramos de comércio – e reformou-se.

Orgulho em ser português

Rui Esteves considera-se uma pessoa honesta, que sempre se dedicou ao trabalho. Na vida pessoal, é bem-disposto, gosta de contar anedotas e de desfrutar da vida junto dos amigos. No Brasil, é adepto da Portuguesa, em Portugal diz-se “torcedor do Sporting”. Fez a vida no Brasil, mas tem orgulho em dizer que é português. Acompanha as notícias do seu país através da televisão internacional e acredita que a crise financeira que Portugal atravessa “deve em breve melhorar”. A quem pensa emigrar, deixa um conselho: “só se tiver familiares ou amigos nesse país que o acolham”.
Rui Esteves tem dois filhos e quatro netos. Em Portugal, também deixou familiares. Os mais próximos residem na Póvoa do Forno, Troviscal (concelho de Oliveira do Bairro). O seu primo, Alcides Belchior, “é assinante do Jornal da Bairrada”. Em agosto, sempre que pode (já cá esteve cinco vezes), gosta de vir a Portugal “curtir as festas nas aldeias”, como o próprio diz. Sente muitas saudades “do vinho e do leitão da Bairrada, que não tem igual”.

Oriana Pataco

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Esperando pela reforma como quem risca o calendário na cela

Esperando pela reforma como quem risca o calendário na cela

“Sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida nas mãos de uma criança.” Já passaram quase três décadas desde que Alberto Ventura ousou sonhar uma vida mais risonha e colorida. Ele, confesso sonhador, saiu da Vimieira (Casal Comba, Mealhada) recém-casado, feliz por ter a seu lado quem consigo partilhasse uma aventura noutro continente. Alberto e Lala construíram a sua vida em Newark, New Jersey, EUA. São felizes e têm “dois filhos maravilhosos”: Erika, de 25 anos, e Ayrton, de 15.
Alberto Ventura é responsável, desde 2000, pela revisão de projetos e concessão de licenças de construção, no Gabinete de Engenharia da Cidade de Newark. Subiu a pulso, contando apenas com o seu currículo e competência. Sem cunhas nem padrinhos.
Ainda em Portugal, tirou o curso de Técnico de Construção Civil na Escola Secundária Avelar Brotero, em Coimbra e, no princípio do ano de 1983, concorreu ao cargo de fiscal de obras (3.ª categoria) para uma Câmara Municipal na Bairrada. “Fui informado por alguns funcionários camarários que não valia a pena ficar à espera do resultado, pois as vagas já estariam a ser preenchidas. A forma como me foi dito deu-me motivos para acreditar que, sem «padrinhos», o caso estaria arrumado.” Alberto Ventura gosta pouco de se lembrar desse episódio, mas a verdade é que passar por essa situação lhe deu força para acreditar nas suas capacidades e que podia chegar longe contando apenas consigo próprio.
Enquanto solteiro, uma experiência como ajudante de canalizador/eletricista nas horas vagas, para ajudar a pagar estudos e divertimentos, permitiu-lhe depois começar a vida nos Estados Unidos, enquanto a esposa, Lala, se empregava numa fábrica de costura.
A forte comunidade portuguesa e um inglês corrente ajudaram a uma boa adaptação. Alberto continuou os estudos, à noite, e tirou os cursos de Canalização e Construção Civil.
Aventurou-se como profissional autónomo na canalização, enquanto concluía outros cursos de formação, que o colocaram novamente no caminho de um concurso público. “Não dispunha de quaisquer ajudas, contava só com o meu currículo e competência e, em setembro de 2000, fui chamado a ocupar o cargo de chefia do Gabinete de Engenharia da Cidade de Newark na minha área – Canalizações, Aquecimentos, Energias Renováveis, etc.”.
Contacta diariamente com inúmeros imigrantes, portugueses, espanhóis, latinos… “Entre a comunidade portuguesa de Newark, existem muitos empresários bairradinos na área da construção civil, hotelaria, indústria automóvel, etc.. E por aqui há muitos restaurantes que se aprimoram na confeção do Leitão à Bairrada”, afirma.

Patriotismo e autoflagelo. Alberto Ventura sente-se profissionalmente realizado. Mas os projetos para voltar para a sua terra, onde todos os anos passa as férias revendo família e amigos, estão sempre em mente. “Deixar para trás a nossa família, a nossa terra, desperta nos emigrantes um sentimento de patriotismo misturado com autoflagelo. Todo o emigrante sabe que pode voltar à sua terra natal a qualquer momento, mas vai deixando o tempo passar, esperando que os problemas do mundo se resolvam, para voltar de vez.” Alberto e Lala esperam pela reforma “como quem risca na parede da sua cela o calendário para a liberdade”. “Quando a nossa filha se mudou para longe [Ann Arbor, Michigan], sentimos na pele o que fizemos passar aos nossos pais, mas temos consciência de que a sua opção foi pessoal e não por imposição ou desespero.”
Alberto Ventura ficou “chocado” quando, há umas semanas atrás, ouviu o nosso primeiro-ministro dizer que emigrar podia ser uma forma de escapar à crise e ao desemprego. “O senhor primeiro-ministro nunca se deve ter imaginado chorando baixinho antes de dormir, pensando que qualquer dia destes poderia receber um telefonema informando que aqueles a quem mais amamos e foram sacrificados pelo nosso desejo de sonhar e ser alguém, já partiram… Passaram a vida toda na espetativa de ver os filhos voltarem e de os receber mais uma vez com os olhos rasos de lágrimas… Esse sim é o flagelo que corrói as entranhas do coração de quem parte e de quem fica ao mesmo tempo.”
Até à data, o inesperado telefonema não aconteceu. “Somos gratos a Deus”, desejando um dia ter direito a um merecido e prolongado abraço, que só a emoção de anos de saudade consegue explicar…
Oriana Pataco

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“Estar longe da família e da nossa terra não é nada fácil”

Cristina Pereira nasceu e viveu em Portugal apenas alguns meses, mas afirma perentoriamente que o seu país é Portugal e não a Suíça, para onde os pais a levaram, à procura de melhores condições de vida.
Chegou bebé a Conthey, na Suíça, e aí reside há 27 anos. Apesar de passar pouco tempo em Portugal, reconhece que os portugueses são mais calorosos do que os suíços. “Nós ajudamos toda a gente se for preciso, enquanto que aqui não são tanto assim.” E há sempre quem não goste dos estrangeiros “e fazem senti-lo, mas a mim não me afeta”, garante a bairradina, natural do Paraimo, Sangalhos, onde tem toda a família.
Confessa que tem “muitas saudades da terra” e de quem lá deixou. Todos os anos vem a Portugal. “Não pode falhar!”
Na Suíça, Cristina Pereira é vendedora. Estudou até ao 10.º ano, e depois “fiz quatro anos de aprendizagem”. Frequentou a escola portuguesa.
Olha para o nosso país com alguma preocupação. “Portugal está numa situação económica muito complicada e é uma pena, porque o nosso país tem muitas riquezas que infelizmente não são exploradas, tanto a nível material como humano.”
Apesar de nunca ter vivido em Portugal, gostava um dia de poder regressar. “O meu país é Portugal, não é a Suíça”, reforça, “mas por enquanto tenho de lutar pela minha vida e neste momento isso não é possível no meu país”.
“A vida de um emigrante não é fácil, porque estamos longe da família e da nossa terra”, afirma Cristina. “Há momentos em que as saudades apertam, mas temos todos de lutar pela vida.” E se lutar pela vida significar sair do país, então, diz Cristina Pereira, há que arriscar.
Oriana Pataco
oriana@jb.pt

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“Portugal não tem condições para que os emigrantes regressem”

Deixou a Bairrada há quase cinco anos e vive em Pétange, Luxemburgo, desde então. Mas é na Mamarrosa, sua terra natal, que Adriana Simões viverá (assim se espera!), no próximo ano, um dos dias mais felizes da sua vida, o dia do seu casamento. Mas um dia não são dias e se, por Adriana Simões, a vida até poderia continuar a escrever-se neste cantinho à beira-mar plantado, já o noivo não está disposto a regressar tão cedo ao país que lhe serviu de berço. Ainda assim, Adriana lá vai admitindo que este nosso país “não tem condições para que os emigrantes regressem”. Por isso, “neste momento, só de férias”, ficando o sonho de voltar adiado talvez por… “20 anos”.
Hoje, Adriana Simões conta 19 primaveras e a JB confessa que saiu de Portugal porque os pais assim decidiram. Recorda as imensas dificuldades que sentiu em integrar-se no novo destino. Sem os avós por perto – e que falta lhe faziam! -, numa nova casa, nova escola (e sistema de ensino) e nova língua. Francês, só as noções que aprendera na escola, mas que se revelavam insuficientes em situações do dia a dia. Valeu-lhe a ajuda dos colegas da turma, “quase todos portugueses”. Mas, fora da escola, quando tinha, por exemplo, de ir às compras, teve de “aprender a desenrascar-se”.
Este foi, aliás, um verbo que teve de conjugar repetidas vezes. “Aqui há muita xenofobia, coisa que em Portugal não se sente. Ninguém explica nada, podemos ter problemas de comunicação que eles não se interessam, por vezes sofremos bastante”, admite a jovem bairradina. Imagem que, na sua opinião, no país onde nasceu não se repete. “Em Portugal, um estrangeiro é recebido muito bem, tentamos que se sinta bem na escola, os vizinhos entreajudam-se e não há aquela atitude de cada um por si. Acho que o povo português (em Portugal), pode sofrer mas ajuda”, exclama.
Sendo o Luxemburgo um dos destinos preferidos dos emigrantes portugueses, é natural que por ali se cruzem muitos conterrâneos. Adriana convive com portugueses, tem vizinhos portugueses e mesmo o noivo é lusitano. “No Luxemburgo, temos rádio, jornal, supermercados, talhos, peixarias, padarias, pastelarias, cafés e restaurantes portugueses, já para não falar nas lojas de roupa e calçado que, por vezes, são geridas por portugueses ou têm empregados portugueses.”
Adriana Simões ainda é estudante. Em Portugal, estudou na Mamarrosa e no IPSB (Bustos). Seguiram-se quatro anos de estudos na Bélgica, “pois é difícil integrarmo-nos no sistema luxemburguês”. Por razões pessoais, não concluiu o secundário. Tem o curso de secretaria em turismo.

“Informem-se bem”

Acompanha as notícias sobre o seu país através da televisão portuguesa. O desemprego, o aumento do IVA, “a falta de ajuda do Governo” são assuntos de que se ouve falar diariamente. “Adoraria que o Governo cortasse mais nos ordenados dos políticos e ajudasse as escolas e naquilo que cada distrito mais precisasse.” Numa situação como a que se vive em Portugal, é natural que muitos pensem em emigrar. Adriana Simões aconselha uma ida ao consulado do país de destino, de forma a informar-se sobre tudo o que seja possível, procurando não deixar “nenhuma ponta solta”. Estar bem informado, garante a bairradina, ajudará decerto na melhor integração.
Oriana Pataco

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Diferenças entre Portugal e Inglaterra são “imensas”

A qualidade de vida de que hoje Clara Gomes desfruta tem um valor inestimável. A falta de apoio à deficiência foi a alavanca para sair de Portugal, acompanhada pelo marido e quatro filhos, dois deles deficientes. Natural da Fogueira, Sangalhos, viveu oito anos em Oliveira do Bairro antes de se mudar para uma pequena cidade, a 20 quilómetros do centro de Londres, Inglaterra.
Durante 11 anos, Clara Gomes (hoje com 40) esteve ligada à informação médica. Mas é em 2010/2011 que dá asas a um sonho. O sonho do cake design. Fez nessa altura formação com conceituadas cake designers ; tornou-se sócia da Associação Nacional de Cake Designers. O objetivo, esse, está traçado desde então: “quero um dia criar uma empresa na qual possam trabalhar os meus dois filhos deficientes e outras pessoas com deficiência”.
Em Inglaterra, Clara Gomes encontrou uma perspetiva de futuro profissional e até social para os seus filhos deficientes que em Portugal diz nunca ter sentido. “Em Inglaterra há de facto um forte investimento do governo e de instituições de caridade no cidadão deficiente.” No caso específico dos seus filhos, beneficiam de acompanhamento permanente de professores especializados, terapia ocupacional e motora, frequentarão em breve uma escola de equitação em exclusivo para pessoas com deficiência. E muitas outras atividades, presentes no currículo escolar e fora dele, sempre visando a sua independência e uma eficaz inserção social e profissional.
Mas as diferenças entre Portugal e Inglaterra não se esgotam aqui. Pelo contrário, “são imensas”, frisa a bairradina. Para além das óbvias – língua e gastronomia – também e principalmente o método de ensino, o sistema nacional de saúde, o acesso à cultura e outra, que salta à vista: a base da pirâmide etária. “Enquanto em Portugal a natalidade foi estrangulada pela falta de apoio do governo, aqui nascem imensas crianças, aliás deu-se um verdadeiro babyboom desde que o então primeiro-ministro Tony Blair implementou as políticas de apoio à natalidade.” Em Inglaterra, acrescenta Clara Gomes, não há infantários nem escolas primárias a fechar, pelo contrário, “as escolas estão cheias de crianças e para entrar no infantário há lista de espera”.

Tempo de qualidade para os filhos

No novo destino, Clara, neste momento mãe a tempo inteiro, admite ter tempo de qualidade para os filhos. “Em cada canto há um parque onde podemos fazer um piquenique, levar as crianças aos baloiços e conviver com outros casais e crianças.”
Na cidade onde moram, não vivem portugueses. A quem pretende emigrar, aconselha uma forte aposta na certificação do nível de cada língua estrangeira em escolas devidamente reconhecidas. E nada de partir “à toa, sem quaisquer perspetivas de emprego”. Clara está agora a reunir material para um livro que pretende editar dentro de dois anos.
Portugal, diz, é atualmente “um país triste e acomodado, sem qualidade de vida, onde as famílias têm cada vez menos tempo para estarem juntas e perdem a cada dia, poder de compra”. Ainda assim, Clara Gomes não esquece o seu cantinho. “As nossas raízes são sempre as nossas raízes. Sinto saudades da família, dos amigos e da comida, sobretudo do leitão à Bairrada e do bacalhau. Saudades dos dias e noites quentes de verão. Do sol. Da praia e do cheiro a mar.”
Gostava de ficar dez anos em Inglaterra e depois voltar. Mas o futuro é uma incógnita. “Se tivermos condições para manter uma qualidade de vida aceitável, regressamos. Caso contrário teremos que aguardar pela nossas reformas.”
Oriana Pataco

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“Ir lá para fora também já não é o que era”

Londres foi o destino eleito por Madalena Martins e o marido há 17 anos. Eram jovens, Madalena estava no desemprego, os tempos que se aproximavam adivinhavam-se difíceis e, por isso, partiram.
Apenas a adaptação à língua inglesa se revelaria mais custosa, de resto “ambientámo-nos na perfeição”, assegura a bairradina, natural de Anadia. Ainda assim, as diferenças do país do Big Ben para Portugal “são imensas”. Começando pelo tempo, terminando nas pessoas. “São extremamente educadas e atenciosas, respeitam muito os outros.” Numa cidade que nunca dorme, onde a turba se forma de etnias diversas. “Tem os seus encantos”, admite Madalena Martins.
Os portugueses também dão cor à capital inglesa. Diz Madalena que “a grande massa de habitantes é portuguesa, e nós convivíamos com muitos, frequentávamos restaurantes portugueses e clubs”. Da Bairrada propriamente “não havia muitos, os de mais perto eram de Mangualde e Viseu”.
Madalena Martins vai recordando aquilo que viveu até há quatro anos, altura em que regressou a Portugal. Hoje, reside na Palhaça, concelho de Oliveira do Bairro, com a filha de 11 anos. O marido continua em Londres. “Neste momento, vejo Portugal como o meu lar, país onde nasci e cresci. As perspetivas não são muitas, mas há que ter esperança, tenho uma filha menor e o futuro dela por agora é aqui.”
Desde que regressou, aproveitou o programa de Novas Oportunidades e completou o 9.º ano. Tem atualmente 37 anos e é doméstica.
Saudades da Barra, dos gelados, da tripa. Nos 13 anos que passou em Londres, sentiu muitas saudades da Bairrada. As férias eram aqui religiosamente passadas. “Aproveitávamos todo esse tempo para ver a família, e também as nossas praias. Que saudades tínhamos da nossa Barra, dos gelados, da tripa! Sonhávamos com tudo isto o ano inteiro!…”
Portugal era rota definida todos os anos, nos últimos tempos em dose dupla.
Madalena Martins reconhece que neste momento a vida em Portugal “está muito má”. “Às vezes, perguntam-me se é boa ideia emigrar e eu nem sei o que responder, porque ir lá para fora também já não é o que era”, confessa. “Se não tivermos uma vida lá fora estruturada, já não vale a pena sair de Portugal e deixar a casa e tudo o que se tem para trás.” Ainda para mais numa altura em que “a inflação lá fora está no pico”. “É tudo muito caro! E essa foi uma das razões pelas quais regressei a Portugal. Já não compensava muito estarmos os três lá fora, pagar renda de casa, comida…”
Todavia, também Londres deixou saudades. Hoje, a rota de férias inverteu-se e as “férias grandes” têm sotaque britânico. “É um país que deixa saudades, o país onde fazemos a vida e onde vivemos uma vida. Deixa sempre saudades.”
Oriana Pataco

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