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Manuel M. Cardoso Leal

Historiador

Entre a moderação e o extremismo

A tarefa do próximo Presidente da República vai ser, conforme prevê o atual Presidente, mais difícil do que a que ele teve. A dificuldade resulta, quer da situação política nacional, onde o Governo não tem maioria absoluta, quer da situação internacional, onde a Europa enfrenta ameaças muito sérias.  O que se requer do Presidente que iremos eleger é um mínimo de experiência, sensatez e sentido de Estado, e não que prometa dar um «abanão», que seria brincar com o fogo.

A próxima eleição não será entre «esquerda» e «direita», como aconteceu há 40 anos entre Mário Soares e Freitas do Amaral. Será entre democracia moderada e extremismo. De facto, ao candidato que vem da esquerda moderada opõe-se um candidato da extrema-direita que põe em causa o sistema democrático. O PS assim o entendeu, dizendo, antes da primeira volta, que não teria dúvida em votar, na segunda, no candidato apoiado pelo PSD, se a alternativa fosse um candidato antidemocrata. Porém, o Governo e o PSD anunciaram neutralidade para a segunda volta, que se espera não faça esquecer o essencial, que é defender a democracia. Julgo que os dirigentes do PSD, no íntimo, preferem o candidato apoiado pelo PS, porque sabem que ele é respeitador das instituições democráticas, em vez de andarem em constante sobressalto com qualquer cilada que lhes possa surgir em cada esquina.

Ouve-se dizer que «são sempre os mesmos», que é preciso uma mudança. Mas qual mudança? «Os mesmos» (PS e PSD) têm governado Portugal, como alternativa um do outro, porque para tal têm sido livremente eleitos. E têm sido eleitos porque, independentemente de falhas e críticas que se possam e devam apontar (na saúde, por exemplo), estão associados a um dos melhores períodos da nossa história, em liberdade e desenvolvimento económico. Há dados objetivos que mostram como o nosso país se tem aproximado muito do melhor que a Europa desenvolvida atingiu. E nada impede que os eleitores escolham outros, desde que vejam neles qualidade para tanto.

Reduzir estes 50 anos à corrupção é conversa enganadora. Também Trump subiu na política acusando a «corrupção das elites», mas, como tem sido noticiado, desde que ele chegou ao topo a sua fortuna já duplicou. Claro que o nosso sistema judicial tem de ser mais eficiente a identificar quem é, e quem não é, corrupto, para não deixar espalhar-se a perceção de que é tudo corrupção. Melhore-se o sistema. Mas, por favor: voltar ao país atrasado, sem liberdade, isolado do mundo, de antes do 25 de Abril? Não, obrigado. Façamos a escolha certa.