As imagens que chegam do Irão – e que pouco passam nas TV’s – são chocantes. Em dois meses, as estimativas andam entre 20.000 e 40.000 mortos. Por comparação, em Gaza, segundo o “ministério da saúde” palestiniano, morreram 70.000 em dois anos!
Para compreender o presente, é preciso lembrar que a Pérsia tem uma das mais longas continuidades civilizacionais do mundo. O primeiro império persa data de 678 a.C.
No século XX, o país vivia sob uma monarquia autoritária, com polícia política, desigualdades e repressão dos opositores. Não sendo um Estado Secular, marginalizava a influência política do clero xiita e promoveu reformas sociais liberais, como o sufrágio feminino em 1963. Era um Estado em acelerada modernização: crescimento económico, abertura ao exterior, investimento em educação e infraestruturas. As mulheres tinham acesso generalizado à universidade, participavam na vida profissional, não estavam sujeitas ao véu obrigatório e beneficiavam de reformas legais progressistas para a época.
A revolução islâmica de 1979 não teve um apoio popular, homogéneo e esclarecido. Foi conduzida por elites clericais e por marxistas radicais que souberam capitalizar o descontentamento social. No contexto da Guerra Fria, a União Soviética apoiou, direta e indiretamente, a destabilização do regime do Xá – o Irão fazia fronteira com o sul da URSS.
O poder concentrou-se no clero político, institucionalizou-se a tutela religiosa sobre o Estado e iniciou-se um processo sistemático de islamização da sociedade. A qualidade de vida deteriorou-se de forma evidente, sobretudo para as mulheres. O véu tornou-se obrigatório, direitos civis foram restringidos, a participação pública passou a ser condicionada por normas religiosas rígidas, impostas por repressão interna violenta e solidificada pela construção de inimigos externos: o grande satã (os EUA, por influência soviética) e o pequeno satã (Israel, que para os ayatollahs deve ser aniquilado).
Quem está na frente dos protestos de dezembro são jovens que não viveram o tempo do Xá e que não alimentam qualquer nostalgia monárquica. São uma geração sem memória direta da revolução, mas com consciência clara das suas consequências. Cresceram sob restrições sociais, censura, pobreza e ausência de perspetivas. A percentagem de jovens com interesse em religião não chega a 20%.
Mas não há uma liderança interna evidente. O orgulho persa e a história de ingerências externas tornam improvável uma solução “importada” sem reservas. Trump está interessado “apenas” no fim do programa nuclear iraniano e em obter algum apaziguamento da violência para a sua contabilidade via ao Nobel da Paz. Mas, como vimos na Venezuela, tanto se lhe dá que o regime seja democrata ou que mantenha uma teocracia – desde que façam o que ele quer para ele.
Para a Rússia, além de aliado antigo, este Irão é um importante fornecedor de armamento (drones) na guerra contra a Ucrânia. E para a China, um dos grandes fornecedores de petróleo, barato, elemento crítico para o desenvolvimento da sua economia.
Perceber o Irão exige olhar para esta complexidade. A revolução de 1979 prometeu libertação; entregou tutela. Hoje, quem protesta não pede um regresso ao Xá, mas o direito a viver num país onde o Estado não tema o seu povo. A história explica a revolta. O futuro dependerá da capacidade dos iranianos reclamarem o seu destino.
