A Confraria Gastronómica “As Sainhas” de Vagos dedicou a edição deste ano do “Sainhas com Poesia” a José Régio e às figuras femininas presentes na sua obra. A iniciativa, que teve lugar a 30 de outubro, no restaurante O Barracão, reuniu poesia, música, dança e uma ementa inspirada nos gostos do escritor.
A escolha de José Régio partiu do trabalho de investigação do vaguense Rui Rufino.
“Achámos importante pegar no conhecimento de alguém da comunidade, valorizarmos esse conhecimento e transpô-lo para a comunidade”, explicou Rute Fernandes, presidente da confraria. A dirigente destacou a forma como o poeta escreveu sobre a mãe, a mulher religiosa, a mulher marginalizada e a mulher presa às aparências. “José Régio era uma pessoa inquieta, procurava respostas, e as mulheres são naturalmente assim”, enquadrou Rute Fernandes, explicando que, “sendo nós uma confraria no feminino, faz sentido irmos buscar essa parte”.
José Régio nasceu em Vila do Conde, em 1901, e morreu na mesma cidade, em 1969. Estudou em Coimbra, onde se licenciou e participou na fundação da revista Presença. Publicou o primeiro livro de poesia em 1925 e, quatro anos depois, foi colocado como professor de Francês em Portalegre, cidade onde viveu grande parte da vida.
Rui Rufino apresentou José Régio como um autor “complexo e multifacetado”, cuja obra ultrapassa a poesia e inclui romances, contos, teatro, ensaios e críticas. A apresentação privilegiou o temperamento, a personalidade e a forma de estar do escritor. Para Rui Rufino, “José Régio foi, acima de tudo, um independente, porque pensava sempre pela sua cabeça”, mesmo quando se afastava das correntes políticas, artísticas e religiosas do seu tempo.
O programa abriu com “Cântico Negro” e prosseguiu com poemas selecionados a partir das representações da mulher. Foram lidos, entre outros, “Para minha Mãe, no dia dos seus anos”, “Em louvor de Maria e José”, “Fado das mulheres de vida fácil”, “Monólogo a dois” e “Carta de Amor”. Rui Rufino apontou a mulher-mãe, Maria, a mulher em luto, a mulher marginalizada e a mulher sujeita às convenções sociais como figuras presentes no percurso da noite.
Ao enquadrar “Fado das mulheres de vida fácil”, Rui Rufino sustentou que, para José Régio, as mulheres marginalizadas podiam revelar maior autenticidade por não viverem presas às aparências. Em sentido contrário, referiu a crítica do escritor à vaidade e à ostentação. “O que é interior engrandece-nos; o que é exterior torna-nos mais pequenos”, resumiu, relacionando essa oposição com a procura de interioridade na poesia regiana.
A sala recriou o ambiente do escritório de Régio, com elementos religiosos que remeteram para a sua vivência cristã. Rui Rufino apresentou-o como “um cristão convicto”, mas “não um cristão típico”, mais próximo dos princípios do Evangelho do que da Igreja. Para o investigador, José Régio via o cristianismo como “uma filosofia”, criticando os desvios e a ostentação da instituição. Colecionador de crucifixos, encontrava nessa imagem “o filho de Deus despido de todo o poder”, entregue ao sofrimento e à redenção.
A participação de jovens artistas de Vagos foi outro dos eixos do “Sainhas com Poesia”, com a bailarina Ana Julião e os músicos Martim Marcelino e Sofia Teles. A música marcou, aliás, vários momentos da noite. Vítor Castro, professor de música, interpretou “Fado Português”, “Sabe-se lá” e “Nem às Paredes Confesso”, acompanhando depois o hino d’As Sainhas à guitarra. “Somos um grupo de quase 60 mulheres inquietas”, reforçou Rute Fernandes, referindo a vontade de aproximar a confraria da comunidade e de lhe trazer “sangue novo”. “A confraria tem de se misturar, tem de se envolver na comunidade”, disse a presidente.
