O recorde de maior número de votos conseguido por António José Seguro é assinalável.
Tem todas as condições pessoais e políticas para fazer um excelente mandato. Antevejo que vou ter discordâncias políticas sobre algumas das suas posições futuras. Mas não discordâncias democráticas. Suspiro de alívio.
Do outro lado, Ventura proclama-se “líder da direita”. Comecemos pelo óbvio: nas últimas legislativas, toda a direita democrática – sem contar com o Chega, claro – obteve mais de 2,3 milhões de votos (37%). Ventura, numa eleição a dois, obteve apenas 1,7 milhões (33%). Eu sei que Ventura não é bom a fazer contas (vidé desastre orçamental das suas propostas), mas acho que percebe que 2,3 é maior que 1,7. Ele sabe que é só líder do seu partido.
Ventura é como o PCP – seja qual for o resultado, ganha sempre. E também como o PCP, tem uma cassete.
O PCP já foi um perigo para a democracia. Nessa altura, Mário Soares optou por liderar a esquerda democrática, voltando as costas a Cunhal e ao comunismo, virando-se para Sá Carneiro.
Hoje o perigo está do outro lado. Será que Montenegro volta as costas a Ventura?
Segundo a sondagem da GFK à boca das urnas, 24% dos que votaram AD em 2025, votaram agora em Ventura. Para estes, a porta já se abriu.
Apesar do eleitorado do Chega ser muito heterógeno (do antigo comunista a sul do Tejo, passando pelos descontentes, saudosistas e conservadores), constitui-se como um bloco à direita, concorrente do PSD. Como é evidente, a direita não alberga dois grandes blocos.
É por isto que Montenegro tem de perceber que o crescimento do Chega vai-se fazer à custa do PSD, até o substituir. Correr com as bandeiras do Chega na esperança de recuperar eleitorado, é aceitar que é Ventura quem lidera. Negociar com o Chega no parlamento é, como disse Churchill, alimentar um crocodilo, esperando que ele o coma por último.
O PSD de Sá Carneiro já teria dito “não” ao Chega. Procurar acordos com Ventura é normalizar um partido que tem uma visão divisiva da política. Ao não renunciar o Chega, o PSD não só o normaliza perante o país, como alimenta o seu maior adversário.
A política entre PS e PSD sempre foi vista como um instrumento de regulação da discordância: procurar o que há de comum, conciliar ideias e no final, permitir o desacordo ponderado. Nos últimos 20 ou 30 anos, para a extrema-esquerda, a política tornou-se o lugar para vincar o desacordo e o desacordo como o elemento essencial para a mudança que intentam para a sociedade. Um espaço de confronto e não de compromissos. Contra o “sistema”, as elites e o grande capital, que se opõem ao povo.
Nos últimos cinco ou seis anos, juntou-se a extrema-direita à tese da política como local de conflito. Não para amenizar divergências, mas para as vincar e alimentar-se delas. Não para encontrar compromissos objetivando o bem comum, mas para que “o meu lado vença”. “Nós”, puros e inocentes, contra “eles”, os poderosos, os lá de cima.
É quando os fins começam a justificar os meios. É quando desvalorizar o voto – a base da democracia – porque há cheias, parece normal.
Se Montenegro não perceber isto, será ele o responsável pela extinção do PSD de Sá Carneiro, de Cavaco Silva e de Passos Coelho – os únicos líderes, ao seu tempo, da direita.
