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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

A Política e a Guerra

Será a guerra apenas a continuação da política? Nos últimos tempos parece que sim. A guerra — o uso da força militar — parece ter voltado a ser vista como um caminho aceitável para atingir objetivos políticos. Não pretendo discutir aqui uma guerra em particular — a da Ucrânia, a de Gaza, a do Irão ou qualquer outra — porque para todas elas existem argumentos e justificações. Na guerra, todos têm sempre razão! A razão deles pode não ser a nossa, mas é suficientemente forte para nos matarmos uns aos outros. E quando todas as outras razões falham, existe sempre a mais poderosa de todas: o imperativo, a necessidade última de sobreviver.

O que importa discutir, enquanto ainda vivemos em paz e podemos dar-nos ao luxo de refletir sobre estas questões, é a relação entre política e guerra. Pode a guerra ser entendida como um instrumento político legítimo? Ou será, pelo contrário, a guerra a derrota da política?

Se para alguma coisa serve a política, é precisamente para criar espaço para que as divergências entre povos e Estados possam ser resolvidas sem o recurso à barbárie da guerra. A política existe para substituir a força pelo diálogo, a imposição pela negociação, o conflito armado pelo compromisso. É através do compromisso que se podem alcançar soluções duradouras. Foi com esse espírito que, após os horrores da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas. A ONU nasceu precisamente para criar um espaço de diálogo entre nações e para promover a resolução pacífica dos conflitos.

Porque os compromissos políticos tendem a transformar-se em vitórias culturais e em transformações societais, e essas sim têm efeitos profundos e prolongados no tempo. Uma vitória militar pode destruir um exército, ocupar um território ou derrubar um regime, mas raramente consegue conquistar as consciências das pessoas. A história está cheia de exemplos que mostram como o sucesso militar nem sempre se traduz numa verdadeira vitória política — muito menos numa vitória duradoura.

Quantas guerras já foram ganhas no campo de batalha apenas para serem perdidas no plano político? Israel esmagou repetidamente os seus adversários em Gaza e no Líbano. Os Estados Unidos obtiveram vitórias militares no Afeganistão e no Iraque. Contudo, anos mais tarde, os conflitos persistem, as tensões regressam e os adversários reaparecem. Muitas vezes surgem das cinzas mais radicalizados, mais ressentidos e mais determinados.

Isto acontece porque a guerra, ao destruir cidades e vidas, também destrói pontes de entendimento e semeia o ódio. O sofrimento gera memórias duradouras, e as humilhações coletivas transformam-se em combustível para novas gerações de conflito.

É possível que uma intervenção militar consiga enfraquecer a capacidade bélica de um país, destruir infraestruturas militares ou atrasar programas estratégicos. No entanto, terá esse efeito um impacto duradouro? Ou apenas reforçará a determinação daqueles que se sentem injustiçados?

A história mostra que a força militar raramente resolve, por si só, os problemas políticos que estão na origem dos conflitos. Muitas vezes, a guerra surge como uma solução rápida e aparentemente decisiva. Mas essa simplicidade é ilusória: é fácil começar uma guerra, muito mais difícil é terminá-la — e mais difícil ainda é construir uma paz duradoura.
Por isso, a grandeza da política não está na capacidade de vencer guerras, mas na arte de as evitar. Porque sempre que uma guerra começa, alguém ganhe uma batalha — mas, no fim, todos perdemos.