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Manuel Armando

Padre

Consciências embotadas

Ouvi já, milhentas vezes, a expressão “consciências embotadas”. Valha a verdade que, em tempos, eu não lhe dava grande importância, talvez mesmo, usando-a. Por negligência ou leveza de espírito, demorei tempo a avaliar o seu significado e aceitei que outros soubessem classificar o verdadeiro conceito.

Todavia, as circunstâncias vão-se tornando mais claras e experimentadas ou meditadas e adquirem-se, assim, outros critérios de avaliações próprios e pessoais que nos abrem caminhos de entendimento sobre o empenho dos indivíduos na sociedade.

Como o tempo se vai esgotando para todos nós, corremos o risco de não nos apercebermos das realidades que surgem nos meandros de uma sociedade torpe que se esforça por colaborar com o mal universal sem lhe prestar atenção, negando, até, entender aquilo que é um desastre para toda a humanidade.

Há um fim do mundo antecipado, cuja importância negativa causa um adormecimento humano de aterrar. São circunstâncias episódicas sangrentas que entram nos olhos e ouvidos, mas não se fixam num coração consciente.

Os acontecimentos mundiais negativos são incontáveis. Parece, na verdade, que está a cumprir-se o Apocalipse, atendendo a semelhante desolação actual.
Olhando tudo quanto podemos abarcar com a nossa natural fraqueza humana, depreendemos que as épocas foram evoluindo serenamente em si mesmas e os homens aproveitaram todo o êxito material para se colocarem também numa situação de certa felicidade.
O decorrer dos dias, porém, vai arredando qualquer indivíduo das obras por ele produzidas, porque deixou de haver, entre elas, o elo de ligação. O homem faz e aperfeiçoa as coisas e, depois, parece descansar alheando-se de tudo o que foi o seu trabalho feito.

De lamentar é que, do muito que construiu, uma parte concorre para a sua destruição pessoal e parece não se mostrar qualquer esforço de recuo. Por isso, caminha-se drasticamente para um final que desconhecemos, mas que surge como inevitável.

As guerras, tenham elas a dimensão que tiverem, são o sinal aberto para a derrocada. Cifram-se em milhares de pessoas, guerreiros e não guerreiros, idosos, jovens, crianças inocentes, sacrificados sem dó nem piedade e tudo gizado na ganância e sede de poder e de bens.

O ambiente social e familiar começou, há muito, e mais agora, a degradar-se. Hoje, crianças e jovens vão perdendo a noção dos valores que não lhes são comunicados nem incutidos.
E tudo o mais que se poderia enumerar. Apenas deveremos apontar como lástima as consciências embotadas que já pouco se incomodam com a tamanha e hedionda desfaçatez deste nosso mundo.
A impassibilidade ou indiferença diante de quaisquer atrocidades cósmicas são a nossa cobardia.