O Parlamento aprovou a restrição do acesso às redes sociais para menores de 16 anos. Um grupo de professores universitários propôs proibir o uso de inteligência artificial nas universidades. Até o Santo Padre manifestou reservas quanto ao uso do ChatGPT pelos sacerdotes na preparação das homilias. Estaremos a voltar a uma nova “Idade das Trevas”?!
Julgo que não! Talvez estas propostas não revelem medo do progresso, mas sim uma preocupação legítima com a forma como estamos a integrar a tecnologia nas nossas vidas.
Os avanços tecnológicos trouxeram ganhos extraordinários. Contudo, as tecnologias não são inócuas. Como qualquer ferramenta poderosa, traz benefícios e riscos. E é não só legítimo, mas também obrigatório refletir sobre a sua utilização e os efeitos que podem gerar, sobretudo nos mais vulneráveis.
Começando pela restrição do acesso às redes sociais para menores de 16 anos. Parece-me uma boa medida. As crianças e os adolescentes não têm a maturidade intelectual nem o equilíbrio emocional de um adulto. Têm direito ao erro, ao disparate, à experimentação própria do crescimento. O problema é que as redes sociais amplificam tudo. Um erro que antes se perdia no recreio da escola pode hoje tornar-se permanente, partilhado, eternizado e violentamente comentado. Como diz a canção, “custa menos um joelho ralado do que um coração partido”. Os nossos jovens precisam de mais joelhos ralados e, talvez até, de mais corações partidos, mas certamente de menos julgamentos digitais.
Mais complexa é a questão da inteligência artificial. Curiosamente, os argumentos do Santo Padre não são teológicos. Não se trata de saber se há ou não algo de “omnisciente” na máquina, nem de questionar se o ChatGPT conhece menos a vida dos paroquianos do que o sacerdote — com a quantidade de informação que hoje colocamos online, é provável que saiba até demais. O argumento é prático: o cérebro é um músculo e, se não o usarmos, atrofia!
Se delegarmos às máquinas a tarefa de pensar, de estruturar argumentos e de escrever, não corremos o risco de perder capacidades? Há indícios fortes de que sim.
Mas será que o ChatGPT pensa? Não. O que revolucionou os sistemas de inteligência artificial foi a capacidade de transformar palavras e frases em representações matemáticas — vetores — que permitem medir proximidades e padrões. A máquina analisa volumes gigantescos de texto produzidos por humanos e calcula qual é a resposta mais provável a partir de uma pergunta dada. Por isso os seus textos soam “redondos”: dizem-nos o que é mais comum, mais expectável, mais estatisticamente consistente.
E é aqui que surge o verdadeiro desafio. Se a inteligência artificial nos oferece o que é mais provável, mais consensual, mais médio, então pensar fora da caixa torna-se ainda mais valioso. A criatividade, o espírito crítico, a capacidade de formular perguntas originais passam a ser competências centrais. A máquina pode ajudar-nos a organizar, sintetizar e ganhar tempo. Mas não pode substituir o julgamento, a intuição, a criatividade, a responsabilidade e a compaixão humana.
Uma coisa é certa: a inteligência artificial chegou para ficar. Não haverá proibição capaz de eliminá-la. Funciona e irá mudar as nossas vidas. Gera ganhos de produtividade que nenhuma sociedade pode ignorar. A questão, portanto, não é se a usamos, mas como a usamos.
