Assine já

João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Hesitação

Hesitei sobre o que escrever nesta crónica. Não por falta de temas, que o mundo está ao rubro:

  • Pensei em escrever sobre como foi possível Trump deixar-se levar por Netanyahu, iniciando uma guerra contra o eleitorado que o elegeu, sem objetivo político, atacando uma nação orgulhosa governada por radicais obstinados, aliados dos inimigos da civilização ocidental, sem precaver a necessidade da manutenção do estreito de Ormuz, essencial para a economia mundial, algo que um adolescente no 3.º ciclo que tivesse prestado um mínimo de atenção às aulas de geografia e de história, teria percebido.
  • Internamente tivemos o caso de Centeno, elevado a escândalo nacional. Não por estar a ganhar 15.000€/mês enquanto consultor automático do Banco de Portugal sem ter produzido uma linha de algum tipo de trabalho neste tempo – designado por Álvaro Santos Pereira como “cooling off” – mas por passar à reforma com 2/3 desse valor, pago pelo fundo de pensões do BP — um fundo fechado, sem tocar nas contas públicas. Esta decisão do novo governador do BP — que afeta mais uns quantos “consultores” — é boa gestão de recursos.
  • Junto ao meu coração, o excelente artigo de Rodrigo Guedes de Carvalho no Expresso do último fim de semana, denunciando o assassínio da língua portuguesa por jornalistas e comentadores da rádio e TV (a que junto professores e padres). Refere-se o escritor e jornalista ao uso relativamente recente do infinitivo para começar uma frase. “Dizer que…”. Uma praga. Um atentado. Um mau hábito ninguém já notar. Acrescento a utilização também já corriqueira da expressão “que é” — “Aqueles têm uma ideia, que é…”. Para não falar da irritante repetição da expressão “ou seja” quando não se está a clarificar qualquer ideia. Ou o “imagina” quando se está a expressar uma ideia sem ser necessário imaginar o que for.
  • Localmente, a grande notícia da semana foi a visita de uma importante delegação de empresários, técnicos e académicos chineses interessados em investir em energia verde no concelho da Mealhada. Não é investimento em óleo e parafusos, em fábricas poluentes e mal cheirosas. É investimento na economia do futuro, indústria limpa, em desenvolvimento económico, em recursos humanos qualificados e melhores salários. É assim que se retêm os jovens e se atrai população. Não só para a Mealhada, mas para toda a Bairrada. Se eu fosse autarca de Anadia ou Cantanhede, já estava ao telefone com o Presidente da Câmara da Mealhada a disponibilizar toda a ajuda que pudesse prestar. A talho de foice, se se quer falar de regionalização, comece-se por aqui, de baixo (da iniciativa regional intermunicipal setorial) para cima (para os decisores centrais).
  • Já o tema ruidoso da política nacional foi (é) a negociação dos juízes para o Tribunal Constitucional. Relembro que o intuito da maioria qualificada é encontrar um consenso sobre os nomes eleitos pelo parlamento. Se fosse — como dizem agora — para ser uma representação parlamentar, bastava votação simples. Duas notas de ironia: o Chega, que se diz de fora do sistema, é o principal instigador deste jogo de lugares do sistema; ser esta esquerda a exigir os acordos tácitos, a mesma que em 2015 rasgou os tais acordos não escritos, impedindo o partido vencedor das eleições de formar governo.

Mas divago. O tema que me interessa abordar esta semana é a necessidade do foco no essencial e deixar o acessório. Mas fiquei sem espaço…