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Bruno Santos

Professor de História

Março, mês de Feira e de luta

Março, por estas bandas, é primeiro a Feira, a tradição, barracas e o cheiro a farturas. Mas não é só isso. É também o mês de metade do mundo, ou do mundo todo, como lembra Efu Nyaki: “Metade do mundo são mulheres. A outra metade, os filhos delas.”

Beatriz Ângelo era médica, viúva e, em 1911, fez uma coisa que nenhuma mulher em Portugal ousara: votou. A lei falava em “chefes de família” e ela cabia ali. O sistema não gostou. Pouco depois, a lei ganhou um par de palavras: “do sexo masculino”. A porta que Beatriz abriu fechou-se com estrondo.

Hoje, o mesmo estrondo volta a ouvir-se. Há quem queira vender a submissão como ordem, a nostalgia como refúgio. E o mais estranho é ver mulheres a aplaudir de dentro. Aplaudem um passado que, para a Beatriz, era uma jaula. Talvez por cansaço. Talvez por desinformação gerada pelo “digital”. Talvez por se terem esquecido que a liberdade não se pede emprestada. Nenhum direito está guardado a sete chaves. É preciso vigiar, lembrar, não deixar que o relógio da história role para trás com cara de tradição. O que um dia se conquistou pode perder-se se ninguém estiver atento.

Calar metade do mundo é calar o mundo inteiro. E isso, convenhamos, não é nostalgia nenhuma.