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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

O mercado de trabalho já não é o que era

No seu último artigo publicado no Expresso, Cavaco Silva, de 86 anos, tocou com clarividência e discernimento, nos botões todos: batalhou com respeito o PS como seu adversário de sempre; anotou Ventura como inimigo da democracia; chamou à atenção de Montenegro para fazer o que o país precisa, que, tal como sugerido por Sá Carneiro, é também o que o PSD e a democracia precisam: as reformas.

Ao ler o seu artigo, lembrei-me do Center on Longevity Leadership (centro de investigação dedicado à economia da longevidade), criado por Céline Abecassis-Moedas, Pro-Reitora para a Inovação e Empreendedorismo da Universidade Católica Portuguesa.

É evidente que pessoas com mais de 50 anos têm tendência para ter mais experiência, pensamento crítico apurado, mais adaptabilidade, ponderação, capacidade de ouvir, num conjunto de soft skills que só o tempo consegue aportar.

Já não há empregos para a vida. Esta nova máxima – verdadeira – é apresentada sempre do ponto de vista do jovem trabalhador que sabe (e quer) que vai passar por várias empresas, diferentes profissões, em múltiplas geografias. Mas esta máxima raramente é apresentada sob o ponto de vista das empresas.

Ao contratar jovens trabalhadores, também as empresas têm de perceber que estes não vão ficar para sempre. A ideia de contratar jovens para os moldar à cultura da empresa na esperança de que eles fiquem até à reforma, também tem de desaparecer, por imposição da realidade.

Acresce que a “pirâmide” demográfica já não é uma pirâmide. Segundo os dados do INE produzidos a 3 de abril de 2024 e referentes ao ano de 2022, mais de um terço da população (34,5%) tem entre 50 e 74 anos. O quartel anterior (25 a 49 anos) representa apenas 29,4%. E com menos de 24 anos, a percentagem é ainda menor, 23,5%.

Se considerarmos que além desta distorção demográfica, muitas das pessoas com menos de 49 anos (a geração melhor preparada de sempre) ou já emigraram ou vão emigrar – onde encontram projetos profissionais mais desafiantes, melhores salários, legislações laborais mais flexíveis – a oferta de mão-de-obra jovem vai (já está) escassear. As empresas, quer queiram, quer não, vão ter de contratar pessoas com mais de 50 anos. Logo porque são as que estão disponíveis no mercado. Mas este facto tem outra implicação, que tem de ser óbvia: a minha geração, pessoas nos seus cinquentas, não se vai poder reformar aos 66 anos. Não é uma questão de direitos. É uma questão de dever perante a sociedade. É uma questão de necessidade da economia. De procura de mão-de-obra. As empresas vão necessitar de pessoas para trabalhar, apesar da IA. Aliás, a advento da IA vem reforçar a necessidade de trabalhadores com mais experiência, pensamento crítico, capacidade de resolução de problemas. O último relatório do Future of Jobs do World Economic Forum faz essa ligação entre o desenvolvimento da automação e IA e a necessidade de recursos
humanos com aquelas soft
skills.

Uma pessoa de 50 anos, que tenha começado a trabalhar aos 23/24 anos, está hoje a meio da sua carreira. Graças ao avanço da ciência, do conhecimento, refletido na qualidade da prestação de cuidados de saúde e prevenção, não só vivemos mais tempo, como vivemos melhor, mantendo capacidades cognitivas durante mais tempo e com qualidade.

Agora que se discute a reforma laboral, era bom perceber que a economia vai necessitar que as pessoas trabalhem durante muito mais tempo.