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Jorge Mendonça

Oliveirense

Quero (poder), posso (ter bola) e mando vir (pó de arroz)

O acesso ao serviço da Sport TV nos gabinetes do primeiro-ministro e do ministro dos Assuntos Parlamentares, que dura desde 2017, foi renovado através de um contrato celebrado a 23.12.2025 entre a Secretaria-Geral do Governo e a operadora, mantendo as oito ligações pré-existentes, com um custo de mensal de 585,00 euros até Agosto de 2028.

Perante o eco da indignação manifestada pelas opiniões pública e publicada, o primeiro-ministro instruiu o Secretário-Geral do Governo a reduzir as ligações de oito para duas, diminuindo para 146€ o custo mensal para os nossos governantes continuarem a assistir a eventos desportivos em espaços destinados ao exercício governativo.

Num contexto em que o discurso oficial insiste em rigor, contenção e responsabilidade orçamental, o governo, ao invés de erradicar um vício que vinha de trás, limitou-se a maquilhá-lo, reduzindo uma despesa que devia eliminar.

Poucos dias depois, o secretário-geral do Governo, Carlos Costa Neves, assinou em 19.02.2026 um contrato no valor de 11.520,00 €, destinado à prestação de 50 serviços num ano, em maquilhagem e desmaquilhagem para damas e cavalheiros, e também serviço de cabeleireiro para as damas, para assegurar a imagem perfeita dos seus membros quando têm de participar em conferências de imprensa a partir dos respectivos gabinetes.

Parece até que o governo terá sido bastante comedido, ao deixar de fora o arranjo das sobrancelhas e das vibrissas, vulgo pelos do nariz, e até mesmo do guarda-roupa e calçado (que se querem de marca e à medida), joias, relógios e demais acessórios.

À partida, e até porque não se trata de valor que coloque em crise o orçamento do Estado, não suscita reparo o facto de os membros do governo deverem aparecer «bem na fotografia» quando, em representação do governo, participam em conferências; só que esta, é a mera análise da questão sob o ponto de vista do acto administrativo propriamente dito.
Acontece porém, que a assinatur
a destes contratos, não pode ser vista apenas como meros actos administrativos, já que os mesmos representam a postura do governo no que respeita às prioridades no dispêndio de dinheiros que sendo públicos, são inapelavelmente sagrados.

No fundo, a mensagem que o governo passa com a assinatura destes contratos, é que o valor de 230,00 euros gasto semanalmente em pó de arroz para disfarçar as olheiras e as rugas dos membros do governo, acrescido do valor de 36,50 euros também semanal para ver eventos desportivos, é superior àquele que milhares de famílias têm, num mês, disponível para a alimentação.

O que isto significa, é que é à custa do dinheiro de contribuintes que vivem num país onde o Serviço Nacional de Saúde está pejado de listas de espera intermináveis e os médicos saem do sector público por falta de condições, onde milhares de famílias contam os cêntimos para pagar rendas fantasmagóricas, onde a carga fiscal está entre as mais elevadas da Europa para a classe média e onde os pensionistas optam entre medicamentos e aquecimento no inverno, o governo dá prioridade ao esfoliante a aplicar no rosto dos seus membros e aos feitos desportivos dos seus ídolos.

Ora, tendo sido esta a escolha do povo português, tudo se resolveria sem despesa para o erário público, se os membros do governo fossem Barbies e Kens que não gostassem de bola, e surgissem nas conferências de imprensa com «griffes» assinadas por estilistas famosos, apresentando produtos de luxo, alta qualidade e prestígio, e cabelos com coloração de «balayage» a garantir «looks» saudáveis, brilhantes e chiques.

Isso é que era na «mouche»!