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Jorge Mendonça

Oliveirense

Racistas e racismos

A discriminação e incitamento ao ódio e à violência, é ilícito criminal previsto no artigo 240.º do Código Penal, punível com pena de prisão.

Chamar macaco a um negro, é um insulto racista; e chamar suíno a um branco, ou sapo a um cigano, também é? E chamar cobra a uma mulher ou boi a um homem, o que é isso?
Recuando no tempo, temos como expoentes máximos de racismo duas declarações que envolvem um dos políticos portugueses que, há quem diga, terá sido uma proeminente figura: uma primeira, em 1973, durante uma visita ao Brasil onde, como consta de uma crónica da autoria de Santana Mota, correspondente em Lisboa do jornal brasileiro «O Estado de São Paulo», afirmou que a solução para os brancos que viviam nas colónias africanas portuguesas seria «atirá-los aos tubarões»; uma outra quando, numa entrevista à revista alemã «Der Spiegel» n.º 34/1974, em 19.08.1974 (como ministro dos negócios estrangeiros), publicada no livro «Mário Soares – Democratização e Descolonização», à questão «Se necessário, o exército português fará fogo sobre portugueses brancos?» respondeu, «Não hesitará nem pode hesitar.»

Como é evidente, a comunicação social partidarizada e alinhada, encarregou-se logo de branquear estas declarações de racismo de um branco (alegadamente puro) sobre outros brancos (para ele de estirpe inferior).

Nos tempos que correm, a questão do racismo ganha contornos de esquizofrenia no mundo do futebol, onde tudo o que mexe é visto à lupa e imediatamente abocanhado pelo esgoto televisível consoante a dimensão dos clubes envolvidos: é o caso do personagem que, arvorando-se em inatacável exemplo da ética e do desportivismo, diz que retirar toalhas penduradas na baliza de um guarda-redes, ou os apanha-bolas retirarem dos pinos as bolas suplementares, é coisa que «já não se vê nem na Europa periférica, só em África!»: isto não é racismo? Poucos dias depois, correu o risco de «morrer de vergonha ao enfrentar os filhos quando chegou a casa», depois de ver e ouvir a claque do seu próprio clube, num jogo de futsal, a chamar macaco a um jogador negro que se transferiu para o clube adversário, e que até ao final da época passada era o líder em campo da equipa do seu clube: aqui também não há racismo?

A um nível de exponencial alucinação clubística, estão aqueles que dizem que o jogador do seu clube não pode ter chamado «mono» ao adversário, porque é atleta de um clube que tem como estrela maior e como histórico capitão dois moçambicanos negros, e como jogador mais titulado, um brasileiro, também negro.

Tudo isto soa a sofisma porque, é sabido, o racismo não está nas instituições, mas nas pessoas.
Em Angola, o já extinto Futebol Clube do Lobito foi um clube cujos responsáveis tinham um modelo bem definido na gestão das equipas dos vários escalões: aceitavam inscrição de jogadores de qualquer raça, mas os séniores tinham obrigatoriamente de ser estudantes ou trabalhadores: e se estivessem desempregados, os directores do clube tratavam de arranjar-lhes trabalho. Nos diversos escalões, nenhum capitão era escolhido pela cor da pele, e lembro-me muito bem que era Chipenda o respeitadíssimo (por colegas e adversários) capitão da equipa sénior em 1974/1975.

Este modo de gestão permitia, não apenas a evolução desportiva dos atletas, mas também o seu enriquecimento sócio-profissional.
Destes «racismos», como o praticado na filial n.º 48 do Futebol Clube do Porto pelos «racistas» senhores Rubens e Eurico Mendonça e Inocêncio Martins (meus tios), e Alberto Mendonça (meu pai), devemos orgulhar-nos; dos «outros», devemos todos manter uma higiénica distância!