Embora as contas não estejam completamente fechadas, os resultados operacionais e líquidos do ano de 2011 têm saldo negativo, situação que se irá manter no ano que agora inicia. Daí que, contas feitas, a direção da Santa Casa de Misericórdia de Sangalhos aponte, em 2012, para um défice que poderá rondar os 109 mil euros.
“O ano de 2011 foi muito difícil, mas este ano não será melhor”, reconhece o provedor Manuel Gamboa que explica estar na base desta derrapagem, a falta de recursos financeiros, mas também um agravamento da tesouraria da instituição. “As contas têm saldo negativo, mas os resultados alcançados são muito bons, com todos os compromissos cumpridos e melhoria significativa em todos os aspetos da vida da instituição,” refere.

Muito trabalho feito. “Ao tomarmos conta desta Casa, tínhamos consciência dos muitos problemas e dificuldades que acarretava, mas com o tempo fomos confrontados com situações muito mais preocupantes do que inicialmente fora previsto”, disse, sublinhando ainda o facto dos subsídios acordados com a Segurança Social não estarem a ser atualizados, traduzindo-se numa perda progressiva de recursos financeiros. “O custo médio de um utente de Lar é de 1160 euros/mês, mas a Segurança Social comparticipa apenas em 350 euros”, explica, lamentando ainda a diminuição de donativos: “muito raramente alguma entidade nos contempla com um donativo efetivo”.
Manuel Gamboa refere ainda que a crescente onda de desemprego, os baixos salários e as magras pensões de utentes se refletem na vida do dia a dia da Misericórdia. Uma situação que se agrava ainda mais se tivermos em atenção que só no ano de 2011 as mensalidades em atraso de utentes totalizou mais de 33 mil euros, sendo 26 mil referentes a prestações do Complexo Social da Pessoa Idosa e quase sete mil de mensalidades do Centro de Bem-Estar Infantil.
“Temos situações altamente devedoras, mas não temos coragem de pôr as pessoas na rua. Nesse sentido, temos vindo, na valência de Lar, a pedir uma compensação familiar, mas mesmo assim com resultados pouco palpáveis”, acrescenta.
Paralelamente, dá conta da escalada dos custos fixos (combustíveis, gás, eletricidade, água) que não param de aumentar. Situações que somadas tornam a gestão muito difícil: “esta casa mantem-se de pé graças a um controlo orçamental, financeiro e administrativo muito rigoroso, sem precedentes.”
Por isso, o lema é sobreviver no dia a dia, cumprindo e honrando todos os compromissos: “não temos vencimentos em atraso, nem dívidas a fornecedores”, acrescenta Manuel Gamboa, que destaca o esforço da atual direção (que cumpre o terceiro ano de mandato) na atualização aos vencimentos do pessoal, que estavam muito baixos. “Nos últimos dois anos, os custos com os vencimentos aumentaram 140 mil euros, empregando a instituição presentemente 105 funcionários”, avançou.

Aproximação à comunidade. Com uma nova postura e forma de estar mais próxima da comunidade, a direção da Santa Casa lança um apelo sentido ao espírito solidário da população por forma a que a instituição possa continuar a servir, nestes tempos difíceis, os mais carenciados.
O apelo à comunidade local, aos irmãos, aos particulares e empresas visa tão somente fazer um pedido para que nestes tempos conturbados todos sejam mais generosos e solidários com esta IPSS.
Assim sendo, para fazer face às crescentes dificuldades, foi deliberado, na última assembleia-geral, a atualização das quotas que passam para 12 euros/ano (mínimo), não deixando Manuel Gamboa de destacar o facto de, nos últimos anos, terem entrado algumas dezenas de novos irmãos, fruto do trabalho que vem sendo realizado pela Santa Casa.
Por outro lado, a instituição tem feito uma aposta contínua na melhoria das instalações e na qualidade dos serviços prestados, com destaque para os investimentos recentes realizados na lavandaria, cozinha e aquecimento central do Complexo Social da Pessoa Idosa, na melhora dos serviços administrativos por forma a ter uma gestão moderna e eficiente dos recursos, prosseguindo a política de redução e controle de custos, mas também na requalificação do Centro de Bem-Estar Infantil.

Vários projetos em carteira. Embora o ano de 2012 se preveja igualmente muito difícil e trabalhoso, não deixa de ser ambicioso. Neste ano em que a instituição celebra 80 anos de vida, a direção pretende concluir a vedação do Complexo Social da sede, continuar com as obras de reabilitação do edifício do Centro de Bem-Estar Infantil, instalar um parque infantil anexo ao Infantário, dar seguimento ao anteprojeto para a requalificação das instalações do Lar, que conta já com 22 anos.
A obra, que ascende a um milhão de euros, integra a construção de um novo edifício, com localização junto ao edifício sede e obras de restauro no edifício atual. Em Outubro, no âmbito das comemorações do 80.º aniversário, será levado a cabo um cortejo de oferendas. Um retomar de uma tradição que se pretende uma grande envolvência de toda a comunidade. O programa sobre esta iniciativa será oportunamente anunciado.

Catarina Cerca
catarina@jb.pt