Maria José Lopes vive, há 26 anos, na fronteira entre as freguesias de Oliveira do Bairro e de Oiã, mais concretamente no Parque da Seara. Completamente isolada, e apenas com o habitual convívio das cobras e dos lagartos, que coabitam num silvado que teima em não desaparecer, a idosa diz ter deixado, há muito, de acreditar na política e nos políticos. Dos políticos, apenas guarda na memória o dia em que “o Dr. Acílio Gala [antigo presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro] mandou colocar um poste de iluminação pública, junto à entrada da minha casa. Acredite que, se não tivesse luz, já não estaria por estas bandas”.
Amargurada, Maria José Lopes vai contando que, se o marido fosse vivo, “as coisas não tinham chegado a este ponto”. “Como é que posso viver, em sobressalto constante, por causa de um silvado que, cada vez mais, se aproxima da minha casa? Repare! Repare! Aquilo que está a ver do outro lado das silvas é a minha casa. Isto seria tão fácil de resolver com uma máquina, tal como já foi prometido por diversas vezes?”
A moradora justifica que a limpeza do silvado e da própria vala hidráulica, que separa as duas freguesias, é uma questão de salubridade e que poderá evitar, no inverno que se aproxima, situações de cheias e, no verão, reduzir o grau de risco de incêndio. “Afinal, só quero viver livre de bichos. São cobras e sardões que vivem no matagal, mesmo aqui em cima da minha casa.”

Sem direitos

Maria José Lopes diz sentir-se uma cidadã sem direitos, mas com deveres. Assim, conta que nem ao próprio correio tem acesso. “Tenho que andar quase um quilómetro para ir buscar as cartas. Bem lá do outro lado, tenho uma caixa junto à beira da estrada e vou todos os dias verificar a existência de correspondência”, afirma, lamentando que “essa é mais uma das promessas que ficou por resolver. Há uns três anos, depois de reclamar, pediram-me para colocar uma caixa de correio na porta da minha casa. Pois! Ali está ela, mas sem qualquer utilização”.

Limpeza a caminho

O presidente da Junta de Freguesia de Oiã, Dinis Bartolomeu, diz que a moradora tem toda a razão, mas, confessa que “não conseguimos estar em todos os lados, como desejaríamos”. Contudo, logo se prontificou a resolver o problema de Maria José Lopes, prometendo que “até ao final do mês não conseguirei fazer essa limpeza, mas no início de dezembro trataremos de tudo o que nos diga respeito.”
O autarca alertou, no entanto, que tem conhecimento de um corte de árvores que foi efetuado naquela zona, tendo os proprietários deixado alguma ramagem na vala hidráulica. “Essas pessoas têm que ser chamadas, ao local, para limparem os restos da madeira que por lá deixaram”, acrescentou o autarca.

Pedro Fontes da Costa