“É preciso envolver todas as direções das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS’s) do concelho para tornar o trabalho da cantina social o mais abrangente e visível possível”, admitiu Carlos Martins, presidente da direção do Centro Social, Cultural e Recreativo da Freguesia de Avelãs de Cima que promove esta resposta social, no concelho de Anadia, desde junho de 2012.
Em jeito de apelo e ao mesmo tempo de desafio, admite que a cantina social precisa de uma maior divulgação, mas também que as instituições se mostrem mais recetivas.
“Esta é uma cantina social atípica, porque temos despesas acrescidas no transporte das refeições que levamos a quem delas precisa. Isto porque, ao contrário do que se passa nas grandes cidades, onde as pessoas têm uma ampla rede de transportes públicos para se poderem deslocar e levantar as refeições nas cantinas sociais, a verdade é que em contexto rural, o panorama muda e são as instituições a fazer a entrega das refeições ao domicílio, com todos os custos que esse serviço acarreta”, destacou.
Com as refeições pagas pela Segurança Social a 2,50 euros, não existe qualquer rentabilidade para as instituições. “Nas cidades dá lucro, aqui, no nosso meio não, mas é uma forma de ser mais solidário”, já que se trata de um projeto em que as despesas e custos se sobrepõem aos ganhos ou proveitos.
Carlos Martins sublinha ainda o facto de nos grandes centros a miséria poder ser maior. “Aqui há sempre um vizinho ou familiar que dá a mão. Ou seja, a fome acaba por ser mitigada pela ajuda comunitária”.
A cantina social está a matar a fome a 35 pessoas e garante que pessoas e/ou famílias que mais necessitem, tenham acesso, sete dias por semana, à refeição do almoço, gratuita, no âmbito da Convenção da Rede Solidária de Cantinas Sociais para o Programa de Emergência Alimentar (PEA).
Preparada para servir 65 almoços, a instituição está longe de alcançar este número. Contudo, está já em articulação com a instituição social da Pedralva, que está a servir 10 refeições. “Estas parcerias são a forma encontrada para chegar ao maior número de famílias carenciadas do concelho, fazendo uma melhor cobertura do território”, acrescentou.
“Seria bom que mais IPSS’s se juntassem a nós para cobrir todo o concelho, que tem um território tão vasto”.
Neste momento, a instituição cobre a freguesia de Avelãs de Cima, Moita, Anadia, Mogofores e Avelãs de Caminho. A instituição da Pedralva faz o apoio às freguesias de Paredes do Bairro, Ancas e Tamengos.
Embora haja alguns agregados familiares a passar fome, dá conta de alguns casais com filhos menores a cargo e famílias monoparentais em situações de desemprego, que são cada vez em maior número. Depois existe a outra pobreza que, sendo crónica, também não pode ser desprezada. “Acresce ainda dizer que é muito difícil chegar, por exemplo, a idosos, sem retaguarda familiar, nas zonas serranas do concelho ou em locais mais isolados”, admite.
Em todos os casos, o apoio está a ser prestado de uma forma muito discreta e com o maior sigilo, já que os agregados apoiados assim o desejam. Por isso, levam a comida a casa, ou esta é deixada em locais estratégicos e acordados previamente com os beneficiários, por forma a que ninguém se aperceba. Apenas uma família levanta a refeição no Centro Social e nenhum dos apoiados come no refeitório do Centro Social. “Têm vergonha”, diz, dando conta que para todos, os termos levam sempre sopa a mais para que dê para a refeição da noite. “Essa tem sido a nossa política”, afiança.
Não podem beneficiar do PEA, a(s) pessoa(s) e/ou família(s) que, sendo já utente(s) da instituição, beneficie(m) de alimentação e/ou refeições, por via da frequência de qualquer outra resposta social em que se encontra(m) inscrito(s); que seja(m) já apoiada(s) por qualquer outra via ao nível da alimentação.
Refira-se ainda que, no distrito de Aveiro, funcionam 21 cantinas sociais.

Catarina Cerca
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