No salão da Biblioteca Municipal de Anadia, decorreu, na tarde do último sábado, o segundo Encontro de Poesia, que contou com a presença de alguns poetas populares e também de amantes desta arte sublime e foi pretexto para o lançamento do livro de poesia, intitulado “Lavrando Versos”, da autoria de Armando Henriques Pereira.

O livro. O poeta neste livro canta o campo, a flor, a urze, o tojo, o vinho e o trigo, as tarefas rurais, num tempo em que “parece que temos todos vergonha de assumir a nossa raiz rural. Isso é fruto de uma globalização que concorre para matar a identidade da nossa terra, da nossa pátria, que, por vezes, é apenas o curto chão onde vivemos”. Por isso, mais do que no livro de estreia, “Laços de Fogo”, tenha o autor feito questão de “andar muito à volta da lareira e das fainas agrícolas. Para que as novas gerações fiquem a saber um pouco das suas primeiras raízes, o que era a vida difícil de seus pais”. Regista costumes desaparecidos, lembra árvores de frutos e “veste-as de versos”. “Daí que a aldeia velha ou a sua alma sejam tema recorrente no autor”, afirmou o apresentador (signatário).
É bem patente no livro a veia satírica do autor, onde se sente muito à vontade, como nas poesias “os ladrões já são heróis”, “Povo enganado”, “Palavras ácidas” e tantas outras que assentam que nem uma luva a muitos dos nossos políticos de hoje.
Em resumo, pode definir-se este livro como “um cântico vivido e sentido em louvor do campo e suas antigas vivências, que vale a pena ler para recordar como um lenço bordado de louças e enamoradas promessas, em louvor da sua aldeia beirã que tanto canta”.
O presidente da Câmara, Litério Marques, que presidiu, no uso da palavra, elogiou o trabalho de Armando Pereira e apresentou uma proposta: a Câmara estará sempre disponível para patrocinar obras saídas das mãos dos poetas populares, apenas sob uma condição: que tenham qualidade. Como era o caso.

Lugar à poesia. Organizado pela Biblioteca e com o empenho de Sónia Almeida, sua responsável, após a apresentação do livro, houve espaço à poesia, de carácter popular (esta, de autores do concelho de Anadia, Albino Silva, Belarmina Martins e Armando Henriques Pereira, que leu algumas poesias de um próximo terceiro livro) ou de grandes autores por amantes de poesia, como Albano João, Octaviano Seabra, um admirador incondicional de Fernando Pessoa e Vanda Póvoa, uma enóloga.
A sessão não poderia abrir melhor. Albano João recitou admiravelmente o poema “nega flô”, do brasileiro Jorge Lima e a “Procissão”, de António Ribeiro. Também Octaviano Seabra mostrou duas coisas: uma memória de elefante, ao recitar, de cor e sem hesitações, um longuíssimo poema de Fernando Pessoa e ainda um outro de menor dimensão, mas de igual beleza.
Dos poetas populares presentes leram poesia de sua lavra ainda Albino Silva (pois, claro, um belo soneto de amor), Belarmina Silva, algumas poesias das muitas que tem produzido a partir dos 70 anos. Paulo Ferreira leu uma poesia de Belarmina e anunciou que também tem em mãos um livro de poesia. A sessão encerrou com um poema do grande poeta popular, Manuel Alves, do Vale do Boi, que, na sua acesa crítica, punha de rastos a Monarquia, tempo em tudo semelhante ao de hoje, a bancarrota, dito pela vereadora da cultura Rosa Tomás.
Esta iniciativa, com começo em 2010, bem como outras, “Poesia pelas ruas de Anadia”, iniciada em 2010), de autoria de poetas do concelho, e o concurso de “letras de Primavera” a decorrer entre 21 de Fevereiro e 20 de Maio, mostram que a edilidade, em colaboração com a Biblioteca, dão importância a esta área de cultura, mostrando-se satisfeita com os resultados alcançados Sónia Almeida.

Armor Pires Mota