Numa iniciativa promovida pela ALDA – Associação da Lavoura do Distrito de Aveiro, cerca de 50 produtores de batata dos concelhos de Anadia e Oliveira do Bairro reuniram-se junto ao mercado de Vilarinho do Bairro, Anadia, indignados pela falta de resposta do Governo e do Ministério da Agricultura aos problemas de escoamento e da baixa dos preços à produção.
A situação é calamitosa e dramática para os produtores. Após a concentração dos agricultores junto ao mercado de Vilarinho do Bairro, os promotores da conferência de imprensa convidaram os jornalistas a visitar um terreno de batatas, nos Banhos, Vilarinho do Bairro, propriedade de Mário dos Santos Simões, onde era visível o amontoado de sacos de batatas, ainda sem destino.

Silêncio. “A preocupação dos produtores e agricultores é enorme. Depois de uma primeira iniciativa na Câmara Municipal de Aveiro com os produtores do leite, onde também estiveram presentes agricultores de batata, enviámos vários documentos ao Ministério da Agricultura e ao presidente da República para os problemas de escoamento e da baixa dos preços à produção da batata. Até hoje não obtivemos qualquer tipo de resposta por parte do Ministério da Agricultura e de Cavaco Silva, nem de outros órgãos de soberania.” Foi deste modo que, Albino Silva, presidente da ALDA, se dirigiu aos muitos jornalistas presentes.
Atualmente, o preço por quilo de batata, custa cinco cêntimos, as grandes superfícies praticam outro tipo de preços (30 cêntimos), e os agricultores, em uníssono, dizem que “alguém está a ganhar à nossa custa”.
Albino Silva proclamou que era importante haver uma reunião com as grandes empresas e pediu que a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, “venha aqui, olhos nos olhos, falar com os agricultores e ver o problema da falta de escoamento do nosso produto e os preços que estão a ser praticados, pois não há qualquer intervenção por parte do Governo”, acrescentando que “a situação é muito grave para os agricultores e, no próximo ano, também não sabemos se nos pagam o preço certo. O futuro não é risonho”.

Sem retorno. “O setor da batata tem muito investimento. Uma pessoa, por dia, na apanha da batata, ganha 30 euros. Os cinco cêntimos por quilo não pagam a colheita. Quinze cêntimos, por quilo, é um preço para não perder dinheiro e para fazer face ao custo da produção”, afirmou Manuel Reis, produtor da Mamarrosa – Oliveira do Bairro, que este ano semeou três hectares – cerca de 100 sacos de batatas. “No ano passado deu algum dinheiro, este ano semeou-se muita batata, e é aquilo que todos sabem. Há agricultores que não têm outra fonte de rendimento e, perante este estado de coisas, não têm dinheiro para pagar os custos e vão à falência. O cenário poderá ser este”, avisa Manuel Reis.
Antíbio Seabra, outro dos produtores, referiu que “há jovens que ficam endividados para toda a vida”, e que o Governo terá que “tomar medidas urgentes na resolução deste problema”.
Mário dos Santos Simões, proprietário do terreno visitado pelos agricultores em Banhos, dedica-se em exclusivo à produção da batata desde 1999. Diz que houve um ano em que as batatas ficaram todas na terra por causa de uma praga de traça. Agora, adianta, que “este ano é para esquecer”, ele que semeou 12 hectares.
“Tenho 350 toneladas de batatas e ainda não vendi 100. E daqui a uma ou duas semanas, os espanhóis invadem o país, e tudo se torna ainda mais complicado para os agricultores.”
O produtor bairradino confessou, já numa alusão à próxima posição a tomar pelos produtores, que “o presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro (Mário João Oliveira) é muito amigo do povo dele e apoia estas iniciativas”, sublinhando ainda que “a CALCOB já devia ter feito alguma coisa pelos agricultores, tal como as cooperativas”.

Concentração. Na próxima quinta-feira, dia 7 de agosto, pelas 11h, a Comissão de Produtores de Batata, vai levar a efeito uma concentração em frente à Câmara Municipal de Oliveira do Bairro.
O tema volta a ser “pelo escoamento a melhores preços para a nossa batata” e os promotores da iniciativa vão entregar um documento ao presidente da Câmara Municipal, Mário João Oliveira, e solicitar o apoio da autarquia e dos autarcas.
A Comissão de Produtores de Batata faz um apelo para que os agricultores compareçam em massa e levem a sua máquina ou viatura agrícola.
Manuel Zappa
zappa@jb.pt