O vereador Litério Marques apresentou, na última reunião de executivo, uma insólita proposta de louvor a um chefe de divisão da autarquia anadiense. Uma proposta de louvor, no mínimo, irónica, no sentido em que visa obrigar a edil Teresa Cardoso a apurar responsabilidades em diversas situações que defende terem de ser esclarecidas “até às últimas consequências”.
O mal-estar durante a reunião de executivo foi por demais evidente, agravado pelo facto de também o vereador José Manuel Ribeiro, do PSD, ter, em certa medida, acompanhado o vereador Litério Marques pelo menos no que à necessidade de apurar responsabilidades e factos diz respeito.
O insólito aconteceu quando o vereador Litério Marques apresentou a proposta de louvor na sequência de uma notícia publicada pelo Jornal da Bairrada, em que numa entrevista, um presidente de Junta de Freguesia do concelho tece elogios a um chefe de divisão da autarquia anadiense.
De uma forma sarcástica, o ex-presidente do município anadiense, agora vereador eleito pelo MIAP, apresentou, por escrito, os fundamentos da dita proposta de louvor, não elogiando mas fazendo acusações a um chefe de divisão da autarquia com quem trabalha há vários anos. No entanto, a proposta de louvor visa ainda outros funcionários por alegados comportamentos menos corretos.
“Na notícia o presidente da Junta identifica de forma clara o técnico enumerando as suas virtudes, sabedoria, experiência e conhecimentos”, disse, argumentando que sendo responsável por essa divisão lhe ficaria mal “não propor um louvor e, ao mesmo tempo, registar ao senhor presidente da Junta o meu agradecimento por me ajudar a corrigir tão flagrante desatenção e quem sabe até injustiça”.
Mas, é nos fundamentos do louvor “envenenado” que Litério Marques enumera um conjunto de acusações, através de dois exemplos: o caso da obra de requalificação urbana da zona envolvente ao Complexo Escolar e Desportivo de Anadia. Uma obra onde terá sido gasto, numa faixa de rodagem, mais de 60 camionetas de betuminoso em pouco mais de duzentos metros, o que equivale a mais de 53 mil euros. Uma obra com falhas e em relação à qual diz que a fiscalização ainda não se pronunciou. Outro exemplo, será uma alegada reunião no parque das merendas de Mogofores, que terá sido feita com a presença do referido chefe de divisão.
Segundo Litério Marques, reuniões que acontecem “praticamente todas as sextas-feiras com a presença de empreiteiros, dirigentes desportivos, fornecedores, trabalhadores municipais e até presidentes de junta”, acusando ainda trabalhadores municipais de “entrarem muitas vezes pelas traseiras do edifício municipal, sem fazer qualquer controlo de presenças.”
Continuando o rol de acusações, disse “não ser rara a presença de viaturas municipais estacionadas, depois das 15h, no referido parque”, assim como deu conta da “existência de pessoal a trabalhar para o município sem qualquer tipo de contrato, com máquinas e até vestuário do município.”

Edil escusou-se a alimentar polémica. A Litério Marques, a edil Teresa Cardoso avançou não ter muito a dizer: “Recebemos a sua proposta. Toda a gente entende o que se está a passar”, constatou Teresa Cardoso, sublinhando que terá até ao final do mandato para avaliar a atuação dos técnicos e chefes de divisão. Evitou, desta forma, alimentar uma polémica que Litério Marques teimou em manter durante mais algum tempo, naquela sessão. O vereador deixaria claro que continuará a fazer o que acha ser sua obrigação: “Há coisas que descobri e que não fazem parte deste louvor. Ficam para a próxima”. A seu ver, sendo estas questões públicas, têm que ser investigadas até às últimas consequências, caso contrário “tenho o direito de pensar que a senhora sabe e que não se importa”.
Na ocasião, também o vereador do PSD, José Manuel Ribeiro, perante as acusações proferidas, alertou para a questão da fiscalização de algumas obras, nomeadamente as realizadas nas imediações do estádio e do complexo desportivo, referindo que a ser verdade o que o vereador Litério Marques disse, “a Câmara deve proceder rapidamente ao levantamento de um relatório exaustivo em relação ao que ali se passou”. Já em relação aos técnicos da autarquia, o vereador do PSD continuou: “presumindo que o que o professor Litério diz é verdadeiro, este executivo não pode ficar indiferente ao facto de, em horário de trabalho, técnicos da autarquia estarem a executar outras funções”. José Manuel Ribeiro defendeu mesmo que a ser verdade que o Professor Litério tem provas sobre alegadas irregularidades cometidas, “a presidente deve averiguar se são ou não verdade”.
Catarina Cerca