O requalificado Pavilhão Municipal de Anadia serviu, pela primeira vez, de palco a uma situação inédita.
No último sábado, dia 7 de maio, serviu de teto a 340 peregrinos e 60 voluntários responsáveis pela logística e apoio ao grupo, proveniente da zona de Amarante. Até Fátima são 290 quilómetros.

Condições do pavilhão elogiadas. Com trinta anos de existência, este espaço requalificado recentemente nunca tinha sido utilizado para este efeito. Comparado pelos peregrinos a um “hotel de cinco estrelas”, esta solução só foi possível graças à recetividade da autarquia ao pedido feito pelo docente José Araújo, professor do Agrupamento de Escolas de Anadia, presentemente a dar aulas em Coimbra. Com laços familiares à zona de Amarante e porque a zona centro do país, há alguns anos atrás, não possuía muitas ofertas aos peregrinos em matéria de dormidas, decidiu ajudar a amiga Adelina Guimarães: “ela lançou-me o repto e aceitei. Durante anos, este grupo, entre o Colégio de Albergaria e Cernache, tem contado com o meu apoio. O local de descanso foi sempre, na zona de Anadia, o pavilhão da velha Escola Secundária, entretanto desativada.” Confrontados com a falta de um local para ficar, a autarquia disponibilizou, a título gratuito, o pavilhão.
A edil Teresa Cardoso que, ao início da tarde de sábado, esteve junto dos peregrinos e da organização, confirmou que nunca o pavilhão tinha recebido tão grande número de peregrinos e que se está a revelar um espaço capaz de responder também a este tipo de solicitações. Uma situação invulgar e excecional.
“A câmara municipal, ao disponibilizar este espaço, está aqui também a desempenhar um papel social. Nestes dias e nestes momentos, não há ninguém que se possa recusar a ajudar ou a fazer este tipo de apoio”, avançou a autarca de Anadia. “Não podemos fechar as portas nem virar as costas a este tipo de pedidos.”
O facto dos peregrinos compararem este espaço a “um hotel de cinco estrelas”, é uma avaliação que deixa a edil Teresa Cardoso muito satisfeita: “encontram aqui espaços amplos que permitem a deslocação e movimentação por diversos setores: enfermagem, descanso, sanitários e banhos, zona de refeições.”

Sete dias a montar a tenda. O grupo de 400 pessoas, das quais 340 são peregrinos, saiu da zona de Amarante há quatro dias. A dormida anterior foi em Albergaria-a-Velha e no sábado, dia 7, almoçaram e dormiram em Anadia. Até chegarem ao Santuário de Fátima terão ainda mais três dias de viagem, este ano num percurso muito duro devido ao mau tempo que se tem feito sentir.
Adelina Guimarães, responsável pela organização, é a “mãe” desta enorme família. Há 27 anos que organiza peregrinações. Começou ainda com a sua mãe nestas lides e com grupos pequenos de 18 pessoas. Com o passar dos anos, a “família” foi aumentando e hoje atinge este número impressionante, que obriga a uma logística igualmente incrível.
“Como não conseguia nem podia vir a pé, decidi que me iria dedicar a ajudar os outros, oferecendo toda a ajuda possível”, revelou a JB, destacando que o grupo, hoje, integra peregrinos de diversas localidades: Celorico de Basto, Amarante, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Gaia, Porto, Maia, entre outras localidades.
“Somos também um grupo de pessoas de todas as idades. Este ano, o mais jovem tem 17 anos e o mais idoso 77 anos. Temos pessoas de todas as condições sociais que em comum têm a fé e a devoção em Nossa Senhora.”
Adelina Guimarães destaca ainda que o grupo integra um padre. “O padre Mário Abel Duarte vem todos os dias, às 15h, para a nossa beira e celebra a eucaristia diariamente, às 18h30. É assim há oito anos.”
A organização é tão detalhada que este enorme grupo tem 20 guias (responsáveis por 25 peregrinos cada um), que caminham ao lado dos peregrinos e não os deixam passar da linha de segurança. Um médico, vários enfermeiros e uma ambulância fazem parte do apoio, tal como um camião de onde, diariamente, é carregada e descarregada, por voluntários, toda a bagagem dos peregrinos. São cerca de 400 malas.

Filhas são grandes aliadas. Embora Adelina Guimarães tenha feito a promessa de ajudar peregrinos enquanto puder, a verdade é que tem tido nas filhas as principais aliadas. “Crescemos neste ambiente e neste espírito. Sentimos também alguma responsabilidade”, diz Marisa Cunha, responsável pela cozinha, desde 2005.
Para tantos dias e tanta gente, “as refeições são pensadas e organizadas com alguma antecedência. Tudo o que é mercearia e frescos vem de casa, pois no caminho podemos não encontrar as quantidades de que necessitamos. Assim, vários veículos longos trazem arcas frigoríficas com carne e peixe, outros trazem as hortaliças, fruta e legumes e outra viatura traz as bebidas, não faltando sequer o café.”
As refeições são preparadas por várias equipas, em fases diferentes. Todos sabem o que fazer. Cada um tem as suas funções e, apesar do elevado número de pessoas, não há atropelos e tudo decorre sobre rodas.
A equipa do pequeno-almoço é composta por sete pessoas que se levantam à mesma hora dos peregrinos (5h). Essa equipa sai com eles por volta das 6h e já tem um determinado local onde vai servir o pequeno-almoço em segurança. Levam tudo o que é necessário, louça, pão, leite, café, sumos, chá, fiambre, queijo, marmelada, fruta. Depois, o almoço é preparado pela equipa que ficou para trás, ainda no local anterior. “Esta grande equipa levanta-se, faz a limpeza do local, deixa tudo limpo e arrumado e a seguir desloca-se para o local seguinte. Aí, por volta das 9h30 monta literalmente a barraca e inicia a preparação das refeições – almoço e jantar. São mais de 60 voluntários a confecionar sopa, prato principal, fruta e uma sobremesa de colher.
Elisabete Cunha, irmã de Marisa, é enfermeira e está radicada na Suíça. Tira todos os anos uns dias de férias, em maio, para ajudar a mãe e os seus peregrinos. Fá-lo há cerca de 18 anos. “Os principais problemas são as bolhas nos pés e as dores musculares e algumas doenças associadas e crónicas”, diz, dando conta de que são situações normais, já que se anda uma média de 45 quilómetros por dia. “Tudo depende do estado de espírito. Se estiver em alta, fazem a peregrinação a saltar e a correr; se o estado de espírito estiver fragilizado, deprimido, as dores são a dobrar. O estado psicológico potencia o físico”.
Acrescente-se que o grupo de nove enfermeiros sai com os peregrinos às 5h da manhã. O acompanhamento na estrada é permanente até ao ponto onde vão ficar. Ali, já está Elisabete Cunha a preparar a chegada e a montar o gabinete de enfermagem. “Os peregrinos chegam, comem, tomam banho e começam imediatamente os tratamentos”, avança.
“Aqui partilhamos tudo. O grupo é uma família. Rimos, choramos, partilhamos as nossas dores, as nossas agonias, os nossos problemas de casa. Somos a família peregrina”.
Catarina Cerca