Em criança, queria “simplesmente desenhar e pintar”. Perseguiu o seu sonho e tornou-se um dos artistas plásticos mais originais e singulares da atualidade e os seus trabalhos remetem-nos quase sempre para o imaginário dos contos infantis.
Numa entrevista intimista, o artista plástico Pedro d’Oliveira falou a JB do seu percurso e paixão pela arte.

Quando e como nasceu o gosto pela arte? Ou melhor, quando se apercebeu que esta era a área que queria seguir?
Nasceu de forma natural, espontânea, como nasce o gosto de um outro miúdo por qualquer atividade: futebolista, bombeiro, aviador…
Eu gostava de atividades ao ar livre, mas ficar a desenhar toda a tarde, recolhido num canto ou debaixo de uma mesa, era algo que me agradava muito. Desenhava, pintava, recortava e colava… As outras crianças jogavam futebol, e eu, embora destro, tinha nascido com “dois pés esquerdos”: não jogava nada à bola!
Já a estudar, por volta do 6.º ou 7.º ano, comecei a comprar revistas de pintura. Era isso que me fascinava, gastava aí todo o meu dinheiro! Mais tarde, passei aos livros de pintura, pincéis e tintas. Não tinha consciência de que queria ser pintor ou artista plástico. Queria simplesmente desenhar e pintar. Sentia-me um pouco desajustado com tudo à minha volta e sentia-me bem no silêncio da pintura.
Fui estudar para Aveiro, para o Liceu José Estêvão, porque era, na altura, o único que tinha uma área de artes, mais próximo: “Iniciação à arquitetura , arte e design”, penso que era assim que se chamava… Fui dizendo que queria ser arquiteto, adorava arquitetura, mas acho que nunca foi verdadeiramente o meu objetivo. No 12.º ano tive finalmente um professor, José Ramalheira Vaz, que era pintor e que me marcou e compreendeu verdadeiramente. No momento de fazer a autoavaliação, esse pintor de Ílhavo, hoje, Professor de Belas Artes no Porto, falou por mim e teceu-me rasgados elogios. Disse que eu era um pintor, que não valia a pena andar-me a enganar, que os meus colegas não tentassem imitar o meu trabalho, que era muito made in pedro… e acabei o ano letivo com a melhor nota da escola a Desenho, o que foi um enorme reforço positivo. Não sabia como ia viver, mas iria por aí, pelas Belas Artes ou Artes Plásticas… Quando cheguei às Caldas da Rainha e ao Curso de Artes Plásticas, senti-me verdadeiramente confortável pela primeira vez em todo o percurso escolar… Senti-me como peixe dentro de água!
Como reagiram os seus pais quando escolheu a sua área de formação?
Os pais querem o melhor para os filhos e os meus não são diferentes. Não queriam que seguisse pintura, porque não percebiam como podia eu viver disso…( nem eu!) e também porque tinham, como a maioria das pessoas, uma imagem muito romântica do que é um artista. Eu tinha um primo pintor na família e a impressão que este causava, embora fosse muito simpático, era tudo o que um pai não queria para um filho: bebia toda a noite e só intercalava o copo com o cigarro, era divertido, casado com uma mulher muito mais nova, mas ninguém percebia como vivia ou sobrevivia… Quando vinha à Bairrada ficava em nossa casa. As noites eram animadas, mas, na manhã seguinte, ele dormia e os meus pais tinham de trabalhar…
Quando chegou a fase de ir para a universidade isso estava ultrapassado, já era por todos aceite que aquele era o meu caminho…
É licenciado em Belas Artes. No seu caso, a pintura e a escultura andam de braço dado?
Tenho um Bacharelato em Artes Plásticas pela Esad das Caldas da Rainha e a Licenciatura em Pintura pela ARCA/EUAC de Coimbra… Nem sempre andam de mãos dadas, eu sou muito mais bidimensional, raramente faço um projeto de escultura e a minha carreira como escultor começou e acabou muito cedo. Aluguei um espaço num Atelier em Évora, fundado pelo João Cutileiro depois de deixar Lagos, no Algarve. Fui trabalhar para lá um verão, com todo aquele calor do Alentejo. Vivia num quarto alugado a uma polidora de pedra do João Cutileiro, na Quinta da Malagueira. Fiz uma escultura em mármore e convivi com os escultores que aí trabalhavam, no espaço do antigo Matadouro Municipal, transformado em Atelier de Escultura, na rua de Machede. O João Cutileiro já só trabalhava em casa, ali ao lado do Hotel Ibis… Quando acabou o dinheiro que tinha conseguido com a venda de uns quadros, um deles na Festa do Avante, houve que pegar na trouxa e voltar a casa, pois só sobrava dinheiro para o bilhete do expresso…
A sua carreira está muito ligada ao imaginário infantil, à dualidade entre o bem e o mal. A Última Ceia, Capuchinho Vermelho, Pinóquio, a Crucifixão de Cristo e a Natividade/Sagrada Família são alguns dos temas que tem pintado. Qual a razão? E, já agora, como escolhe os motivos/temas para serem pintados?
Sim, ao imaginário infantil. É a infância que determina muito do que pinto e o meu percurso, mas também algumas cenas bíblicas que mais me impressionam. A infância foi um período de felicidade e acabei por dar voz à forma como a infância se manifestou. Tenho prazer no ato de pintar e gosto de pintar com entusiasmo e de forma positiva. E, sim, também gosto de brincar com a dualidade entre o bem e o mal, com a moral da história… Há sempre algo para se aprender.
A família é muito crítica em relação ao seu trabalho?
Não, nada… Por vezes passo muito tempo a pintar e eles nem sabem bem o que ando a fazer, é uma atividade que gosto de fazer no meu espaço, quase sempre sem companhia… Mas não, não me chegam críticas, em geral. Obviamente, a minha mulher partilha comigo algumas observações ou dúvidas sobre aquilo que vai observando, mas não gosta de se meter nem tenta influenciar o rumo da criação! (risos)
 
Ler mais na edição impressa ou digital