Os últimos dias de vida – condição pela qual todos terão de passar – foi um tema que trouxe no passado dia 21 de outubro, ao Cineteatro Anadia, dezenas de profissionais de saúde, mas também muitos responsáveis e colaboradores de IPSS da região para uma tarde dedicada à reflexão sobre a vida e a morte, espiritualidade, fé e crenças.
“Conversas com vida” é uma iniciativa promovida pelo Serviço Integrado de Cuidados Paliativos da ULS da Região de Aveiro que naquela tarde de quarta-feira juntou sete sensibilidades religiosas, com moderação do enfermeiro Sérgio Soares, que explorou, como cada confissão convidada, aborda os conceitos de vida e morte, acompanha os doentes e seus familiares no final de vida, na preparação para o morrer, a esperança, os lutos, legados e rituais.
Nas várias questões colocadas, o debate evidenciou a importância de integrar a dimensão espiritual nos cuidados paliativos e nos cuidados em fim de vida, destacando a perspetiva de cada representante.
Pela Igreja Evangélica, através do Pastor José Guedes, focou-se na leitura da Bíblia no consolo, na oração pessoal e na certeza da vida eterna em Cristo. Os rituais dispensam cerimónias fúnebres de expiação, primando pelo apoio emocional, prático e comunitário aos familiares durante o luto.
Na União Espírita, Carlos Valente, a morte é entendida como transição e continuidade do espírito. Destacou a importância de manter um ambiente sereno, preces pacificadoras, auxiliando os familiares a evitar a dor excessiva para favorecer o desprendimento harmonioso da alma.
Do Islão, Mahmoud Soares, muçulmano, num discurso claro descreve a importância dos rituais de recitação do Kalimah e versos do Alcorão, de Alá junto da pessoa.
Após o falecimento, os cuidados exigem rituais estritos de purificação com o banho fúnebre (Ghusl), a mortalha (Kafan) e o sepultar da pessoa com o corpo em posicionamento fetal a relembrar o período em que esteve no útero materno, com visitas, preces de solidariedade para com os enlutados e de como a interligação com as instituições, autoridades permitem cumprir estes pressupostos.
Da igreja católica, o Padre Nicolau Miranda enfatizou o sacramento da Unção dos Enfermos, focalizou o cuidado após a morte, onde se traduz em orações de sufrágio, exéquias e no acolhimento da família com a esperança cristã da ressurreição.
O representante da Igreja Ortodoxa de Portugal, Bispo Damasceno sublinhou os ritos oracionais de despedida da alma, a oração contínua perante o corpo e a preparação sóbria para o enterro, amparando a família num caminho de oração comunitária e memórias litúrgicas frequentes.
A sensibilidade Budista esteve representada pela praticante Teresa Barros e pelo monge Apamado (via online) que focou a tranquilidade mental do moribundo através de meditação, mantras e sua presença consciente.
Defendeu a não perturbação imediata do corpo para permitir a dissolução suave da consciência, através dos elementos, orientando a família na aceitação serena da impermanência, discurso reforçado pelo Monge.
O representante das Testemunhas de Jeová, Marco Silva salientou a dignidade, o respeito pelas diretivas antecipadas de vontade em contexto médico e o conforto baseado nas promessas bíblicas. As cerimónias de despedida são marcadas pela sobriedade, com discursos de esperança na ressurreição terrestre e contínuo suporte fraterno à família.
A conferência reforçou que, na diversidade de crenças, o ponto comum reside na humanização dos cuidados, no amor, na possibilidade de nos despojarmos de conceitos de ódio, abraçando a diversidade e no respeito absoluto pela identidade do indivíduo até ao último instante.
No final, cada membro religioso e espiritual deixou uma mensagem para os profissionais dos cuidados paliativos da ULSRA para estarem sempre presentes, junto de quem parte, salientando o trabalho altamente profissional e meritório que esta equipa tem para doentes em final de vida e seus familiares significativos.
