Assine já
Bairrada // Sociedade  

Maison de Flores, a arte de guardar memórias a partir de um lenço de seda

Sílvia Flores cresceu num cenário que cruzou a delicadeza do ballet com a beleza da pintura. Ciente da sua individualidade e empoderamento, criou a Maison de Flores, com a qual quer contar histórias que preservem memórias e atravessem gerações.

Sílvia Flores nasceu em Lisboa, numa família onde a expressão artística sempre encontrou lugar. O avô, José António Flores, pintor, designer gráfico e professor, ensinou-lhe muito no campo artístico, mas deu-lhe sempre a melhor ferramenta, a criatividade sem amarras e o desafio constante de fazer melhor. A mãe, bailarina, foi outro exemplo inspirador. Mas enquanto outras meninas procuravam o palco, Sílvia preferia os bastidores. “Gostava mais de pintar cenários e de imaginar guarda-roupas”, recorda com nostalgia.

Foi em Águeda que a bailarina Cristina Flores criou o seu próprio estúdio de ballet, mantendo também e até hoje a ligação ao ensino da dança em Oliveira do Bairro.

Sílvia estudou em Águeda, Anadia e Mealhada, regressando a Águeda para estudar Artes na Secundária Marques de Castilho. “Eu era diferente, quer na maneira de vestir, quer de ver o mundo e isso levou a que fosse um pouco ostracizada.” Encontrou na professora Teresa Rino alguém que a incentivou a não abdicar da sua personalidade. “Não precisava de ser como toda a gente.” A mensagem ficou. Ainda hoje, Sílvia não segue os caminhos mais fáceis, nem tampouco os caminhos dos outros. E foi nesse sentido que criou a marca Maison de Flores.

Depois de uma breve passagem por Lisboa, seguiu para Londres, onde viveu durante uma década. Estudou História da Arte e cresceu pessoal e profissionalmente. A experiência abriu-lhe horizontes, mas trouxe também aprendizagens de outro universo: trabalhou em tecnologia e cibersegurança. Aprendeu a desenvolver um produto, a lançá-lo, a perceber a reação de quem o recebe e a melhorá-lo. Uma metodologia que hoje aplica à moda, preferindo testar ideias e evoluir gradualmente a apresentar uma coleção inteira de uma só vez.

A Maison de Flores foi lançada há menos de um ano, depois de um período em que o projeto foi ganhando forma em paralelo com a sua atividade profissional. Os lenços de seda foram o primeiro passo, mas nunca foram pensados apenas como um produto. Para Sílvia, a própria história do acessório encerra uma dimensão simbólica: “durante gerações, as mulheres bordaram nos lenços histórias e episódios das suas vidas” e, dessa forma, criaram objetos que guardavam memórias e as faziam perdurar.

Essa ideia ganhou forma num workshop no JNcQUOI Club, em Lisboa. A partir de 24 ilustrações, dispostas como pequenas fotografias instantâneas, desafiou as participantes a contar as suas histórias. O exercício começou por parecer simples, mas, à medida que avançavam, surgiam recordações, pessoas, experiências e facetas que muitas julgavam esquecidas. “Nós somos muito mais do que os papéis que desempenhamos ou dos rótulos com que nos identificam.”

Foi essa descoberta que reforçou em Sílvia a vontade de criar peças que não sejam descartáveis, mas que tenham significado suficiente para serem guardadas e transmitidas.

É também essa convicção que distingue o universo da Maison de Flores. Sílvia não procura criar peças ou acessórios de moda que anunciem estatuto ou poder. Interessa-lhe antes que as suas peças funcionem como uma espécie de “armadura de ambição”: algo que acompanha a mulher, sem a reduzir a uma imagem.

O processo criativo começa com uma ideia, mas exige depois muitas horas de desenho, rabiscos e estudos de cor. Também a embalagem é pensada ao pormenor.

A produção dos lenços de seda é feita na China, onde encontrou a qualidade de tecido que procurava e as condições necessárias para acompanhar as suas exigências de cor e acabamento.

Três lenços, duas mulheres e uma história

A parceria com Marta Andrino nasceu de uma ligação antiga entre as mães de ambas, colegas de ballet. Depois de oferecer lenços à atriz Carla Andrino, mãe de Marta, Sílvia recebeu uma mensagem inesperada: Marta “roubara” um à mãe. Foi o início de uma aproximação que se transformou em amizade.

Das conversas entre as duas nasceu “The Words We Carry”, onde o carré (lenço quadrado) cresce a partir de um desenho botânico construído em torno das quatro estações e atravessado por quatro frases manuscritas de Marta. A colaboração não se esgota nesta criação. Há também cinco peças de vestuário e um novo projeto, que será revelado em breve. Esta quinta-feira, dia 15, Sílvia e Marta estarão juntas no programa Bom Dia Alegria, do canal V+, para falar da parceria.

Entretanto, a Maison de Flores começa a alargar horizontes, estando já idealizada uma coleção de pijamas para 2027. Entretanto, há outros projetos a ganhar forma, como a criação personalizada de convites, menus e presentes para casamentos. E, de forma a ter liquidez para investir na moda, Sílvia criou em paralelo a empresa BILDA, onde desenvolve projetos digitais.

A expansão internacional da marca Maison de Flores já começou, com encomendas de vários países europeus e a ambição de chegar a todo o mundo e em particular aos Estados Unidos.

Sílvia Flores quer continuar assim a fazer crescer a sua “Maison”, sem perder, contudo, a dimensão personalizada e artesanal do projeto.