Está a nascer no coração da aldeia de Ancas um novo empreendimento agroturístico, com oito quartos, fruto da reabilitação de duas casas centenárias e de uma adega em ruínas. O investimento é de uma família com raízes na aldeia. “A minha família, do lado materno, é daqui. Os meus avós e tios vivem cá. Já temos uma ligação muito forte à região e à aldeia”, começa por explicar Ricardo Ramos, arquiteto e rosto deste arrojado projeto de agroturismo, que começou a idealizar em 2020 e pretende ver concluído até final deste ano. É ele que nos guia na visita a este novo espaço, acompanhado pelo tio, António José Cardoso, que reside na localidade.
Naquela manhã do final de julho, já era possível ter uma noção do que muito em breve virá a ser este espaço. O complexo, localizado junto ao Largo do Cruzeiro, ocupa uma área total de 2.795 metros quadrados. O edificado divide-se por dois blocos, ocupando uma área de 780 metros quadrados.
Este projeto de agroturismo contempla um primeiro edifício, junto à estrada, que resulta da junção de duas casas em ruínas convertidas num bloco único, onde o contemporâneo e o tradicional se conjugam e complementam numa simbiose perfeita. É aqui que, dentro de poucos meses entrará em funcionamento, no piso térreo, um restaurante com capacidade interior para 25 pessoas (no verão, a esplanada abre-se para um pátio onde poderá receber outras tantas pessoas), que servirá também como área onde os hóspedes podem tomar o pequeno-almoço e fazer refeições ligeiras, em regime de self-service. O restante espaço fica afeto a uma cozinha industrial que dará apoio ao restaurante que a família pretende abrir.
No primeiro andar deste bloco localizam-se duas suites, “Bical” e “Arinto”, com varanda, onde impera a luz natural. De resto, todos os oito quartos partilham esta característica, assim como todos são identificados por castas da região.
O cuidado com os detalhes está presente em todos os cantos e recantos. Da cerâmica nacional às madeiras portuguesas, nada foi deixado ao acaso. Realce para a presença de pormenores industriais patentes em todo o projeto, com o betão à vista no chão e em alguns tetos: “quisemos conjugar o clássico com o contemporâneo e o industrial”, explica Ricardo Ramos, sublinhando que o ripado que contorna a casa voltada para a rua e que se assemelha a madeira é, na realidade, em alumínio para facilitar a manutenção. Já os azulejos usados nas casas de banho remetem-nos para as tonalidades do vinho e do azul fechado do céu da Bairrada.



Transformação e enquadramento paisagístico
No amplo terreno que se estende para as traseiras, a adega também reabilitada está a ser convertida no segundo bloco do agroturismo.
No rés-do-chão, localiza-se a zona de estar, a que se soma um bar, uma área de lazer com televisão, mas também um pequeno ginásio e dois quartos para hóspedes com mobilidade reduzida.
Um volume voltado para a piscina e zona agrícola onde não falta uma prensa do antigo lagar, preservada como peça decorativa. A garrafeira e sala de provas são outro pormenor singular deste projeto. São subterrâneas, acessíveis por uma escada de ferro em caracol, que conduz os hóspedes e visitantes a um dos tesouros do espaço – alguns dos melhores néctares da Bairrada irão certamente aqui repousar para serem apreciados.
No primeiro andar ficam os restantes quatro quartos (dois deles familiares, com 40 metros quadrados), todos com varanda voltada para a piscina e jardim e com imensa luz natural.
A horta e os animais de capoeira serão, certamente, outros atrativos que não deixarão ninguém indiferente. Por isso, não podemos deixar de destacar que as várias adaptações e transformações foram efetuadas tendo em atenção o enquadramento paisagístico e a harmonia com o espaço envolvente, sobretudo o vinhedo que se avista do 1.º andar.



O desafio da reabilitação
“Um projeto desafiante” reconhece o jovem arquiteto, que destaca a “enorme alegria sentida quando o que projetamos no papel se materializa em obra”.
“Tentámos fazer tudo com pessoas locais, desde o empreiteiro ao eletricista, passando pela canalização, caixilharias e pinturas”, avança, não deixando de explicar que uma reabilitação é sempre mais desafiante do que construir de raiz: “temos de ter cuidado com todo o espaço que existe no local”, exemplificando com o edifício que surgiu na zona da adega. “Estava quase tudo em ruínas, mas quisemos manter, ao máximo, a fachada em adobe, que é um material da região.” O resultado está à vista, mostrando como este material “casa” na perfeição com o vidro, o metal e o betão.
Tendo sempre presente o desejo de aproveitar tudo o que existia no local por forma a valorizar o património e a região, Ricardo Ramos dá nota de que até os muros exteriores foram reabilitados com adobes provenientes de outras casas que foram demolidas na zona.
Como os seus pais e tios colecionam peças ligadas à vinha e ao vinho e ao azeite, existem peças únicas e antigas que vão fazer parte da decoração do próprio espaço, onde os estilos e tendências convivem em perfeita harmonia.
O empreendimento pretende ainda homenagear o avô (António Cardoso), reconhecido empresário local, que desejava “que se fizesse alguma coisa que dinamizasse a região”.
Ricardo Ramos acredita nas potencialidades da Bairrada, defendendo que “faltam aqui espaços onde as pessoas possam ficar, passar uns dias. Acredito que a oferta começará a aparecer, não num conceito de rivalidade, mas de salutar concorrência que quer, acima de tudo, dinamizar a região”, que tem enorme potencial para o agro e enoturismo. O investimento realizado permanece no segredo dos deuses, mas a poucos meses da inauguração – que pode acontecer até ao início de 2027, ultimam-se os trabalhos para que nada falhe na abertura.


Um pé na piscina e o outro na horta
O turista é ainda desafiado não só a desfrutar da parte exterior (jardim/piscina), como também da zona agrícola, ambas desenhadas a pensar na funcionalidade dos percursos. O resultado é um espaço acolhedor, o mais natural possível, onde predominam os tons terracota, que casam na perfeição com o verde e a natureza que envolvem o edificado. O espaço foi ainda dotado de seis lugares de estacionamento.
É precisamente ali que já surgem algumas peças antigas em barro, ligadas ao mundo rural e à vitivinicultura, embelezando um muro exterior onde o jardim e os espaços pedonais começam a tomar forma.
O agroturismo tem ainda acesso ao quintal da casa dos promotores deste investimento, uma vez que o conceito é criar percursos que liguem as zonas exteriores onde, para além de variadas árvores e plantas, os hóspedes podem deliciar-se com o contacto com galinhas de várias espécies e ovelhas de raça Suffolk.
Tudo pensado para que turistas portugueses e estrangeiros que gostem de gozar férias em família e no campo, encontrem aqui um espaço diferenciado.
Curiosidades
2.795 metros quadrados de área do terreno. O edificado ocupa cerca de 780 metros quadrados
8 quartos. Quatro são familiares e dois destinados a pessoas com mobilidade reduzida
6 lugares de estacionamento
2020 Ano em que o projeto começou a ser gizado
Piscina Destaca-se na zona exterior e convida ao relaxamento, complementando o espaço num verdadeiro refúgio
Restaurante O agroturismo integra um restaurante que vai estar aberto ao almoço e jantar, de forma independente do alojamento. Terá capacidade para 25 lugares
Ricardo Ramos tem 36 anos e é arquiteto há 15. Licenciado pela Universidade de Coimbra, estagiou no Brasil. No regresso a Portugal, rumou a Lisboa, onde permaneceu 10 anos, os últimos cinco no seu ateliê. A pandemia fê-lo regressar às origens – Coimbra – onde se fixou e atualmente reside
