O tecto das antigas Escolas Primárias da Fogueira (freguesia de Sangalhos), sito no Largo da Feira, veio parcialmente abaixo. Aconteceu recentemente e prova o estado de abandono a que foi votado este edifício centenário. Todo o tecto de uma das salas ruiu, sendo visível que as traves de madeira que suportavam o forro em platex apodreceram, cheias de bicho.
Localizado no centro da povoação, o que resta deste “majestoso” edifício faz parte da memória colectiva dos seus habitantes mais antigos, que recordam com saudade e orgulho os tempos em que se sentavam nas salas de aulas a aprender as primeiras letras, sob o olhar atento e exigente dos docentes de então.
Pelas antigas Escolas Primárias da Fogueira passaram, durante mais de 60 anos, largas centenas de alunos provenientes não só do lugar, como de várias localidades vizinhas. Era uma grande escola, frequentada por mais de uma centena de crianças.
Começou por ter áreas distintas para o ensino de rapazes e raparigas, numa altura em que não existia mistura de sexos nas salas de aulas. Com duas salas, a média de alunos por sala rondava os 50. Depois, passou a mista e em 1969 seria desactivada. Os alunos da localidade passaram a frequentar a nova Escola Primária, construída no início da década de 70 na estrada que liga o lugar à povoação de Ancas, a escassos trezentos metros deste local. Um estabelecimento de ensino com quatro salas de aulas que, tal como as antigas Escolas Primárias do lugar, parece, hoje, ter os dias contados, não só porque é frequentada apenas por 25 crianças, do 1.º ao 4.º ano, mas porque também o Jardim-de-Infância, ali instalado, é frequentado apenas por cinco crianças. Depois, é do conhecimento público que a Câmara Municipal de Anadia prevê, para breve, a construção de um Centro Escolar na freguesia.

Escola foi espaço cultural. Segundo sabemos, em 1975, no rescaldo da revolução dos cravos, as antigas Escolas Primárias passaram para as mãos de uma Comissão de Moradores dos lugares da Fogueira, Paraimo, Casaínho e Póvoas. Assim o determinou a então Comissão Administrativa da Junta de Freguesia, liderada por Fernando Morais da Silva, com o aval da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Anadia.
Uma Comissão que, com a ajuda da população local, recuperou a escola, que se encontrava em mau estado de conservação, colocando-a ao serviço do povo. Ali funcionou, entre outros, a sede do Grupo Cultural Fogueirense, promovendo ao longo de vários anos teatro e diversos espectáculos culturais, escolas de música e até o Jardim-de-Infância local, mais tarde transferido para a outra Escola da povoação.
O edifício, com mais de um século de existência está, neste momento, parcialmente desocupado, ou melhor dizendo, praticamente abandonado.
Embora pertença à Junta de Freguesia de Sangalhos, só numa das salas é mantida actividade regular. O Grupo Coral Oásis tem ali a sua sede e a sala que ocupa mantém-se em relativo bom estado. No entanto, a outra sala está desocupada e foi nessa que o tecto veio abaixo. O local apenas servia de arrumo às Comissões de Festas do lugar que aqui guardam alguns pertences e prémios para as quermesses.
Todavia, na década de 90, num dos mandatos do então autarca Joaquim Cerca, esta escola foi alvo de uma beneficiação que envolveu recuperação do telhado e pinturas. De lá para cá, nada mais foi feito.
Fernando Morais da Silva, que em 1975 era presidente da Comissão Administrativa da Junta de Freguesia, defende a recuperação urgente do imóvel. Uma obra que deve ser apoiada pelas entidades oficiais na medida em que se trata de um edifício que “é o emblema de uma época e faz parte do património da Fogueira”. Por isso, apela à Câmara, Junta e população para que, mais uma vez, una esforços no sentido de devolver a beleza e dignidade “a um edifício que faz parte de todos nós”. O nosso interlocutor, que também preside à Associação de Caçadores e Pescadores da Freguesia de Sangalhos, não descarta a hipótese da associação que lidera poder apoiar na recuperação deste espaço e quem sabe, voltar a ter aqui a sua sede.
Por sua vez, António Floro, autarca da Freguesia de Sangalhos, lamenta o caso e avança que a Junta, neste momento, só poderá proceder à remoção dos escombros. Recuperação do edifício é para já impensável, sem o apoio da Câmara Municipal. “A Junta vai comunicar à Câmara o que aconteceu e espero que um engenheiro da Câmara ou empreiteiro possa aqui vir para verificar o que pode ser feito”, diz o autarca, revelando ser quase impossível à Junta de Freguesia manter um edifício desta dimensão para estar desocupado.
“O ideal era que associações locais tomassem contas destes espaços”, revela António Floro, dando como exemplo a recuperação da antiga Escola Primária de Sá, hoje ocupada e dinamizada pela Associação Cultural de Sá.

Catarina Cerca