Era uma vez, um supermercado, bem apetrechado, situado na vila de Oiã, e um cliente indesejável, de um lugar da freguesia, daqueles que, com a sede que têm, fazem questão de não passar pela caixa para pagar. Ora foi isso que, na semana passada, não importa o dia, aconteceu neste estabelecimento. Entrou o indesejável cliente, pegou em dois pacotes de cinco litros de vinho Beato, enquanto o proprietário, reconhecendo-o de pelo menos mais duas situações idênticas, deixou-o servir-se à vontade, procurando o metro de madeira, a fim de lhe travar a saída. Como estava do outro lado, do lado da caixa, deu algum tempo para o gatuno sair, mas não o bastante para se safar de levar com o metro nas costas, quando estava já em cima da motorizada para seguir viagem e matar a sede, o mais rápido possível. Há vícios assim.

Encalço. Tendo conseguido escapar-se, o comerciante pegou na carrinha e dirigiu-se no encalço de quem lhe tinha passado a perna, pois sabia quem era e onde morava. Quase se encontraram frente a frente, um vindo do lado da capela e o outro, seguindo o caminho normal, mas o homem que transportava os dois pacotes, teve alguma vantagem. Todavia, quando, lesto, ia para fechar a porta da rua, o comerciante evitou que tal acontecesse, intrometendo entre as folhas da porta o metro de madeira que levava para infundir algum medo e defender-se, se fosse necessário. Acabaram por entrar os dois, mas instado a levar o produto do roubo à carrinha, o prevaricador, que já tem histórias semelhantes noutras terras, fez-se mouco e foi preciso o comerciante entesar-se e ameaçá-lo (apenas ameaçá-lo, erguendo o metro) ao que ele simulou ir ao bolso tirar uma navalha, mas vendo que o argumento do metro era mais forte, lá foi levar a bebida à carrinha, acabando por não ser molestado, nem ser feita a justiça da Faia, nem a intenção era essa, segundo nos disse o comerciante que calcula que este era o terceiro roubo que, afinal, correu mal e só a sua paciência e a formação humana do proprietário evitaram o pior. Mas, de facto, é de ir aos arames com tal espécie de clientes de que este é só uma amostra do que anda por aí. Se “ainda fosse pão para matar a fome”, lamenta a esposa, ainda era tolerável, agora roubos para manter vícios, isso é que não.