“Combater os maus tratos e a violência na terceira idade” foi o tema do workshop dinamizado pela Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) do Centro de Saúde de Anadia em parceria com Rede Social de Anadia, na última sexta-feira, dia 28 de outubro, nas instalações da APPACDM de Anadia.

Comissão de Proteção ao Idoso. Dirigido a profissionais e técnicos das IPSS’s locais, esta ação esteve a cargo da enfermeira Silvana Marques, coordenadora da UCC Anadia, que revelou a vontade desta UCC ver criada em Anadia uma Comissão de Proteção ao Idoso, à semelhança da que já existe para Crianças e Jovens.
O pedido para abordar esta possibilidade com o executivo camarário já deu entrada na Câmara Municipal de Anadia, já que Silvana Marques defende: “seria uma mais-valia a juntar à Rede Social, que no concelho funciona muito bem.”
Uma forma de rentabilizar as sinergias existentes no concelho, mas também de combater este flagelo.

Anadia preocupa técnicos de saúde. Aos cerca de 30 técnicos presentes, revelou que Anadia é, neste momento, um concelho muito preocupante, com grande incidência no consumo de álcool e em casos de abusos sexuais. Comportamentos desviantes e que atingem também a terceira idade, tendo a Unidade de Cuidados na Comunidade de Anadia, só no ano de 2016, acompanhado cerca de uma dezena de maus tratos a idosos que não estavam a frequentar ou a ter acompanhamento de qualquer IPSS. Negligência, abandono e maus tratos psicológicos são os tipos de violência mais frequentes no concelho.
Aos presentes, a enfermeira revelou que, regra geral, os maus tratos são perpetrados por alguém sempre muito próximo do idoso: filhos, noras, cônjuges e cuidadores. “As vítimas são sobretudo mulheres, com mais de 75 anos, com dependência física ou mental”, mas não exclusivas do sexo feminino. As agressões acontecem na casa do próprio idoso, na casa do possível agressor ou até na rua.
A trabalhar há mais de uma década na área da violência doméstica, avança que, embora alguns idosos contem o que se passa, sem qualquer constrangimento, outros escondem por vergonha e mergulham no silêncio, sendo também difícil encontrar uma solução para as vítimas porque estas, muitas vezes, não aceitam as soluções propostas ou encontradas para os casos.

Atenção aos sinais de alerta. “Retirar um idoso de 80 anos, com plenas faculdades e autonomia, da sua casa e tentar desenhar para ele um novo projeto de vida não é fácil. É muito difícil”, disse. Por isso, defende ser tão necessário estar atento aos sinais de alerta e trabalhar muito na prevenção: “Fazer ver aos agressores que estamos atentos e prontos a agir”. Por isso, aos técnicos presentes neste workshop recordou que todos se devem empenhar na vigilância (identificar fatores de risco), para prevenir e atuar em fatores de risco e fatores de proteção, numa efetiva intervenção.
E alertou: “situações de visitas frequentes ao médico; lesões físicas; desidratação; desnutrição; diferença entre a história contada pela pessoa idosa e pelo familiar/cuidador podem sugerir maus tratos.”
À plateia deixou também o apelo para que avaliem periodicamente o nível de dependência da pessoa idosa (quanto maior a dependência, maior será o risco da ocorrência de violência), mas também que se criem relações de confiança com o idoso para propiciar um diálogo aberto diante das possíveis situações de violência. O ideal é “que o idoso tenha um amigo que o visite, alguém a quem possa recorrer quando se sentir maltratado.”

O perfil do agressor. Silvana Marques traçou ainda o perfil do agressor: “muitas vezes, o agressor é o único cuidador, que partilha a mesma casa da pessoa idosa, da qual depende financeiramente, por ser muitas das vezes dependente de álcool ou drogas. Um agressor que, muitas vezes, submete o idoso ao isolamento social, mas que é agressivo nas suas relações familiares, e que pode ter sido vítima de violência perpetrada pelo idoso ou foi também ele vítima de violência doméstica.”
Na ocasião explicou ainda os vários tipos de violência a que o idoso pode ser sujeito, seja ela física, de cariz sexual; situações de negligência; abandono; registando-se ainda situações que podem ser de violência financeira e casos de violência psicológica (agressões verbais ou gestuais; aterrorizar, humilhar, restringir a liberdade ou isolar a pessoa idosa do convívio social).
Por isso, é necessário “sensibilizar e consciencializar a família e a sociedade quanto a violência praticada contra a pessoa idosa por meio de campanhas educativas, meios de comunicação social e materiais educativos”, de forma a educar a sociedade sobre o processo do envelhecimento. Até porque o envelhecimento “é um processo, inerente a todos os seres humanos, que se inicia na conceção e prolonga-se durante todos os dias das nossas vidas.”
Catarina Cerca