Os produtores de batata da região da Bairrada já não sabem o que fazer e há quem diga que vai abandonar a produção deste tubérculo.
Depois de, recentemente, terem, em Vilarinho do Bairro, levado a cabo uma ação de protesto por causa do escoamento e do preço da batata, dois dos produtores contactados por JB defendem que a tutela deveria fixar preços à produção, de forma a garantir o escoamento da batata produzida no país.
Neste momento, os produtores de batata enfrentam uma enorme crise que coloca em risco a subsistência de muitas famílias. As queixas são muitas e prendem-se sobretudo com a enorme dificuldade que estão a sentir no escoamento da batata e denunciam situações em que o custo de produção é muito superior ao preço de venda ao consumidor final.
Miguel Martins é um jovem agricultor de Torres, na freguesia de Vilarinho do Bairro. Com pouco mais de 20 anos é um produtor de hortícolas de referência na região, cuja produção se destina maioritariamente à exportação, sendo a batata um complemento: “este ano fizemos um bocadinho mais porque tínhamos acordos feitos com alguns comerciantes que acabaram por nos roer a corda”, lamenta, dizendo que o consumidor final tem de ser alertado para “o preço exorbitante que está a pagar pela batata nas grandes superfícies” e que “a culpa não é do agricultor, a quem não é pago o preço justo, pelo menos para cobrir os custos de produção.”
Na base do problema está o pagamento de quatro ou cinco cêntimos por quilo oferecidos aos agricultores. O ideal, diz, para não ter prejuízo seria “pagarem-nos a batata a 12,5 cêntimos/quilo na produção”, lamentando que armazenistas e  hipermercados ganhem “margens elevadíssimas”.
“Quem tem o trabalho todo é que deveria ter a maior margem de lucro. E o trabalho está todo do nosso lado, desde a sementeira à apanha”, assegura.
 Por outro lado, defende uma maior união entre os agricultores da região.
“Tem de haver uma união dos agricultores que se deve constituir em associações ou núcleos agrícolas e que defendam os interesses dos agricultores fazendo, por exemplo, o controle de mercado”, diz Miguel Martins.

Agricultores na miséria. Miguel Martins produziu este ano cerca de  12 hectares de batata e não pára de fazer contas ao prejuízo.
Sem meias palavras e com sangue na guelra, diz que “a agricultura é a sua paixão”, mas que “isto deixa-me triste”.
“O governo já disse que ia entregar 60 euros/tonelada a quem tivesse batata em armazenamento. Mas a maior parte dos produtores não tem capacidade para armazenar a batata. Quem vai usufruir dessa medida são os armazenistas, ou seja, não há ajuda à produção”, lamenta.
Um outro agricultor lesado com os preços pagos na produção é o seu colega e vizinho, Antero Ferreira, um dos maiores produtores da região. Produz na casa dos 60 hectares de batatas e este ano mostra-se revoltado e desesperado com o avolumar do prejuízo: “claro que tenho de fazer contas à vida. Só este ano tenho um prejuízo que ronda os cem mil euros.”
“Se não fosse a CALCOB tinha no campo, já sem qualquer qualidade, derivado à traça, meio milhão de quilos. A CALCOB, este ano, foi o meu braço direito. Tirou e armazenou as minhas batatas que estão no frio, mas como é uma cooperativa conforme vai vendendo conforme vão pagando”, explica o agricultor que lamenta chegar a trabalhar 15 horas por dia, e de estar a gastar dinheiro que amealhou durante toda a vida.
“A produção de batata deixa-me abalado psicologicamente. Tenho 57 anos e dediquei-me, no passado, à produção de tabaco, e mais tarde porque tinha máquinas e terrenos avancei na agricultura, para a produção de batata. Mas já disse ao meu filho para arranjar emprego porque isto não dá.”
Tal como o seu jovem vizinho, defende que só a fixação do preço à produção permite regular o mercado, ainda que admita que este ano a produção foi mais elevada: “por causa disso, o preço pago ao agricultor é miserável.”
Antero Ferreira sublinha mesmo que “se os governantes querem mais jovens agricultores têm de agir doutra forma. Tenho um filho comigo a trabalhar, e se tivesse sido ele a pedir ao banco financiamento para produzir batata, hoje, estaria com o nome sujo no banco e nunca mais se endireitava”, assegura, revelando que muitos jovens agricultores, a nível nacional, vão ficar na miséria.
Tal como Miguel Martins diz que “quem lucra com esta situação são os armazenistas, que depois vendem a batata aos hipermercados que, por sua vez, a vendem ao consumidor a um preço absurdo (cerca de um euro)”.
Já o jovem agricultor de Torres reforça que “os armazenistas “podiam pagar um pouco mais pela batata que nos compram e não o fazem alegando que existe um excedente de produção. Isso não é verdade porque o país não é autosuficiente na produção da batata. Para consumo interno só temos produção de batata capaz de satisfazer as necessidades do país para seis meses”, garante.
Depois, ambos defendem que a fiscalização ao setor deveria ser mais apertada.
“Tem de haver controle de mercado na distribuição. Têm de se criar novas regras – fiscalizar agricultores e armazenistas, controlar fronteiras e evitar a comercialização sem faturação, assim como criar parâmetros de qualidade”, afiança o jovem Miguel Martins que denuncia, “nas batatas não há controle. A ASAE tem que controlar e fiscalizar a comercialização das batatas.”
Na manifestação recentemente realizada em Vilarinho do Bairro (VER CAIXA) estiveram cerca de 50 agricultores dos concelhos de Anadia, Cantanhede, Coimbra, Montemor-o-Velho e de Oliveira do Bairro, elementos do PCP e da CNA – Confederação Nacional da Agricultura.
 
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