A Wine Advocate, fundada pelo norte-americano Robert Parker, desde cedo se tornou a mais importante influência mundial de vinhos. O barómetro dos 100 pontos passou a tornar-se o fio condutor de muitos produtores internacionais que chegaram ao ponto de criar vinhos à imagem daquelas que seriam as preferências do crítico – vinhos muito extraídos, de elevado teor alcoólico e com evidente marcação da madeira.
Esta semana, ocorreu um marco histórico para a Bairrada, algo que nos deverá também fazer refletir sobre o futuro da região. O vinho Nossa Calcário tinto 2015, da Filipa Pato, alcançou aquilo que nenhum outro vinho da região havia antes alcançado. Obteve 96 pontos na prestigiada publicação, na qual contar-se-ão pelos dedos das mãos os vinhos tranquilos que ultrapassam a mítica barreira dos 95 pontos.
Os vinhos de Filipa Pato procuram a genuinidade, a autenticidade. Desde 2014, a produtora está a converter as suas vinhas para a produção biodinâmica, onde recorre a plantas locais com capacidades fungicidas e inseticidas. Na adega pratica uma intervenção minimalista, onde se dá liberdade à fermentação com leveduras indígenas, recorrendo à ancestralidade dos lagares de madeira e às ânforas. O resultado, esse é a máxima expressão do Terroir onde cada vinho retrata de forma natural a vinha donde provém.
Haverá, inevitavelmente, um antes e um depois destes 96 pontos. Há já uma linha bem expressa que aponta caminhos de regresso a um passado onde os vinhos eram frescos, mais leves, sem, no entanto, perderem aquela energia de taninos e acidez que os torna eternos. Olhando para algumas novidades que vão surgindo na Bairrada, parece que a tendência começa a ser escolhida.
Miguel Ferreira