Irene Francisco, Médica de Saúde Pública e Delegada de Saúde no ACES Baixo Vouga, em entrevista ao Jornal da Bairrada, fala-nos sobre o coronavírus em Portugal e na região, como estão a ser tratados e encaminhados os casos suspeitos e positivos, e que medidas preventivas deve tomar cada um de nós, no seu dia a dia.

Como está o ACES Baixo Vouga a encarar/lidar com o problema, tendo em conta que é no norte do país que está o maior foco de infeções, mas começam a aparecer alguns casos na região Centro?
O ACES Baixo Vouga está a encarar a situação com muita serenidade, acompanhando sempre as notícias que vão surgindo, essencialmente as que vão saindo da nossa Direção Geral de Saúde e do Ministério da Saúde. Isto é uma situação em que hoje estamos perante determinados requisitos e parâmetros a analisar, mas amanhã a situação pode mudar e nós temos que nos adaptar a essas mudanças.
O ACES está preparado para lidar com os casos suspeitos, temos estado a trabalhar na Unidade de Saúde Pública, no âmbito das nossas competências como delegados de saúde, no rastreio dos contactos dos casos confirmados que já temos.
Nas epidemias, é raro haver fronteiras e a separação entre o norte e o centro do país é muito ténue, principalmente com o mundo global que vivemos hoje, onde as viagens são muito fáceis, são rápidas e são comuns entre a nossa população.

Os centros de saúde, as extensões de saúde (polos) da região estão preparados para atender situações/casos suspeitos, quer humana quer materialmente? Isto, porque surgem informações de que existe falta de material (até do mais básico) nas unidades de saúde. É verdade?
Nas nossas unidades funcionais, até ao momento, temos o equipamento que é necessário. Estamos numa fase de contenção, ainda que alargada, mas todas as unidades funcionais e respetivos polos têm equipamento, que, neste momento, é o essencial para a situação. Se esta se alterar, temos que fazer esse reforço e eu sei que no nosso ACES há algum material para situações que sejam mais prementes.

A ministra da Saúde, Marta Temido, disse na quarta-feira, dia 11, que “é inevitável” que Portugal entre “dentro de horas ou dias” na fase de mitigação da doença covid-19, que prevê a transmissão local em ambiente fechado e a transmissão comunitária. Como se irá reagir perante isso?
Com alguma probabilidade posso dizer-lhe que sim, podemos passar até com alguma rapidez para essa fase. E aí, mediante os casos que nos aparecerem, teremos de ir avaliando e adotar novas medidas que nos permitam combater a epidemia em Portugal, sempre alinhados com os níveis regional e nacional.

E o INEM, nos vários concelhos da região, está dotado de meios para fazer o transporte em segurança de casos suspeitos para os hospitais de referência?
A resposta a essa questão não é da nossa competência. Tanto quanto eu sei, neste momento, o INEM não atua a nível concelhio, mas há equipas do INEM devidamente treinadas e equipadas para o transporte deste tipo de doentes. Mas esta questão remetia-a para o próprio INEM.

Os profissionais de saúde locais e o pessoal auxiliar/técnico receberam formação para lidar com este surto?
Sim, nós temos estado muito atentos, quer a unidade de saúde pública, quer o ACES, a todas as informações da DGS, que remetemos sempre para os nossos profissionais. Localmente, tem sido feita formação aos profissionais e temo-nos preocupado muito em responder a questões que estes nos colocam. No entanto, remetemos sempre para uma leitura atenta das informações e orientações publicadas pela DGS.
Os profissionais de Saúde Pública, tendo formação no âmbito da Epidemiologia, tentam responder localmente, uma vez que têm uma equipa em cada centro de saúde/concelho.

Temos verificado inúmeros cancelamentos, de espetáculos culturais, eventos desportivos e outros, no entanto ainda há iniciativas agendadas para as próximas semanas/meses. Na sua opinião, o que é mais correto fazer?
Acho que as situações têm de ser analisadas caso a caso. As instituições e empresas têm obrigatoriedade, de acordo com despachos publicados em Diário da República nos dias 2 e 3 de março, de elaborar os seus planos de contingência. Para cada situação, deve ser feita uma avaliação do risco e existe também uma orientação para os eventos de massa, em colaboração com as autoridades de saúde.
Sobre isto, também a DGS, já emitiu uma informação e uma orientação, onde refere o tipo de eventos que devem ser adiados ou cancelados.

Na semana passada, um homem com dificuldades respiratórias e febre – cujo filho regressara há dias do estrangeiro – levou ao encerramento temporário, por algumas horas, da Extensão de Saúde de Sangalhos. Após contactada a linha de apoio ao médico, não foi validado. Os procedimentos foram os corretos?
Sim, esse caso aconteceu na nossa Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados Anadia II, em Sangalhos, e os procedimentos adotados, na minha opinião, foram os corretos, dada a situação clínica do utente e o contexto epidemiológico. A situação poderá sido um pouco demorada, mas foi a necessária até se ter a certeza da não validação do caso.

Essa Linha de Apoio ao Médico, que valida ou não casos suspeitos por telefone e que pode ser acedida por qualquer clínico em território nacional, está a funcionar bem?
Quando nós ligamos para uma determinada entidade, gostaríamos de ser atendidos de imediato e de ter uma resposta também imediata ou muito rápida e isso nem sempre se verifica. Há muitas solicitações para a Linha de Apoio ao Médico e como o próprio nome indica, esta deverá ser para uso exclusivo de médicos. Esta Linha já foi reforçada e o ACES Baixo Vouga até se congratula, porque foi-nos pedido voluntariamente médicos para integrar esta linha, e esses médicos já foram alvo de formação. Para os cidadãos, a linha a contactar deve ser a Linha SNS 24 (808242424).

Por cá, IPSS, Hospitais públicos e privados condicionam as visitas aos doentes/utentes após a elaboração dos seus plano de contingência e com o objetivo de protegermos aqueles que são naturalmente mais frágeis. Concorda com estas medidas?
No geral, concordo com estas medidas desde que façam parte dos respetivos planos de contingência. Acho que as situações devem ser sempre analisadas tendo em conta a avaliação de risco. Os planos de contingência devem estar disponíveis aos profissionais, utentes e familiares, para que tenham conhecimento das medidas a implementar.
Estamos a falar de pessoas com fragilidades, vulnerabilidades, multimorbilidades e temos que as proteger.

As máscaras, a seu ver, devem ou não ser usadas por toda a gente, tendo em conta que não se está a conseguir controlar a propagação do vírus?
Há indicação para uso de máscaras em pessoas que tenham sintomatologia do foro respiratório. E estas máscaras são aconselhadas, não apenas agora, no âmbito do COVID-19, mas também numa situação da gripe sazonal. Às vezes as pessoas não levam isso muito a sério, mas é uma recomendação; agora, se devem ser usadas por toda gente, a resposta é não.

O número de casos tem vindo a aumentar exponencialmente em Portugal. Como se está a comportar o vírus? É possível fazer uma estimativa de quanto tempo estas pessoas têm de permanecer internadas?
O tempo do internamento depende de cada caso, porque o vírus não se comporta da mesma maneira em todos os utentes/doentes. A decisão do tempo de internamento de cada um dos casos cabe às equipas médicas responsáveis por esses doentes, que é definida individualmente e depende, naturalmente, da evolução clinica de cada um.

Podemos avançar para uma previsão, dizer daqui a quanto tempo o vírus deixará de estar presente em Portugal?
É imprevisível. Depende de como as cadeias de transmissão se forem verificando. Neste momento, estamos na fase de contenção alargada. De qualquer modo, é muito importante que a população siga informações credíveis e fiáveis. Trata-se de um vírus novo, a população não está imune, não há vacina nem tratamento. Ainda estamos todos a aprender (por ser um vírus novo), mas já tivemos outras epidemias e pandemias e conseguimos limitá-las no tempo. Portugal conseguiu estratégias muito importantes, que implementou em todo o país, com resultados muito favoráveis.

Acredita que as medidas já tomadas foram as corretas e no tempo certo?
Presumo que sim. Foram as suficientes e possíveis. Temos que as ir adaptando à medida que a situação for evoluindo.

Itália isolou 60 milhões de pessoas, ou seja, o país inteiro ficou de quarentena numa tentativa desesperada de conter o surto de coronavírus. Esta medida justificar-se-ia em Portugal?
Não, pois neste momento não temos vírus na comunidade, tanto quanto eu sei. Temos é que conter a epidemia o mais possível, identificar os casos, encaminhá-los para o sítio certo, tratá-los, e fazer a investigação dos contactos e vigiá-los para ver se desenvolvem ou não a doença. Caso a desenvolvam, deveremos ser os primeiros a saber para fazer o respetivo encaminhamento.

As fronteiras e os aeroportos não deveriam ter maior vigilância ou ser mesmo encerrados?
Quanto a encerrar fronteiras, nós estamos sempre em articulação com as instituições europeias e internacionais, portanto essas decisões não são tomadas individualmente, mas em conjunto.

Cada um de nós, que medidas deve adotar de imediato no seu dia a dia?
Devemos, nesta fase, reforçar as medidas de higiene pessoal, como a lavagem correta das mãos e de etiqueta respiratória (é importante aprendermos a espirrar e a tossir). É importante manter o distanciamento social – não estamos a falar de isolamento – mas manter 1 metro, metro e meio de distância uns dos outros sempre que possível.

Podemos apontar uma previsão para que o nosso quotidiano regresse à normalidade?
Neste momento, não avanço com nenhuma previsão, porque as epidemias são complexas, têm características específicas e estas estão muito relacionadas com o tipo de vírus.
É um vírus novo, não temos vacina e a previsão para uma vacina é sempre de um ano, ano e meio. Posso é dizer-lhe que tudo faremos para conter a epidemia.

Oriana Pataco