Ando a adiar escrever sobre Pedro Passos Coelho porque não gosto de sebastianismos e não quero ser confundido com os que esperam o homem providencial – não creio que tal exista e a história mostra que raras vezes correu bem.
Mas arrisco nesta altura, após um conjunto de apresentações públicas recentes e nas circunstâncias atuais que indiciam que não é vantajoso para ninguém uma dissolução da Assembleia de República num futuro próximo: PS à frente nas sondagens desde março mas sem conseguir uma maioria de esquerda; Chega estagnado ou em ligeira queda; PSD com avaliação negativa, que o afastaria novamente do poder.
Pedro Passos Coelho (PPC) é um homem com sentido de Estado. Mesmo uma parte
significativa dos seus adversários políticos que discordam das suas ideias, o reconhecem.
Em 2012, num jantar à porta fechada do grupo parlamentar do PSD, PPC disse qualquer coisa como isto: «Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal. Os senhores não foram eleitos para ganhar as próximas eleições, mas para responder ao país.»
Foi aplaudido pelos deputados que lá estavam – incluindo o atual Primeiro-Ministro.
E pela generalidade da opinião pública – que não necessariamente publicada. Surpreendeu porque era uma mensagem
a que não estávamos habituados. E continuamos a não
estar.
Mas na verdade, é a mesma mensagem que o ouvimos expressar nesta altura. Exatamente a mesma! Aliás, uma crítica que aponta de igual forma e peso quer a António Costa, quer a Luís Montenegro. Há coisas mais importantes do que ganhar eleições. Mais vale perder eleições, do que prescindir do que se achar ser melhor para o país. O poder pelo poder, sem ideias de construção do país e sem condições políticas para as implementar, é uma depravação. O que é fundamental, não pode ser sacrificado ao populismo.
Eu próprio aqui escrevi várias vezes o que já é uma evidência lapalissiana: a cópia perde sempre para o original; aplacar as bandeiras de outros, dos populistas, não resolve o problema, mas antes, dá-lhes importância; reagir não é liderar; priorizar a agenda dos outros é aceitar que não tem um rumo próprio.
Passos sinaliza quem lidera priorizando a proteção do
seu lugar, a próxima eleição, ao invés do bem comum da nação.
Com Ventura, é tático. Aponta-lhe diretamente o dedo.
Chama-lhe populista na cara, ao microfone, a 2 metros de distância. Em “off” mas com as câmaras todas ligadas, enxovalha-o, expondo-o perguntando-lhe pelo “segundo filho que vai ter”, sabendo muito bem que o “grande defensor da família” opta por não ter filhos… Ventura come e cala. Porque sabe que a grande ameaça ao seu projeto pessoal está ali em Passos Coelho.
Se Passos voltar ao ativo – direta ou indiretamente liderando todo o PSD ou uma fação interna do partido – arrasta todo o centro direita e direita. Empurra de volta ao PCP o eleitorado que saltou para o Chega nos últimos tempos. Esmifra a IL e acaba com o moribundo CDS. E fortalece também a esquerda, que enferma do problema de não ter um adversário claro. Voltaríamos à mais natural situação de bipartidarismo.
E desenganem-se os amigos de esquerda do Príncipe Real: Passos Coelho tem um nível de rejeição alto nos bares e restaurantes que partilham com os turistas nesses bairros chiques de Lisboa. Mas no resto do país é bem possível que tenha dimensão de maioria absoluta.
