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Águeda // Sociedade  

Câmara de Águeda sugere rodear aldeias com campos de milho para travar incêndios

“A câmara prefere pagar para semear, tratar e colher milho à volta das aldeias do que andar a cortar mato consecutivamente”, vincou o autarca Jorge Almeida.

Foto de arquivo

O presidente da câmara de Águeda, Jorge Almeida, quer semear milho em redor das aldeias para dificultar a progressão dos incêndios e reforçar a proteção das populações. A câmara disponibiliza-se para limpar e preparar os terrenos, proceder à sementeira, instalar sistemas de rega e assegurar o cultivo, desde que os proprietários manifestem disponibilidade para integrar a iniciativa.

A proposta foi partilhada na reunião do executivo municipal de 16 de julho, numa altura em que o município ainda faz o levantamento dos prejuízos causados pelo recente incêndio, e resulta das conclusões retiradas pelo autarca após acompanhar o combate no terreno.

A ideia resulta, explicou Jorge Almeida, de uma observação feita durante o incêndio que recentemente atingiu o concelho. “Vi o fogo, com toda aquela violência, chegar a um campo de milho verde e parar”, relata o autarca, sustentando que essa experiência o levou a defender uma nova abordagem à proteção das povoações. Na sua perspetiva, “o milho verde é o melhor sapador florestal que existe”, razão pela qual a autarquia se disponibiliza para “limpar as terras, preparar os terrenos e semear o milho”, sem qualquer interesse na produção agrícola. “O milho é para quem quiser, nós não queremos um único grão”, frisou.

O município está igualmente disponível para instalar sistemas de rega que garantam a manutenção da cultura durante os meses mais quentes, defendendo que esta solução poderá revelar-se mais eficaz do que a limpeza repetida de matos. “A câmara prefere pagar para semear, tratar e colher milho à volta das aldeias do que andar a cortar mato consecutivamente”, vincou.

Jorge Almeida apelou aos proprietários de terrenos confinantes com as aldeias para que manifestem junto da autarquia a disponibilidade para integrar o projeto, defendendo que, além de criar uma barreira de proteção, a iniciativa permitirá devolver utilização agrícola a parcelas atualmente abandonadas.

Lições que o fogo deixou

Para Jorge Almeida, a proposta integra-se numa reflexão mais ampla sobre a prevenção dos incêndios rurais. O presidente da Câmara defendeu que a realidade da floresta portuguesa exige soluções estruturais e de longo prazo, lembrando que os resultados não são imediatos. “Mesmo que começássemos hoje a fazer tudo muito bem, só daqui a algumas décadas começaríamos a ter resultados”, afirmou.

Na mesma reunião, Jorge Almeida fez também um balanço do mais recente incêndio que atingiu o concelho, salientando que Águeda conseguiu controlar um fogo que entrou “com extrema violência” durante a noite, mas admitindo que houve falhas no dispositivo de combate. Segundo o autarca, alguns meios destacados para proteger aldeias abandonaram as posições que lhes tinham sido atribuídas, uma situação que classificou como inaceitável e que disse pretender discutir com a tutela e com as entidades responsáveis pela coordenação operacional.

Jorge Almeida voltou ainda a defender a necessidade de criar uma faixa de transição entre as habitações e a floresta, reduzindo a presença de espécies altamente inflamáveis nas imediações das povoações. “As populações têm de perceber que é preciso criar zonas de interface limpas e resistentes entre as casas e a floresta. Não faz sentido manter eucaliptos ou outras espécies altamente inflamáveis encostadas às habitações”, insistiu.

Como exemplo, recordou o caso de uma habitação que ardeu na freguesia do Préstimo. Segundo explicou, o incêndio começou quando projeções entraram pelas janelas abertas de um automóvel estacionado sob um alpendre, levando primeiro à combustão do veículo e, posteriormente, da própria habitação.