O Centro Social, Cultural e Recreativo da Freguesia de Avelãs de Cima assinalou 45 anos no passado dia 30 de junho. O que nasceu em 1981 de uma revolta contra o esquecimento da terra é, hoje, o maior pilar económico e humano da freguesia, apoiando cerca de 300 famílias diariamente.
A história da fundação arranca em 1980, fruto de uma visita inesperada. Carlos Martins, que viria a liderar a instituição até 2015, foi desafiado pelo então presidente da Câmara de Anadia a reverter o isolamento da freguesia. O autarca entregou-lhe a missão de construir uma obra de raiz, deixando um pedido claro: “Não faça coisa modesta, faça uma coisa com grandeza. Com dignidade.”
Longe de fazer o caminho sozinho, Carlos Martins reuniu um grupo de 26 fundadores. Juntos, mobilizaram a comunidade e formalizaram a escritura da instituição a 30 de junho de 1981. Sob o inconformismo daquelas primeiras direções, o que começou como uma resposta simples transformou-se numa estrutura gigante, avançando para creche, jardim de infância, centro de dia e, mais tarde, Estrutura Residencial para Pessoas Idosas/Lar (ERPI) e auditório. “Eu nunca pensei que havia de ficar nas encolhas”, confessa Carlos Martins, cuja ambição era captar a juventude e trazer vida à terra.
Desde o seu início, o Centro Social foi pautado por um alto nível de exigência e preocupação com o bem-estar. A presença do antigo presidente era uma constante, sendo conhecido por aparecer na instituição fora de horas. “Visitava muito os idosos. À noite, fim de semana, ele aparecia, ia lá muitas vezes”, recorda a funcionária Emília Rodrigues. Carlos Martins justifica este acompanhamento próximo com o carinho à obra coletiva: “Aquela instituição era como se fosse também a minha casa. As pessoas sentiam a minha proximidade com um carinho tremendo”.


Funcionárias que são porto seguro
Essa dedicação e proximidade, cultivadas desde a fundação, ganham rosto em funcionárias como Emília de Jesus Rodrigues, que há quase 27 anos dedica os seus dias aos utentes do Centro. Para quem está na linha da frente do cuidado, o Lar transcende a ideia de um mero local de trabalho; é um espaço de partilha profunda, entrega e humanidade.
Muitos dos idosos institucionalizados enfrentam a dura realidade do abandono ou da distância, passando dias e meses à espera de visitas que escasseiam ou que nunca chegam.
Nestas horas, são funcionárias como Emília que assumem o papel de porto seguro. Mais do que prestarem cuidados de higiene ou alimentação, estas mulheres amparam a solidão e tornam-se na verdadeira, e muitas vezes única, família destes utentes. “O que eu faço é por amor às pessoas… aos idosos”, verbaliza Emília Rodrigues.
Com o tempo, aprende-se a gerir a dor das perdas. As despedidas deixam marcas profundas, mas a compaixão sobrepõe-se quando a doença rouba a qualidade de vida. “Eu acho que é melhor partir, ninguém merece sofrer tanto.” Em troca desta entrega, o afeto é devolvido em gestos inesquecíveis, como o de uma utente de 95 anos que chamou Emília de “uma santa moderna, uma santa com amor”.
Maior empregador da freguesia
Hoje, a instituição assume-se como o maior empregador da freguesia, contando neste momento com 72 mulheres que diariamente asseguram o funcionamento da instituição. A obra divide-se pelas valências de Lar/ERPI (60 utentes), Centro de Dia (30) e Apoio Domiciliário (35). O compromisso estende-se aos mais novos, apoiando 43 crianças no ATL e fornecendo 117 refeições ao Polo Escolar das Avelãs e à Cantina Social (16).
À frente do Centro está Rosa Tomás. Há mais de 20 anos, enquanto emigrante nos Estados Unidos, já colaborava ativamente, organizando eventos de angariação de fundos para custear as obras. É este amor à causa que a leva a dedicar grande parte do seu tempo a liderar os órgãos sociais de forma voluntária.
A escassez de mão de obra nacional disposta a abraçar o desgaste e a exigência de um trabalho por turnos obrigou a instituição a adaptar-se rapidamente à realidade da imigração.
“Temos sete nacionalidades diferentes de colaboradoras”, revela a presidente. Esta força de trabalho imigrante salvou o serviço, mas exige da instituição um esforço contínuo de formação e integração de novas culturas.
A presidente deixa um recado claro ao poder central sobre a urgência de valorizar o setor: “A Segurança Social tem de olhar para estes colaboradores, porque é o salário mínimo. E eles não têm compensação, no fundo, não é apelativo ter de trabalhar ao fim de semana, e à noite, e de noite.”
O Centro também inovou com “camas intermédias de transição”, que acolhem utentes com alta hospitalar, retirando pressão aos hospitais e oferecendo dignidade aos doentes.
As comemorações dos 45 anos culminaram com um monumento de homenagem aos 26 fundadores. Num gesto de profundo reconhecimento, o espaço cultural foi rebatizado como Auditório Carlos Martins. “Foi ele o pivô de tudo isto, foi um pilar fundamental”, remata Rosa Tomás. Uma homenagem a quem plantou o sonho e mantém viva a missão de honrar o passado e sonhar com o futuro.
