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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

Elon Musk

Elon Musk é o homem mais rico do mundo. É proprietário da Tesla, da SpaceX, da Starlink, da xAI, criadora do Grok, um dos sistemas de inteligência artificial mais avançados, e da rede social X, antigo Twitter.

Há poucos dias concedeu uma longa entrevista ao The Economist que merece reflexão.
Não sou um grande admirador de Elon Musk e estou longe de partilhar muitas das suas ideias. Mas, mesmo que apenas uma pequena parte das suas previsões venha a concretizar-se, devemos refletir seriamente sobre o futuro que descreve.

Uma das suas afirmações foi particularmente provocadora: dentro de dez anos não haverá nada que a inteligência artificial não faça melhor do que um ser humano.

É uma previsão ousada, mas não me parece impossível. Estamos a assistir a uma verdadeira explosão da inteligência artificial digital. Mas a revolução não ficará confinada ao mundo digital. A combinação entre inteligência artificial e robótica dará origem a humanoides capazes de desempenhar um número crescente de tarefas. Se isso acontecer, não serão apenas os empregos de escritório a mudar, mas todo o mercado de trabalho.

Musk acredita ainda que caminhamos para uma era de abundância, em que o trabalho deixará de ser necessário, o dinheiro perderá importância e viveremos sustentados por um rendimento universal.
Aqui sou bastante mais cético.
Se há algo em que os seres humanos são especialistas é em criar novas necessidades. A ganância humana não tem limites. Há apenas duzentos anos vivíamos numa pobreza que hoje consideraríamos extrema e, apesar da abundância material entretanto alcançada, continuamos a trabalhar cada vez mais, a consumir e a desejar mais, é da natureza humana.

Ao longo da História já vivemos várias revoluções tecnológicas — o fogo, a máquina a vapor, a eletricidade, o motor de combustão, o computador ou a Internet. Todas eliminaram profissões, criaram outras e obrigaram as sociedades a adaptar-se. A diferença é que nunca isto aconteceu à velocidade a que a inteligência artificial o irá fazer.

Elon Musk atribui entre 10% a 20% de probabilidade à possibilidade de a inteligência artificial conduzir à extinção da espécie humana. Apesar disso, Musk defende que não faz sentido tentar travar o desenvolvimento da inteligência artificial. E, provavelmente, tem razão. Também não conseguimos impedir o desenvolvimento da tecnologia nuclear. O que fizemos foi procurar regulá-la, criar mecanismos de equilíbrio e evitar que uma única potência pudesse impor a sua vontade a todas as outras.

Com a inteligência artificial acontecerá algo semelhante, mas a uma velocidade muito superior. O poder deixará de depender do acesso a matérias-primas e passará a depender sobretudo de eletricidade e capacidade computacional (chips).

Nos próximos anos, a eletricidade tornar-se-á um recurso estratégico. Os centros de dados exigirão quantidades astronómicas de energia e quem controlar essa capacidade controlará uma parte significativa da economia mundial.

Por isso, a verdadeira resposta não passa por proibir ou atrasar a inteligência artificial. Passa por desenvolvermos os nossos próprios modelos, reforçarmos a nossa capacidade de produzir chips, investirmos na produção de energia elétrica e conquistarmos autonomia tecnológica.

A única forma de nos protegermos da inteligência artificial é com inteligência artificial. Quem ficar para trás nesta corrida dificilmente viverá no paraíso de abundância que Elon Musk promete, mas num regime de servidão e escravidão, e sobre isto, por mais tenebroso que possa parecer, tenho muito poucas dúvidas.