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Jorge de Almeida Castro

Presidente da direção pedagógica da Escola Profissional de Aveiro

Educação profissional com sentido

“Falta mão de obra para trabalhar.” A frase repete-se em empresas de diferentes setores e regiões do país. Não é uma dificuldade passageira, mas um problema estrutural que ameaça agravar-se. As causas são várias – demográficas, económicas, sociais e culturais –, mas há uma dimensão que não pode continuar a ser ignorada: a forma como Portugal organiza a qualificação profissional dos jovens.

A participação das empresas neste processo é indispensável. Não apenas quando chega o momento do estágio ou da contratação, mas desde o início: na identificação das competências necessárias, na definição dos percursos formativos, na aprendizagem em contexto real de trabalho e na transição para o emprego.

Nos últimos anos, foram dados passos legislativos importantes. O problema é que a ambição das leis continua distante da capacidade real das escolas e das empresas. Criam-se modelos aparentemente perfeitos, desenhados em gabinete, mas sem correspondência com o tecido económico português, constituído maioritariamente por micro, pequenas e médias empresas. Muitas querem participar na formação dos jovens, mas não dispõem de estruturas ou recursos para responder a exigências pensadas como se fossem grandes organizações.

Não se pode impor, por decreto, uma formação próxima do modelo dual, com forte componente em contexto de trabalho, sem criar condições para que escolas e empresas a concretizem. A legislação apresenta uma solução elegante; a realidade devolve-nos um sistema rígido e burocrático, pouco preparado para acolher jovens que não gostam de estudar da forma tradicional, mas querem aprender uma profissão.

É preciso dizê-lo com clareza: não querer permanecer numa sala de aula não significa não querer aprender. Há jovens que aprendem melhor fazendo, observando, experimentando, errando e repetindo, acompanhados por profissionais experientes. O país continua, porém, a tratar muitos destes percursos como opções de segunda categoria, quando deveriam ser caminhos exigentes, dignos e valorizados.

Existem escolas e empresas que ultrapassam estas dificuldades graças à criatividade, ao compromisso e à capacidade de encontrar soluções onde o sistema coloca obstáculos. São exemplos que merecem reconhecimento, mas não podem continuar a depender de esforços quase heroicos.

A realidade exige maior flexibilidade: percursos diferenciados, aprendizagem em alternância, tutores preparados nas empresas, acompanhamento efetivo das escolas e mecanismos simples de cooperação. Exige confiança em quem conhece os jovens, as profissões e o território.

Temos adolescentes com mais de 16 anos que ainda não concluíram o 9.º ano; jovens que abandonaram a escola; outros que nela permanecem sem motivação nem perspetiva; jovens adultos que não estudam, não trabalham nem frequentam formação; alunos com necessidades específicas que chegam tarde a experiências de aprendizagem fora da escola; e famílias que procuram, sem sucesso, uma resposta adequada para os seus filhos.

Perante isto, qual deve ser o papel da escola? Estar também na empresa. Conhecer os locais de trabalho, compreender as profissões, acompanhar os alunos, apoiar os tutores e construir percursos reais de qualificação. A escola não perde a sua missão ao aproximar-se das empresas; cumpre-a de forma mais completa.

A educação profissional só terá sentido quando deixar de ser pensada de cima para baixo e passar a ser construída com os jovens, as escolas, as empresas e os territórios. Podemos continuar a fingir que a falta de mão de obra está desligada do abandono escolar, da rigidez curricular e da desvalorização das profissões. Mas não está. Isto está tudo ligado. E quanto mais tarde o reconhecermos, maior será o preço económico e social a pagar.