Nas últimas semanas, vários líderes europeus têm-se insurgido contra as sucessivas provocações russas junto das fronteiras e no espaço europeu. Incursões de drones, ações de sabotagem e outras operações atribuídas à Rússia têm contribuído para aumentar a tensão. Ao mesmo tempo, Vladimir Putin garante que a Rússia não tem qualquer intenção de iniciar uma guerra contra a Europa.
Devemos ficar preocupados? Sim e não.
Não, porque não parece razoável pensar que a Rússia tenha interesse, no curto ou médio prazo, em transformar a guerra da Ucrânia num confronto militar aberto com a NATO.
Sim, porque as guerras de hoje já não se fazem apenas com tanques, soldados e mísseis. Fazem-se também através da desinformação, da pressão económica, dos ciberataques, da provocação permanente e, sobretudo, da criação de um clima de medo e instabilidade.
E as democracias são particularmente vulneráveis a este tipo de pressão.
As democracias não foram pensadas para a guerra. Foram pensadas para que a razão prevaleça sobre a barbárie. A guerra é precisamente o contrário. Na guerra aumentam as despesas militares, agravam-se as dificuldades económicas, restringem-se escolhas e cresce a insegurança. Numa democracia, os cidadãos questionam esses sacrifícios, protestam, exigem explicações e podem, através do voto, substituir os governos que os impõem.
Nas autocracias, a realidade é diferente. Putin não enfrenta eleições livres e competitivas, a comunicação social é fortemente condicionada e a contestação política enfrenta severas limitações. O regime dispõe, por isso, de instrumentos que lhe permitem controlar o descontentamento e limitar as consequências políticas dos sacrifícios impostos à população.
O objetivo das provocações russas não tem necessariamente de ser a conquista de território europeu. Pode ser algo mais subtil e, talvez, mais eficaz: testar a nossa resistência, alimentar o medo, aprofundar divisões, desacreditar instituições e aumentar a pressão sobre os governos democráticos. Criar um ambiente político onde encontrem espaço forças menos comprometidas com as liberdades e com as instituições democráticas e mais compreensivas para com os interesses de Moscovo.
As autocracias precisam frequentemente de inimigos. Um inimigo externo ajuda a justificar o controlo interno, explica os sacrifícios exigidos à população e permite transformar a crítica ao governo numa ameaça à pátria. A guerra — ou simplesmente a ameaça da guerra — pode assim transformar-se num instrumento do próprio poder.
As democracias funcionam de outra forma. É por isso que a batalha que hoje se trava na Europa não está apenas nas trincheiras da Ucrânia. Trava-se também dentro das nossas sociedades. Na capacidade de resistirmos ao medo sem cedermos ao autoritarismo. De enfrentarmos a provocação sem abandonarmos a razão. De preservarmos o humanismo e o Estado de direito quando, perante a ameaça, parece mais fácil sacrificá-los em nome da segurança.
Porque defender a Europa e as democracias europeias não é apenas defender fronteiras ou territórios. É defender uma forma de viver. Uma forma de viver baseada na liberdade, na tolerância, no respeito pela diferença e na supremacia da lei sobre a força.
E talvez seja esse o verdadeiro desafio que as autocracias colocam às democracias.
Porque a sua maior vitória não seria derrotarem-nos militarmente. Seria conseguirem que, por medo, começássemos a abdicar daquilo que somos e daquilo em que acreditamos.
