Comprar ou cultivar determinadas coisas pode parecer banal. Todavia, trata-se de tornar mais séria e adequada a forma de viver, procurando construir-se um mundo onde reine paz, igualdade, companheirismo e sentido dos outros.
As circunstâncias de todos os dias podem servir de motores que abrem novos caminhos e métodos para a concórdia e tranquilidade pública.
É útil termos em atenção permanente os momentos importantes da vida individualizada ou comunicada com os nossos semelhantes, mesmo quando nos desconhecemos mutuamente e não experimentamos laços íntimos de amizade, ou nem existam quaisquer tempos de proximidade.
Se possuímos a consciência dos sentimentos humanos e até nos consideramos família criada e comum, deve incentivar-se o seu aperfeiçoamento para que haja cooperação ao erigir-se uma sociedade fraterna, respeitadora e capaz de aceitar o outro, tal qual ele é, onde vive e trabalha.
A sensibilidade é algo que, sendo inata, também se enriquece com os hábitos e práticas próprias das comunidades onde cada membro procura imiscuir-se entre os outros, fundamentando em conjunto uma ambiência útil, de tal modo que ninguém passe desapercebido ou desaproveitado. Assim todos se ajudam na elevação de um mundo melhor e mais equilibrado porque se pesam as capacidades morais e o aproveitamento de qualquer sujeito.
A simplicidade pessoal adquirida e fomentada no desenrolar dos dias é um método preclaro para elaborar a tal comunidade fraterna, educadora e fazedora de um mundo melhor e mais aberto.
E há gestos simples em pessoas simples que são o significado pleno de que nem tudo é desperdício e os indivíduos não são todos maus.
Vem tudo isto a propósito de uma atitude que me tocou pela sua simplicidade, generosidade e alegria.
O caso conta-se em duas penadas, mas não deixa de ser um aceno singelo e importante de quem sabe viver, dando exemplo de ação que não espera recompensa ou retribuição.
Ora, resumamos. A senhora, de aspeto e traje simples, mas solene na sua idade algo avançada, abasteceu-se no supermercado e estava já na caixa de pagamento a ultimar a sua operação.
Fora eu também buscar um saquito de cenouras e, agarrado à fiel bengala, aguardava a minha vez de pagar. Olhou para mim e imperou que me adiantasse, interrompendo o que o empregado já lhe havia feito. Insistiu comigo, afirmando que nada a atrasava até porque ela iria pagar as minhas cenouras. Bem quis eu recusar tal proposta, mas ela teimou e venceu tão livre e generosamente. Olhou para mim e pediu-me que fosse humilde e rezasse uma Avé-Maria, por ela.
Conheceu-me, mas eu, ainda agora, estou por descobrir quem é a senhora.
Mas tal atitude desprendida e sem alarde ainda me causa impressão positiva e me faz crer que há quem, de coração terno e magnânimo, está disposto a dar o seu testemunho humano e crente na ocasião de saber engrandecer a simplicidade que não dá nas vistas, mas que nos olhos silenciosos de Deus ficará bem gravada até ao dia da verdadeira recompensa.
A mim, nestas circunstâncias, compete-me lembrar a senhora, rezar por ela e com ela dizer: – «Obrigado, Senhor, pelas ricas cenouras que deram azo a um empenho simples, mas com sabor tão nobre.»
