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Sociedade

Quando as redes sociais deixam de ser entretenimento e tornam-se um perigo

Nem boas nem más por definição, as plataformas digitais revelam o seu lado mais destrutivo quando substituem a vida real e amplificam o sofrimento de quem já não tem ferramentas para se proteger.

As redes sociais são hoje uma parte indissociável do quotidiano dos adolescentes. É no espaço digital que os mais novos socializam, constroem círculos de pertença, dão voz à expressão pessoal e exploram interesses que moldam o seu crescimento.

Contudo, a omnipresença dos ecrãs transformou a experiência juvenil num território complexo, onde a linha entre a oportunidade de conexão e a vulnerabilidade emocional é cada vez mais ténue.

Para compreender o impacto real desta revolução silenciosa, o psicólogo clínico e da saúde Vítor Saraiva, especialista em contexto clínico e educacional no Centro Terapêutico TerFala, apresenta a sua visão científica.

“As redes sociais não são, por si só, boas ou más para a saúde mental. Aquilo que estabelece um impacto em quem as usa é a forma como são utilizadas, o tipo de conteúdos que se veem, a função que as redes desempenham na vida dos jovens e as vulnerabilidades de cada indivíduo”, sublinha o especialista.

O foco da análise deve, por isso, afastar-se do alarme moral e concentrar-se no contexto de vida: “O importante é perceber o que está a acontecer antes, durante e depois da utilização das redes sociais pelos jovens e o que está a utilização das redes sociais a substituir na vida deste jovem.”

O alívio do scrolling


Vítor Saraiva rejeita uma relação direta de causa e efeito. Em vez disso, o psicólogo descreve uma via de dois sentidos: jovens com fragilidades prévias refugiam-se mais no meio online, mas esse padrão de consumo acaba por agravar o sofrimento original.

É o que se verifica nos casos de ansiedade social, onde o medo do contacto cara a cara empurra o adolescente para trás do ecrã: “Perante a insegurança das relações presenciais, o jovem encontra na comunicação digital um escudo protetor e um alívio momentâneo. Porém, ao trocar a convivência física pelo mundo virtual, o problema enraíza-se, porque o jovem evita encarar e trabalhar essa dificuldade na vida real.”

Esta fuga temporária repete-se perante pensamentos negativos ou inquietações do dia a dia, onde surge o hábito do scrolling – o gesto mecânico de deslizar continuamente o dedo pelo ecrã à procura de novos conteúdos. Navegar sem rumo funciona como uma anestesia rápida, mas ilusória.

“Muitas vezes, esta distração afasta o jovem de resolver o que realmente o aflige e de aprender a lidar com as próprias emoções”, adverte Vítor Saraiva. O ciclo torna-se vicioso porque a sensação passageira de alívio esconde a verdadeira origem do mal-estar: “Às vezes, o problema não começa na rede social, mas naquilo que o jovem está a tentar resolver através dela.”

A utopia da perfeição

A esse circuito de fuga soma-se a pressão estética e social gerada pelas plataformas. Diariamente, os utilizadores são confrontados com uma torrente de corpos impecáveis, rotinas perfeitas e famílias felizes que raramente encontram correspondência na realidade.

“O adolescente está numa fase de construção da sua identidade e, acima de tudo, de grande sensibilidade face à aprovação social”, explica o psicólogo. Se no passado a comparação se cingia ao grupo de amigos da turma ou aos vizinhos, hoje a escala tornou-se incomensurável.

Esta comparação constante alimenta a armadilha do feedback social. Quando uma fotografia publicada gera uma vaga de gostos e comentários elogiosos, cria-se a necessidade quase compulsiva de sustentar essa imagem e monitorizar a aprovação alheia ao minuto.

Vítor Saraiva alerta: “Quando o valor pessoal do jovem começa a ficar excessivamente dependente destes indicadores externos, passamos a ter um problema que é bem diferente do simples gostar das redes sociais.” Cria-se, assim, uma lógica perigosa que se resume de forma clara: “eu sinto-me bem comigo mesmo em função dos likes e dos comentários que tenho nos meus posts das redes sociais”.

As novas tendências

Nos corredores escolares e nas conversas de grupo, essa procura de validação ganha uma linguagem própria e transforma-se ao ritmo das tendências. Expressões como “farmar aura” – gíria celebrizada no TikTok para descrever a tentativa deliberada, através de gestos, de acumular carisma, estilo ou respeito aos olhos dos outros – ou a replicação imediata de desafios virais tornaram-se parte do quotidiano.

Para o psicólogo, a chave do comportamento humano permanece inalterada: “À partida, qualquer comportamento que receba atenção ou com o qual se obtenha estatuto, tenderá a repetir-se.” Práticas como o “farmar aura” constituem uma tentativa calculada de garantir reconhecimento e desenhar uma imagem positiva para o olhar alheio.

Sem um juízo crítico amadurecido, a urgência de integração social pode empurrar os adolescentes para comportamentos extremos. Vítor Saraiva aponta que a dificuldade surge na incapacidade de separar a popularidade da sensatez: “O problema surge quando o jovem não desenvolveu suficientemente a capacidade de avaliar o que é popular e o que é adequado. Já tivemos notícias de tendências que podem acabar com a própria vida.”

Como a aprendizagem nesta idade se processa em larga escala por imitação e observação, as condutas que geram estatuto e atenção transformam-se rapidamente em modelos replicados em cadeia por outros jovens.

O que o ecrã rouba à vida real


Apesar dos riscos, o psicólogo adverte que concluir que o tempo de ecrã é sinónimo direto de isolamento constitui uma visão redutora.

O psicólogo defende que o verdadeiro sinal de alerta não está apenas na contagem das horas de utilização, mas no que a vida digital acaba por empurrar para segundo plano: “A pergunta que devemos fazer não é quantas horas este jovem passa diante de um ecrã, mas o que é que está a deixar de fazer durante essas horas. Se as redes substituem o sono, o contacto social, a atividade física, os momentos em família ou as brincadeiras, então começamos a ter, efetivamente, um problema.”

Esta substituição sistemática da vida real tem um impacto direto na maturidade relacional dos mais novos. “Não podemos esperar que as competências sociais se desenvolvam somente a partir da comunicação digital, tal como qualquer competência, precisam de ser treinadas na experiência social”, sublinha o especialista, concluindo que o mundo virtual pode funcionar como um complemento, mas nunca como um substituto do contacto cara a cara.

A maioria dos adultos está hoje a tentar educar num ambiente tecnológico que simplesmente não existia na sua própria infância. Embora conheçam as redes sociais, desconhecem os mecanismos neurológicos de recompensa, as engrenagens dos algoritmos de recomendação ou as dinâmicas de recompensa.

Face a este desconhecimento, a resposta parental varia muitas vezes entre a ausência e o autoritarismo. Para Vítor Saraiva, os pais não devem ter receio de acompanhar o que os filhos veem nos telemóveis: “A supervisão não significa vigilância permanente nem espionagem. Para mim, supervisão é interesse, envolvimento, compreensão, diálogo e estabelecimento de limites.”

O especialista adverte que a ameaça constante de confiscar o telemóvel quebra a confiança essencial: “Se o jovem acreditar que, ao contar um problema aos pais, eles vão simplesmente tirar-lhe o telemóvel, é meio caminho para deixar de contar o que quer que seja sobre o que acontece online.” O grande objetivo passa por construir uma relação de segurança.

Das refeições aos limites indispensáveis

A habituação aos ecrãs começa, muitas vezes, logo nos primeiros anos de vida, com o telemóvel pousado em cima da mesa para garantir que a criança come ou para parar uma birra. Vítor Saraiva adverte para o risco desta prática: “associarmos o telemóvel à autorregulação emocional parece funcionar no imediato, porém cria dependência no futuro. Ao substituir a capacidade natural da criança aprender a gerir o tédio ou a frustração por um estímulo visual passivo, o telemóvel passa a ser a muleta emocional do jovem à medida que cresce.”

Para reverter este cenário, o psicólogo aconselha: “definir momentos e divisões da casa livres de telemóvel, como a hora das refeições, os períodos de estudo e o quarto, em particular na hora de ir dormir”. No entanto, a imposição de regras perde toda a eficácia se não for acompanhada pelo exemplo dos mais velhos: “Os pais não podem exigir que o filho largue o telemóvel enquanto eles próprios passam horas agarrados ao seu”.

O recurso à ajuda especializada da psicologia pode acontecer em qualquer altura, mas há sinais de alarme claros que exigem intervenção imediata: “Os pais devem estar atentos ao que os ecrãs estão a substituir. Se começam a prejudicar o sono, a provocar maior irritabilidade, a afetar o rendimento escolar ou a destabilizar o ambiente familiar, é o momento de agir e procurar apoio”, aconselha.

O trabalho clínico irá permitir reestruturar rotinas, reduzir padrões nocivos de consumo e devolver ao jovem ferramentas emocionais saudáveis para enfrentar a ansiedade e a vulnerabilidade.

Vítima de ciberbullying funda “No Bully Portugal”

Além de abalar a autoestima, a internet facilitou as agressões entre os mais novos, fazendo com que o bullying não termine nos portões da escola. É precisamente neste combate que atua a associação No Bully Portugal, fundada em 2016 por Inês Andrade Freire.

Vítima de ciberbullying na adolescência, a responsável agiu movida pela revolta de ver que “ninguém fazia nada para resolver as situações”. Para responder a esse vazio e quebrar a inércia do sistema, a associação importou dos Estados Unidos uma metodologia de intervenção não punitiva, focada na prevenção.

Desde então, a organização dedica-se a formar adultos, a dinamizar sessões de sensibilização para crianças e jovens e a prestar apoio direto a quem passa por situações de assédio, trabalhando com escolas, famílias, associações de pais, municípios e empresas.

O trabalho diário, de Inês, no terreno confirma uma rutura drástica na vivência da agressão. “Há vinte anos, uma chamada indesejada no telefone fixo da sala ainda passava pelo escrutínio dos pais e a casa representava um lugar seguro. Hoje, a agressão viaja no bolso do jovem e não tem hora de encerramento.

O ciberbullying destruiu a barreira protetora do lar: depois das aulas, o aluno recolhe-se no quarto e, ao ligar o telemóvel, continua a ser atacado, num ciclo ininterrupto.”

A esta omnipresença soma-se uma diferença estrutural apontada por Inês Freire: a escala do ataque. No meio digital, uma simples publicação ridicularizada, um comentário maldoso ou uma fotografia exposta podem ser partilhados por centenas ou milhares de vezes num ápice.

“Não é uma situação de um para um que acontece em privado; são centenas de pessoas a ver e a participar”, adverte a especialista, salientando o efeito desumanizador do meio online: “Atrás de um ecrã há uma impessoalidade enorme. Como os jovens não veem a cara do outro nem assistem à sua reação em tempo real, parece que tudo é permitido e que nada daquilo tem consequências reais”.

A par dos ataques direcionados entre colegas, o próprio consumo passivo das redes sociais atua como um fator silencioso de perturbação emocional e comportamental.

A presidente alerta com particular preocupação para a proliferação da chamada “manosfera” – um submundo digital de criadores de conteúdos que promovem discursos abertamente misóginos e retrógrados. “Isto está a chegar em força aos rapazes, que veem homens a falar mal das mulheres e a dizer que elas não deviam ter direitos nem deviam votar, e que os homens é que têm de mandar nelas”, denuncia.

Sem o discernimento crítico necessário para questionar o que veem no ecrã, muitos adolescentes absorvem estas mensagens sem qualquer filtro e passam a acreditar nelas, mesmo quando as suas próprias famílias defendem princípios totalmente opostos. A fundadora da No Bully adverte que este ambiente tóxico contamina a saúde mental dos rapazes e desfigura profundamente a forma como olham para as raparigas e constroem os seus relacionamentos afetivos.

A No Bully Portugal alerta que a maioria dos agrupamentos escolares ainda não dispõe de protocolos formais para atuar perante o assédio moral e que muitos professores não recebem formação para mediar conflitos. “É frequente as escolas afastarem a responsabilidade sob o pretexto de que os ataques acontecem fora dos portões e em telemóveis privados, ignorando que agressores e vítimas continuam a sentar-se lado a lado nas aulas”, alerta.

A dirigente rejeita a via punitiva tradicional assente em suspensões, por considerar que apenas afasta o problema temporariamente sem o resolver, defendendo antes que as escolas criem procedimentos estruturados onde os alunos sejam chamados a encontrar soluções conjuntas.

Para quem se encontra refém deste ciclo de perseguição e violência online, a responsável apela à quebra imediata do isolamento: “As vítimas tendem muitas vezes a culpar-se a si próprias, e esse é o pior caminho, porque dá ainda mais força a quem agride. Têm de acreditar que merecem ser respeitadas e que não têm de aceitar esse tratamento”. Procurar ajuda em casa, na escola ou junto de estruturas de apoio especializadas é o único passo capaz de quebrar a espiral de silêncio e desarmar a impunidade digital.

Quando a família e a escola se mantêm presentes com escuta e limites, o ecrã perde o poder de magoar e volta ao seu verdadeiro papel: uma simples ferramenta para comunicar, e nunca o lugar onde se decide o valor ou a dor de quem cresce.