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Região // Sociedade  

Um destino comum…

Não queremos morrer… e as diversas culturas, sociedades, religiões procuraram caminhos de transcendência e imortalidade. Suspeito que todo o pensamento e toda a cultura, e claro todas as religiões, tenham como verdadeiro leitmotiv (motivo condutor) a busca de imortalidade.

A morte é, na realidade que vivemos, o destino comum da humanidade. Mas se a certeza da morte nos irmana nesse destino, o desejo de imortalidade é o sonho perseguido por cada pessoa de todos os tempos e omnipresente em todas as sociedade, culturas e religiões.

Esta ideia espelha bem a grandeza e a pequenez daquilo que somos e que tantos pensadores, escritores e artistas, de uma ou outra forma, foram expressando: somos Adão, “feitos” do pó da terra, radicalmente próximos e irmanados à natureza e à terra que habitamos, mas ao mesmo tempo criados à imagem e semelhança de Deus, isto é, destinados e desejosos de um destino que queremos seja de imortalidade, que transcenda os limites e finitudes que nos amarram na nossa imanência.

Dito de forma mais simples, e não originária minha, parecemos simultaneamente galinhas que vivem agarradas ao chão em busca de sobrevivência e águias que de forma majestosa cruzam os céus em busca das infinitas alturas. Estamos sempre à procura de novos e surpreendentes caminhos de transcendência.

O irromper da morte é sempre acompanhada e carregada de doloroso sofrimento, que desaba de forma avassaladora sobre o nosso quotidiano e nos esconde aqueles que amamos e nos amam e aponta para a nossa vez. A morte teima em habitar o nosso quotidiano e mascara-se de fim que não tem fim.

O ser humano procura formas de viver e enfrentar esta inevitável realidade: o divertimento para esquecer; a sedução pelo prazer e pelo consumismo na busca da transcendência; a entronização nas “cadeiras” do poder na ilusão que nos tornarão eternos; os “aditivos” disfarçados de “amigos e companheiros” que trazem em si escondida a incapacidade de viver a vida na sua totalidade; o isolamento para “ilhas distantes” da nossa quotidianidade e dos “nossos filhos” das realidades que magoam e nos lembram a morte.

Somos bem-intencionados e até honestos na busca, mas arriscamos enfrentar a totalidade da vida humana com pseudotranscendências. E, no século que vivemos, algumas das respostas ao desejo de imortalidade, imbuídos de uma coletiva anestesia e cegueira, chegam a colocar em risco a existência do ser humano: a crise ecológica que ameaça fazer colapsar o planeta Terra, o nosso lar comum ou a inteligência artificial que nos está a retirar subrepticiamente a nossa liberdade, criatividade e poder de decisão.

Não queremos morrer… e as diversas culturas, sociedades, religiões procuraram caminhos de transcendência e imortalidade. Suspeito que todo o pensamento e toda a cultura, e claro todas as religiões, tenham como verdadeiro leitmotiv (motivo condutor) a busca de imortalidade.
Para os cristãos, a morte é destino e esperança. Esta não se materializa em conceitos como a reencarnação ou desencarnação, mas antes na ressurreição. Para a fé cristã, a ressurreição afirma que o ser humano será salvo juntamente com toda a comunidade humana inserida na realidade cósmica – este é também o nosso destino comum.

O conceito cristão da ressurreição e a experiência que proporciona desde já, comporta também uma singularidade e tem como pressuposto: a transdescendência. Deus, o verdadeiro objeto do desejo humano de infinito, emerge na carne a partir da profunda pobreza – é a beleza desconcertante da gruta de Belém.

Deus, encarnado em Jesus Cristo, nasceu no meio de animais, pediu o amor de todos e que fôssemos capazes de superar aquilo que nos separa não pela conquista ou violência, mas pelo perdão, fraternidade e caridade, virtude que me permite ver o outro como Deus o vê. É um Deus feito carne que se fez servo e último e se identifica como o crucificado. Desceu até ao mais “profundo das profundezas” da existência: o sepulcro, o inferno onde somos absolutamente sozinhos numa solidão invencível – a morte. Este é o Deus dos cristãos que como nós desceu até ao mais fundo da nossa existência, exceto no pecado, e agora nos abre a pedra do túmulo para uma vida que não tem fim – a transcendência que desejamos.

Precisamos de descer “do cavalo”, como o homem rico na parábola do bom Samaritano, e estar com o irmão na sua vida, alegrias, dores e angústias. Só assim poderemos transcender-nos, porque a transcendência é esse amor que nos irmana e une. Um Amor que nos torna tranquilos e confiantes para o desnudamento total da nossa contingência a fim de podermos trajar o Eterno.

Usando palavras de um místico muçulmano sobre o amor, sinto a ressurreição como o Amor que vem, se senta junto a mim e se esquece de partir. Mas… tenho de confiar no AMOR e exercer a liberdade de decidir no que acreditar. Como poderá um Amigo que dá a Sua vida pelo ser humano, deixar sozinho o seu amigo numa morte eterna?

(para este artigo reli parte do catecismo da Igreja Católica (nº 988-1050); “La muerte destino humano e esperanza cristiana” de Ruiz de la Peña; “Tiempo de Transcendencia – El ser humano como un proyecto infinito” de Leonardo Boff)

Padre Francisco Melo
Paróquia de Oliveira do Bairro