Na família Estrela, era o avô que acendia as pequenas luzes da noite. Aos domingos, juntava a família, contava histórias já conhecidas e guardava no bolso rebuçados para quem precisasse de consolo. Quando morreu, o céu não ficou apenas mais silencioso: pareceu perder a luz, cor e magia.
Nos primeiros tempos, cada estrela brilhou à sua maneira. A avó sentia a ausência no lugar vazio à mesa; a filha esquecia-se do que ia buscar à cozinha e relia mensagens antigas; o neto irritava-se por tudo e refugiava-se no quarto. Havia noites de choro e manhãs em que ninguém conseguia pensar com clareza. Outros dias eram preenchidos com tarefas, trabalho e conversas banais — não por falta de amor, mas porque, por instantes, também era preciso respirar.
Assim é o processo de luto, altera a atenção, a memória e a concentração. Pode trazer tristeza, culpa, saudade, raiva, ansiedade ou até alívio, sobretudo depois de uma doença prolongada. Pode levar ao isolamento, cansaço, alterações do sono e do apetite. Por vezes é difícil manter rotinas, outras vezes, a única coisa que é possível é cumprir com as rotinas.
Cada luto é único. Cada pessoa vive a perda à luz da sua história, da relação que tinha com quem morreu e do apoio que encontra. No luto não há fraqueza, há uma luta por sobreviver à perda, mas ao mesmo tempo continuar a viver com ela.
Durante muito tempo, falou-se do luto como uma sucessão de etapas a cumprir. Hoje sabemos que não existe um percurso universal nem um prazo para chegar à aceitação. O modelo do processo dual, de Stroebe e Schut, ajuda a compreender esta dança entre olhar a perda de frente — chorar, recordar, sentir saudades — e voltar-se para a vida que continua: tratar da casa, trabalhar, cuidar dos outros, reaprender tarefas. Há dias em que a saudade ocupa o céu inteiro; noutros, abre-se uma clareira para o riso. Ambos fazem parte do caminho.
Na família Estrela, a mudança não aconteceu numa data marcada. A primeira ceia de Natal sem o avô foi dolorosa. Meses depois, uma anedota sua provocou gargalhadas e, logo a seguir, lágrimas. A avó começou a cuidar das roseiras de que ele gostava. O neto aprendeu a fazer o arroz de domingo, seguindo uma receita cheia de manchas e notas na letra do avô. Não estavam a esquecê-lo: encontravam novas formas de o levar consigo.
A Terapia de Aceitação e Compromisso lembra-nos que aceitar não é aprovar a perda, resignar-se ou deixar de sofrer. É abrir espaço à dor sem permitir que ela decida tudo por nós. Em vez de lutar contra cada lágrima, podemos acolhê-la e escolher, pouco a pouco, ações ligadas ao que importa: cuidar, amar, partilhar, estar presente. A gratidão também pode coexistir com a tristeza. Ser grato pelo que se viveu não diminui a falta; reconhece que aquele amor deixou marcas que a morte não apaga.
A esperança não exige acreditar que tudo voltará a ser como antes. Talvez consista em descobrir que a vida pode voltar a ter sentido, mesmo diferente, e que o vínculo permanece nas histórias, nos gestos e nos valores transmitidos.
A família Estrela continua a brilhar no céu. Falta-lhe uma luz, e essa falta terá dias mais intensos, mesmo muitos anos depois. Mas já sabe que não precisa de apagar a saudade para voltar a viver. O luto não tem calendário: tem o tempo de cada coração. E, por vezes, seguir em frente é precisamente agradecer a luz que nos acompanhou — e deixá-la iluminar o próximo passo.
