Pluralidade

O Quebra cabeças das festas religiosas populares

António Marcelino*

Trata-se por certo, de um dos problemas pastorais, o das festas, mais difíceis de resolver, com respeito e coerência. A festa faz parte da vida e tem em si um valor social e cultural importante. Recordo sempre, quando vem ao caso, aquele homem bom que me falava com entusiasmo da festa anual da sua terra e me dizia que, durante uma semana à noite, porque de dia o trabalho não esperava, se encontrava toda a povoação, novos e menos novos, para se divertirem ao toque de uma concertina. “Toda a semana?” perguntei eu, como que a insinuar que eram talvez dias a mais de arraial e de folguedo.
“São as nossas férias e olhe que nos fazem bem a todos” Assim ouvi, com muita seriedade da parte de quem dizia. E eu concordei.
Nas nossas terras a dimensão popular da festa, com a convivência das famílias, a participação de todos na preparação, o acolhimento caloroso de fora, o costume de enfeita com flores e verdura as ruas e as casas, a banda de música, sem a qual a festa não era festa, a missa cantada por todos e a procissão, “como não há outra aqui nas redondezas”, praticamente perdeu-se ou está a perder-se. Agora, nas festas à moderna, a família toda, mal se encontra; a ornamentação das ruas, sempre igual, sem gosto nem novidade, está a cargo dos enfeitadores de norte, a banda desapareceu ou foi abalada por conjuntos ruidosos,; os cantores vindos de fora, uma novidade que os contratadores souberam explorar, pouco cantam anedotas sujas para alegrar parolos, mas pagam-se como artistas de renome; as cantadeiras, meio despidas, também elas importadas, disfarçam a pobreza da voz e das canções, com trejeitos ao sabor da plebe. A procissão é negociada no seu trajecto para que os visitados paguem mais e, a missa que não demore muito para não prejudicar a quermesse… Esta narração fica aquém da realidade de muitas terras por esse país fora, embora não falte quem se empenhe para que as festas se façam com a dignidade e a seriedade que merecem.
Como se chegou aqui? Mas não são se as festas, religiosas, ao mesmo tempo que populares? Não há para que as festas respeitem e exprimam a sua dimensão cristã, educando também o povo?
Comecei por dizer que as festas eram um quebra cabeça e aí vai, a meu ver, a razão principal. As festas dão trabalho e responsabilidades, provocam reacções no povo, são ocasião de tensões, emulações e bairrismo, há normas a cumprir e muita gente não se quer meter nisso. Isto dá ocasião muitas vezes a que apareça na organização gente alheia à igreja, sem sensibilidade cristã, a gostar de dar nas vistas e de mostrar poder, disposta a passar por cima de tudo e de todos, para que se possa dizer que “a festa deste ano foi muito melhor que a do ano passado…” Por outro lado, o povo, por vezes, entra no jogo, dá mais “se vier tal artista, se a procissão for à minha rua, se os foguetes forem tantos que façam inveja à terra vizinha…” E como quem manda é o dinheiro…
Vimo-nos empenhado, e vejo que igual esforço se faz noutras dioceses, para que as festas tenham uma verdadeira tónica religiosa e o santo festejado não seja um apêndice necessário para que o povo dê, se entenda que a dimensão cristã não é obstáculo à alegria e ao convívio do povo; que o sentido familiar e social seja possível; que haja moderação nas despesas e se veja como ajudar necessidades reais da paróquia e das pessoas que pela influência de empresários de conjuntos e cantadores, o povo não seja colonizado, nem destruída a riqueza das suas tradições e da sua cultura, bem a sua maneira de sentir e de viver as coisas que lhes dizem respeito.
Não dizemos que habitantes alheios à vida da paróquia não possam colaborar. mas não é normal que eles cheguem e se arvorem em donos das festas e imponham critérios que lhes são alheios. Para recuperar, o povo cristão tem uma palavra e deve dizê-la.

*Bispo de Aveiro

(23 Mai / 17:04)

Pluralidade

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Progressistas e retrógrados, quem são eles, afinal?

António Marcelino

Há problemas de bem comum e de interesse geral que se fundamentam em valores morais e culturais e que não podem estar sujeitos, ciclicamente a grupos de pressão, comandados por minorias ideológicas, ainda que legítimas dentro de um regime democrático. Estão neste caso a família e a vida humana.
As democracias não determinam valores. Devem respeitar os valores existentes e tradicionais da comunidade nacional, defendê-los e promovê-los por leis adequadas e justas. É uma debilidade pensar que se pode resolver e legislar por conluios e listas de nomes que procuram a sua força no número dos que as assinam. Além disso, a modernidade, com as suas luzes e sombras, é tempo de passagem, não definitivo.
As precipitações inconsideradas, no referente ao divórcio e à maneira de o decretar, estão destruindo, em série, muitos casais e passando para a gente nova a ideia de que casar e descasar é hoje uma coisa banal e a não merecer especial consideração. O próprio Estado, por força das leis, colabora nesta vergonha, trocando o seu dever de defender a família pelo simples registo das decisões de vontade que, na maioria dos casos, por demasiado débeis, cedo se tornaram incapazes de superar dificuldades anormais de um percurso de vida. Os estragos já estão à vista e de muitas maneiras. Não tarda, se não se volta ao bom senso, que se chegue à terra queimada. Parece ser o que alguns pretendem. É curioso contar quantos divorciados há a legislar sobre o divórcio.
Todos sabemos que, nas últimas décadas, a escritura e a vivência familiar sofreram alterações profundas a pedir atenção, novos caminhos educativos, reforço de vontade e apoios válidos dos responsáveis. Não se trata, porém, de inventar outra família e deitar a tradicional para o caixote do lixo. Cada família é constituída por pessoas e cada pessoa tem um valor determinante único que deve constituir uma referência obrigatória para a acção de quantos trabalham para o bem comum. Isto exige que se legisle e se actue na fidelidade a princípios e não simplesmente a ideias, a gostos ou pressões de uma Europa vazia e apodrecida. As ideologias são para encontrar soluções, não para alterar o que garante os alicerces de um povo.
O problema de aborto parece querer voltar à ribalta, por via de empurrões de dentro e de fora. Se é a grávida que se quer defender, então procure-se e ouça-se quem a tem defendido e quem tem trabalho pela dignificação da gravidez, no nascimento e no apoio à criança nascida. Há ainda muito para fazer, nomeadamente em relação ao número de creches disponíveis. Fomentar os nascimentos exige leis para as mães que trabalham ou berçários acessíveis. Doutro modo, é deixar os pais sem solução.
Mas não se confunda uma garantia necessária de apoio aos casais em idade de procriação, com o apregoado direito da mulher ser dona do seu corpo, querendo também, de modo justo e arbitrário, ser dona de um novo ser que foi gerado, tem direito à vida e deve nascer com vocação de ser uma pessoa e não uma coisa.
Não tem futuro a sociedade que mata os nascituros e despreza os idosos envelhecidos, os doentes incuráveis ou os deficientes sem retorno. Não podemos querer nem tolerar o regresso à barbárie que se avizinha e para onde alguns nos empurram, em nome do progresso. Não se condenem as mães que abortam, mas não se permita também que estas condenem os filhos que geraram.
Progressista é quem defende a vida como o maior valor. Reaccionário e fora do tempo é quem a subordina a ideologias, a interesses pessoais ou de outros, ao agrado de pessoas e de grupos que mais precisam de quem os ajude e reflectir e a humanizar.

*Bispo de Aveiro

(10 Jul / 13:52)

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Progressistas e retrógrados, quem são eles, afinal?

António Marcelino

Há problemas de bem comum e de interesse geral que se fundamentam em valores morais e culturais e que não podem estar sujeitos, ciclicamente a grupos de pressão, comandados por minorias ideológicas, ainda que legítimas dentro de um regime democrático. Estão neste caso a família e a vida humana.
As democracias não determinam valores. Devem respeitar os valores existentes e tradicionais da comunidade nacional, defendê-los e promovê-los por leis adequadas e justas. É uma debilidade pensar que se pode resolver e legislar por conluios e listas de nomes que procuram a sua força no número dos que as assinam. Além disso, a modernidade, com as suas luzes e sombras, é tempo de passagem, não definitivo.
As precipitações inconsideradas, no referente ao divórcio e à maneira de o decretar, estão destruindo, em série, muitos casais e passando para a gente nova a ideia de que casar e descasar é hoje uma coisa banal e a não merecer especial consideração. O próprio Estado, por força das leis, colabora nesta vergonha, trocando o seu dever de defender a família pelo simples registo das decisões de vontade que, na maioria dos casos, por demasiado débeis, cedo se tornaram incapazes de superar dificuldades anormais de um percurso de vida. Os estragos já estão à vista e de muitas maneiras. Não tarda, se não se volta ao bom senso, que se chegue à terra queimada. Parece ser o que alguns pretendem. É curioso contar quantos divorciados há a legislar sobre o divórcio.
Todos sabemos que, nas últimas décadas, a escritura e a vivência familiar sofreram alterações profundas a pedir atenção, novos caminhos educativos, reforço de vontade e apoios válidos dos responsáveis. Não se trata, porém, de inventar outra família e deitar a tradicional para o caixote do lixo. Cada família é constituída por pessoas e cada pessoa tem um valor determinante único que deve constituir uma referência obrigatória para a acção de quantos trabalham para o bem comum. Isto exige que se legisle e se actue na fidelidade a princípios e não simplesmente a ideias, a gostos ou pressões de uma Europa vazia e apodrecida. As ideologias são para encontrar soluções, não para alterar o que garante os alicerces de um povo.
O problema de aborto parece querer voltar à ribalta, por via de empurrões de dentro e de fora. Se é a grávida que se quer defender, então procure-se e ouça-se quem a tem defendido e quem tem trabalho pela dignificação da gravidez, no nascimento e no apoio à criança nascida. Há ainda muito para fazer, nomeadamente em relação ao número de creches disponíveis. Fomentar os nascimentos exige leis para as mães que trabalham ou berçários acessíveis. Doutro modo, é deixar os pais sem solução.
Mas não se confunda uma garantia necessária de apoio aos casais em idade de procriação, com o apregoado direito da mulher ser dona do seu corpo, querendo também, de modo justo e arbitrário, ser dona de um novo ser que foi gerado, tem direito à vida e deve nascer com vocação de ser uma pessoa e não uma coisa.
Não tem futuro a sociedade que mata os nascituros e despreza os idosos envelhecidos, os doentes incuráveis ou os deficientes sem retorno. Não podemos querer nem tolerar o regresso à barbárie que se avizinha e para onde alguns nos empurram, em nome do progresso. Não se condenem as mães que abortam, mas não se permita também que estas condenem os filhos que geraram.
Progressista é quem defende a vida como o maior valor. Reaccionário e fora do tempo é quem a subordina a ideologias, a interesses pessoais ou de outros, ao agrado de pessoas e de grupos que mais precisam de quem os ajude e reflectir e a humanizar.

*Bispo de Aveiro

(10 Jul / 13:52)

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