Investigadores da Universidade de Aveiro estão a desenvolver o “rádio do futuro”, recriando o funcionamento do ouvido humano no que virá a ser um aparelho de bolso que capta, simultaneamente, frequências de rádio, televisão, Internet, telemóvel e ‘walkie-talkies’.

Por enquanto, o protótipo da Universidade de Aveiro ainda tem o tamanho de uma folha A4, mas a investigação já foi distinguida com o Prémio PLUG 2010, atribuído pela Associação dos Operadores de Telecomunicações às grandes inovações do sector.

Nuno Borges Carvalho está a coordenar o projecto e explica que para esse reconhecimento contribuiu o facto de a equipa da Universidade de Aveiro ser a primeira que recorre a uma “analogia com a cóclea humana para garantir a diversidade de frequências” no mesmo equipamento.

“A ideia deste ‘rádio inteligente’ surgiu em 2000 e pertence a um investigador sueco”, revela Borges Carvalho. “Neste momento há uma série de universidades a desenvolverem projectos de implementação dessa ideia, mas nós somos os primeiros a usar uma analogia com a cóclea para tentar criar um ouvido digital para rádio”.

Na prática, isso significa que o novo aparelho poderá captar ondas electromagnéticas de diferentes frequências – uma para televisão, outra para rádio FM e assim sucessivamente – da mesma forma que a cóclea se adapta a uma vasta gama de sons – uns em escalas mais agudas ou mais graves do que os outros.

Assegurar esse espectro alargado de frequências num só transceptor dependerá de “um único sistema integrado”, com programas de ‘software’ adequados a cada uma das funções disponíveis.

A principal dificuldade que se vem colocando aos investigadores da Universidade de Aveiro é conseguir um equilíbrio entre essas funcionalidades. “O nosso problema é que temos, ao mesmo tempo, frequências muito pequenas e frequências muito grandes”, observa Nuno Borges Carvalho. “O telefone, por exemplo, está com potências baixas, enquanto os pontos de acesso wi-fi nos dão potências muito altas”.

O coordenador da investigação acredita, no entanto, que “isso há-de resolver-se”, de forma a que a tecnologia agora em estudo seja capaz de “separar as frequências e transformá-las em sinais digitais”, garantindo assim que os novos aparelhos possam chegar ao mercado dentro de cinco a 10 anos.

Para Borges Carvalho, isso traduzir-se-á “numa redução significativa de custos e em ganhos de eficiência”, porque “hoje os operadores reservam um conjunto de frequências que muitas vezes não usam, tal como se, num restaurante, um conjunto de lugares estivesse permanentemente reservado para clientes que raramente aparecem”.

O projecto “Rádios Cognitivos” tem por base a investigação “Transceptores Adaptáveis para Comunicações Cognitivas Sem-fios”, antes aprovada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. O trabalho é liderado por Nuno Borges Carvalho, mas, além de três alunos de Doutoramento, envolve também José Neto Vieira, especialista em processamento de sinal para áudio, e Arnaldo Oliveira, perito em ‘hardware’ reconfigurável. Todos esses elementos são docentes da Universidade de Aveiro.