Esta história, com muito de filme de pequena e pobre metragem, aconteceu ao meio da tarde da última sexta-feira no lugar do Carro Quebrado. Tudo começou, quando um homem, de passagem, a pé, na Rua das Martinhas (a bicicleta ficara escondida), pediu a mulher autorização para talhar uns pêssegos que lhe haviam luzido o olho. A mulher concedeu-lhe o favor, mas, pelo aspecto, logo desconfiou, entrou em casa, passado algum tempo, voltou a sair, mas já nada viu; só mais tarde o enxergou, de camisola vermelha junto à casa de Victor Marques, depois de ter ultrapassado vinhas e terras que vão dar ao caminho para a Pedreira.

Comunicou o caso ao marido, de carrinha, lhe moveu então perseguição, tentando seguir no seu encalço, a fim de localizá-lo no ataque ao objectivo. Mas perdia-lhe o rasto. Circulou por todos as ruas e caminhos próximos, para diante e para trás. Perante a ausência do indivíduo, cadastrado, já conhecido da polícia, o condutor ficou baralhado, mas não deixou de apontar duas casas como possíveis alvos.

Efectivamente, pelo tempo, era numa destas, na de Paulo Fontinha, que estava “a trabalhar” para o ouro o grande e incorrigível gabiru. Mas tal situação só veio a descobrir-se inteiramente quando um dos donos, que chegava de carro, viu que alguém lhe estava a assaltar a casa. Tinha entrado pelas traseiras, por uma porta de sacada, cujo vidro estilhaçou. Tinha entrado no quarto do filho de onde furtou ouro.

Perante tal situação inesperada, gritou por socorro, que era ladrão. Tanto bastou para muitos populares que estavam de sobreaviso aparecessem, mas ele conseguia escapar-se pela frente na direcção do campo de futebol de Malhapão. Os populares moveram-lhe então tenaz perseguição e acabaram por filar o cadastrado que, ainda de manhã, se tinha apresentado no posto da GNR, aliás obrigação diária.

O caso suscitou também espanto nos operários que andavam nas obras de construção do pólo escolar, ali a dois passos, e não haviam dado por nada. Apresentados os cumprimentos à GNR, em cada dia, toca de continuar a vidinha de larápio. Era o que estava a fazer, mas, desta vez, saíram-lhe furados os planos. Cercado e apanhado por populares, apesar de dizer que era de Fermentelos e ter dois filhos, ninguém se comoveu, ninguém deixou que desse à sola e sofreu as ameaças próprias de momentos do género, acabou por ter sorte, chamaram a GNR de Oliveira do Bairro que apareceu e logo reconheceu o cadastrado que actua sozinho, de cara destapada, mas com luvas.

A polícia não o largou mais, tomou conta da ocorrência, e entregou-o no Tribunal de Albergaria-a-Velha que estava de turno.

O juiz, que o julgou no dia seguinte, sábado, teve vida fácil; nem foi necessário ouvir as testemunhas. É que o homem contou tudo, confirmando o auto de notícia da GNR. Nem poderia negar. As luvas que alguns populares levaram tempo a encontrar, achavam-se numa vinha. Condenado a sete meses efectivos, baixou à cadeia de Aveiro, lugar que, infelizmente, não era para ele desconhecido.

APM