O Natal é, por excelência, a festa da Família. Mas nem sempre a família de sangue dá aos seus idosos os cuidados e a atenção de que necessitam. É por isso que também nestas alturas, os idosos institucionalizados sentem ainda mais esta casa como sua e quem lá trabalha como a sua segunda Família. Para alguns, chega mesmo a ser o único lar. Nesta reportagem, histórias de quem vive a quadra natalícia no seio daqueles com quem criou laços.

Tem nome de fadista, mas avisa desde logo que não vai cantar o fado. O ar bem disposto e a piada fácil disfarçam uma vida que foi tudo menos um mar de rosas para Carlos do Carmo Tavares. Responde-me, em tom “very british”, que tem 64 anos. E ao longo da conversa, vai espontaneamente salpicando as frases de palavras na língua de Sua Majestade. Pergunto-lhe onde aprendeu a falar inglês. “Nos books [livros]”, diz de pronto. Fez a 4.ª classe, mas o orgulho cresce quando me confessa que nunca se cansa de aprender.
Carlos do Carmo Tavares nasceu no Montijo. Destacado pela PSP, onde trabalhava, foi para Chaves, onde deixou aquela que era a sua única família. A guerra em Moçambique levou-lhe o irmão, os pais já partiram.
Em 2014 fará 30 anos que a desdita lhe bateu à porta. Um divórcio espinhoso deixou-o sem forças. “Bati no fundo…”, desabafa.
Está em Oliveira do Bairro há 43 anos. Deixou toda uma vida para trás e começou do zero. Passou por várias fábricas – Gresval, Tijotelha e Metalsa. Num dia fatídico de novembro de 2000, quando regressava do trabalho, foi atropelado. Resultado: um fémur partido que lhe traria consequências. Hoje, o pouco que recebe do fundo de desemprego, apenas lhe permite pagar um quarto na Santa Casa da Misericórdia de Oliveira do Bairro. É aqui que passa os dias e as noites, desde o dia 1 de fevereiro deste ano. “Sinto-me bem aqui. Tenho cama, mesa e roupa lavada. Procuro cumprir as regras o melhor possível e sou bem tratado.”
Esta é a sua casa e a sua família. “O meu filho tinha sete anos quando me vim embora. Não o vejo há mais de trinta…” Nesta época, a lembrança bate mais forte. “Há sempre aquela saudade. Mas procuro distrair-me”, afirma Carlos do Carmo Tavares.
Será o seu primeiro Natal na Misericórdia. “Sei que vai haver bacalhau, bilharacos, bolo-rei e… a pinguinha!”, diz, com graça. Garante que é feliz e que este será um natal “com muita alegria, com estas pessoas competentes e carinhosas, que nos tratam muito bem”.
Bem diferente do fado de Carlos do Carmo foi a vida de Deolinda Rodrigues Matias. “Tenho muita idade, amiga…” Assim começa a nossa conversa com a D. Deolinda que, aos 96 anos, revela que o que ainda a mantém viva “é a família”. “O meu filho, o José Alberto, é muito meu amigo.” É o único vivo, de três que teve. “Tenho duas netas e uma bisneta. A minha família é a minha alegria!”.
Até há cerca de um ano, Deolinda Matias vivia com o filho, no Mamodeiro. Desde agosto de 2012, está na Santa Casa de Oliveira do Bairro. “Mas o meu filho vem-me buscar todas as semanas, para irmos passear”, afirma, satisfeita. “Já me disse que vou passar o Natal a casa dele e que fico lá.” E gosta, pergunto. “Ai não que não gosto! Vai ser uma noite muito feliz para mim!… Passei sempre o natal com a minha família, com educação e muito carinho.”
Deolinda Matias sente-se acarinhada nesta segunda casa. “Gosto de estar aqui, mas não há nada como a nossa casinha… Apesar de aqui serem todas muito minhas amigas”, reconhece.

O Natal na Santa Casa. Deolinda Matias não vai passar a noite de consoada na Santa Casa. Ao contrário de outros clientes desta instituição. Como Manuel Vítor Oliveira, que há mais de dez anos não passa o Natal com o filho. “Há muitos anos que passo o Natal na Santa Casa, desde que para lá entrei, primeiro no Centro de Dia, agora no Lar. É aqui que tenho a minha família”, diz sem hesitações. Admite que no início lhe custou. “Com os nossos, estamos mais à vontade. Mas é uma questão de hábito”, suspira.
O único filho mora na casa que o pai construiu, no Portouro, Amoreira da Gândara. Não o vê há mais de ano e meio. “Visita-me muito raramente. Tem a vida dele”, desculpa o amor de pai.
Para Manuel Vítor, a noite de Natal é apenas mais uma noite. Ao contrário do dia de Natal. “A minha mãe fazia anos no dia 25 de dezembro. Já partiu há dois anos. É um dia de uma grande emoção, de muitas lembranças, de muita saudade…”
Saudade que se sente na voz e nos olhos brilhantes. Emoção que passa quando retornamos à sua casa, à sua família na Misericórdia. Na festa de Natal da instituição, como habitualmente, subirá ao palco para representar. “É cansativo, obriga-nos a decorar certas frases e isto aos 66 anos já não é a mesma coisa”, assegura, com outro brilho no olhar.
Lurdes Oliveira, diretora técnica das respostas sociais de Terceira Idade da Santa Casa da Misericórdia de Oliveira do Bairro, revela-nos que “há sempre aqueles idosos que gostariam de ir a casa, mas a maior parte já sente esta casa como sua”. “Às vezes”, adianta, “chegam a casa da família e passado pouco tempo dizem «quero ir embora para casa…».”
Em 60 clientes de Lar, quatro estão acamados permanentemente e apenas dez vão a casa. “Sendo o Natal a festa da família por excelência, gostaríamos que muitos mais passassem esta época em casa. Mas temos consciência da grande dependência da maioria, o que os impossibilita de ir. Por este motivo, tudo fazemos para proporcionar aos que ficam um ambiente natalício, o mais acolhedor possível”, afirma Lurdes Oliveira.
A instituição procura trazer à noite de consoada o típico da época. Por isso, não pode faltar o tradicional bacalhau com todos e os doces natalícios. Mas a verdadeira celebração não será no dia 24. O dia mais festivo é vivido precisamente hoje, 19 de dezembro. “Fazemos sempre uma festa de natal para os idosos, de forma a termos o maior número de colaboradoras presentes junto deles”, explica Lurdes Oliveira.
Assim, o dia começa com uma Eucaristia e, de seguida, um almoço, onde a Mesa Administrativa da instituição marcará presença. A tarde será bastante animada, com um espetáculo de variedades proporcionado pelos próprios colaboradores. “Haverá uma peça de teatro, canções e poemas e, depois, claro, o Pai Natal, que trará uma prendinha simbólica para cada um dos nossos idosos.”
Lurdes Oliveira sabe que, para alguns clientes, esta é sempre uma época de nostalgia. Principalmente para aqueles que veem outros serem visitados pela família e que não têm a mesma sorte. Salienta, no entanto, que durante o ano, “os nossos idosos, de uma forma geral, são bastante acarinhados pela família e visitados com muita frequência por grupos da comunidade, visitadores de doentes, escolas…” E muitos, volta a frisar, sentem-se bem aqui. “Esta também é, afinal, a sua família…”

De sem-abrigo a utente do Lar de Aguim

Não se sabe praticamente nada da sua vida, porque Valentim Campos também é um homem de poucas falas. Utente do Lar de Nossa Senhora do Ó, em Aguim, há três anos, altura em que aqui foi colocado através da Segurança Social de Aveiro, hoje, aos 69, diz gostar de aqui estar, pois encontrou a casa e a família que não tem.
Natural de Pardilhó – Estarreja, conta apenas que foi agricultor e que andava aos dias por conta de outras pessoas, para ganhar o sustento. Uma vida, segundo sabemos agora, marcada pelo alcoolismo, por uma doença mental, mas também pela rua, onde terá vivido vários anos. A sua adolescência e infância são um mistério e a essa é mais difícil de chegar. Diz-nos que é solteiro e que não tem recordações da mãe, que faleceu quando era ainda pequeno. Do pai nada adianta, a não ser que se lembra que ele andava às pinhas.
Nesta quadra festiva, o Natal pouco lhe diz, não só porque nunca foi pessoa festeira ou dada a celebrações, mas também porque não existem laços familiares com outros parentes. Dos meios-irmãos nada sabe, tal como de eventuais parentes que ainda possa ter.
Apenas recorda o tempo de pobreza e alcoolismo que o levaram à rua e a uma vida de sem-abrigo. “Dormia sozinho em Aveiro, perto do Pingo Doce, numa fábrica abandonada”, recorda. As esmolas e biscates eram o seu sustento: “mas havia pessoas que me davam de comer. Nunca passei fome”, diz agora.
Contudo, o estado de fraqueza levou-o, numa madrugada de 2010, ao Hospital de Aveiro, que terá sido a sua salvação. Quando chegou a Aguim, era um homem acamado, com imensa dificuldade de locomoção e extremamente magro.
Os primeiros tempos foram tudo menos fáceis. Ninguém se apercebeu da sua dificuldade em ver, causada por cataratas (estava quase cego), mas como não falava, só mais tarde o problema seria detetado e então foi sujeito a intervenção cirúrgica. Pouco a pouco, o amor, carinho, dedicação, aliados a grandes doses de paciência, começaram a surtir efeito e Valentim começou a sentir-se acarinhado e integrado nesta casa.
Contudo, Helena Castro, diretora-técnica do Centro Social de Aguim, coloca algumas interrogações quanto ao seu passado. “É uma questão que fazemos frequentemente, porque ele tem um comportamento com algumas curiosidades: é muito esquisito com a comida, quer andar sempre muito arranjado, não veste qualquer coisa, não gosta de se limpar duas vezes à mesma toalha e tem muito cuidado com a sua aparência”, o que pode revelar uma educação cuidada e um asseio invulgar para quem foi um sem-abrigo.
Este é o terceiro Natal que passa em Aguim. Tal como ele, são muitos os utentes da instituição que aqui passam a consoada, mas por opção. Apenas 10 ou 12 vão a casa. A idade avançada de muitos, o cada vez maior grau de dependência, e o facto de ser uma altura do ano muito fria, leva-os a optar por ficar no quentinho do Lar, abdicando de um Natal em família. Uma quadra em que o papel de Dina Batista, animadora social da instituição, é essencial na preparação das festividades.
Contudo, ainda são bastantes os que, no dia de Natal, passam o almoço e a tarde com os familiares que os vêm buscar e trazer. Neste dia a azáfama é grande, com um entra e sai de gente da instituição.
Mas a instituição gaba-se de, tirando um caso ou outro, a maioria das famílias estar próxima dos seus idosos, durante o ano inteiro, com visitas regulares.
Todavia, Helena Castro admite que esta é “uma época mais emotiva, em que as vivências do passado se refletem nestes dias”, sendo certo que alguns idosos lamentam a ausência dos familiares diretos.
Este ano, para além da festa de Natal da instituição, celebrada no passado dia 13, com os familiares diretos dos utentes de Lar, Centro de Dia e do Apoio Domiciliário, prepara-se a noite da consoada. Uma noite que tenta recriar um ambiente o mais familiar possível, não faltando na mesa o bacalhau, o bolo-rei, as rabanadas: “há um jantar melhorado, e a consoada é passada com as funcionárias. Não vão logo para a cama, ficam até mais tarde, comem umas passas, e foge-se à rotina dos outros dias, tal como acontece uma semana depois, na Passagem de Ano”.

Saudades dos filhos e dos netos

No Lar José Luciano de Castro, da Santa Casa de Misericórdia de Anadia, fomos conhecer Manuel Jesus Cardoso que, com 78 anos de vida, de uma forma muito emotiva, nos contou como esta altura do ano é difícil de passar, sem a presença dos filhos, emigrados no Canadá. Uma ausência compensada por todo o amor e carinho recebidos na instituição.
Utente desde 1999, este será o seu 14.º natal no Lar, sem qualquer apoio ou visita familiar. Viúvo e sem parentes, recorda com saudade as visitas dos filhos em tempo de férias, mostrando-se muito orgulhoso por conhecer também os três netos que nasceram lá longe. “Os meus filhos emigraram há vários anos. Têm lá as vidas, o trabalho, as famílias e as casas”, diz, dando conta de que recebera a visita de um deles em agosto passado. “Foi uma grande alegria. Ele já cá não vinha há sete anos. Vi a minha netinha pela segunda vez”.
Natural de Ribafornos, Óis do Bairro, tem no Lar a sua casa e toda a equipa de colaboradoras a família, embora sublinhe que os filhos, apesar de longe, não se esquecem dele, telefonando com frequência para saber do seu estado de saúde e matar saudades.
Recorda, por isso, comovido, os natais passados em família, na sua terra natal: “é do que sinto mais falta”.
Manuela Silva, diretora técnica da instituição, avança que, dos 48 idosos, apenas uma dúzia irá passar a consoada a casa. As razões são em tudo semelhantes às registadas em Aguim, ainda que aqui, a taxa de idosos com grandes dependências e demências seja maior. “Para a maioria, esta é a sua casa e a sua família e é visível o afeto entre utentes e funcionárias”, destaca, não deixando de registar que “existe um bom grupo de familiares que faz visitas diárias e semanais”, atentos aos seus idosos e às suas necessidades. O reverso da medalha é também uma realidade e, de facto, alguns não recebem qualquer visita, nem nesta, nem em qualquer outra altura do ano, embora as famílias estejam próximas.
A JB, revela que nesta quadra “é incontornável que os idosos, mais lúcidos, fiquem mais sensíveis, porque recordam o passado, o que viveram”, esperando apenas que o Lar consiga compensar a ausência familiar. “A maioria espera que nós preparemos e façamos a festa de Natal, sendo eles meros recetores”.
A festa de Natal da instituição foi celebrada no passado dia 17 com uma tarde de grande agitação, à volta de um espetáculo que juntou crianças do Infantário e os idosos do Lar, terminando à volta de um lanche ajantarado com familiares.

Oriana Pataco/Catarina Cerca