Ouve-se da rua o crepitar do borralho e, ao entrar na Casa Gandareza, a fumaça não engana. No meio do pátio gandarez, fumegando dentro das caldeiras, as couves vão cozendo, aguçando o apetite para o almoço. Na cozinha, as confrades das “Sainhas” vão ultimando as tripas em vinhas d’alhos, feitas como manda a tradição: tripas, coiratas (sem toucinho), bucho e orelheira de porco, que estiveram uma semana a macerar em vinho de alhos.
Está tudo pronto para receber Palmira da Graça e a restante comitiva do Centro Comunitário da Gafanha da Boa Hora (concelho de Ílhavo). Hoje o dia é especial. Vai cumprir-se um sonho.

Tudo começou há cerca de um mês, quando a equipa técnica do Centro Comunitário, que já habituou a comunidade a ideias que nada têm de comum, decidiu pôr em prática o projeto internacional “Before I die” (Antes de morrer). Os idosos, os mesmos que há cerca de ano e meio recriaram a música “Wrecking Ball” de Miley Cyrus, foram agora convidados pelo animador Ângelo Valente e pela gerontóloga Sofia Nunes, a exprimir uma espécie de último desejo, um sonho a cumprir antes de morrer. Longe de imaginar o impacto que a ideia teria, os sonhos dos idosos inundaram as redes sociais e o efeito foi imediato. “Numa questão de horas, tornou-se viral”, confirmou ao JB, Ângelo Valente. “As pessoas identificaram-se com aquela situação e questionaram-se – «o que é que me falta fazer?»”.
Poucos dias bastaram para que os sonhos passassem do quadro de lousa à prática. E os que pareciam mais complicados, foram os primeiros a realizar. Como o de Maria Fidalgo, que antes de morrer, queria cantar para muita gente. “Fomos convidados, pelo César Mourão, a levar a nossa D. Fidalga, como é conhecida, ao Theatro Circo, em Braga, onde ele estava a representar a peça «Esperança». E, no dia 1 de julho, ela cumpriu o seu sonho.”
Também Maria Vitória e Alfredo Miranda viram realizado aquilo que pensavam impossível. Queriam voar e o Aeroclube de Viseu fez-lhes a vontade. Sofia Nunes garante que o objetivo número um neste e nos outros projetos, “é que seja uma terapia, que sirva para nos conhecermos melhor, que permita um estreitar de relações entre todos”.
“Antes de morrer eu quero… ver o Benfica ao vivo; voltar à Figueira da Foz; ir à América; voltar a ver os meus netos; voltar a entrar num navio” são apenas alguns dos sonhos manifestados. “Já fomos contactados pelo SL Benfica e o sr. João Fernando, em agosto, vai a Lisboa ver um jogo, conhecer o presidente e o treinador…”, conta Ângelo Valente. “Também fomos surpreendidos pelo Marco Paulo, que nos ligou pessoalmente, a dizer que vai cumprir o sonho da D. Alice Pereira, irá ao nosso Centro muito em breve [já foi entretanto…] e depois vai levá-la a um concerto.” Assim como Tony Carreira, que vai cumprir o sonho de Benilde Rocha, que o quer conhecer. “Vai passar um dia em grande, vai a um spa, vai ser super mimada e, no final do dia, vai conhecer o seu cantor de eleição.”
Se estes sonhos, que pareciam difíceis de cumprir, afinal nem foram tanto assim, mais complicado será o da D. Deolinda, que gostava de voltar a ver, ou o da D. Leopoldina Inácio, que quer voltar a ter vontade de viver. “Tudo fazemos para que os nossos idosos se sintam felizes. Nós queremos desmistificar o envelhecimento, por um lado, e a institucionalização, por outro”, salienta Ângelo Valente. “Nós acreditamos que é possível ser feliz numa casa como a nossa, onde aceitamos toda a gente e onde todos têm a liberdade de ser eles próprios, de ter as suas rotinas, de fazer aquilo que gostam.” Não é por acaso que este Centro Comunitário é contactado por outras instituições, “no sentido de saberem como é que nós trabalhamos”.
A exploração de emoções está na base de muitos dos projetos levados a cabo por esta equipa. Os vídeos, como o “Wracking Ball” ou o “Vadzilla”, que se tornaram virais, ou as fotografias partilhadas no facebook, “são uma terapia”, mas também os dois cães que “fazem parte da casa têm um enorme sucesso na qualidade de vida dos nossos idosos”.
E, por trás de uma equipa técnica com este dinamismo, tem de estar uma direção à altura. “Este é mais um projeto que eu apoio, eu e todas as pessoas da direção”, frisa o presidente do centro Comunitário, Amândio Costa. “É muito importante, porque envolve não apenas os idosos, tirando-os da instituição, como também insere a comunidade no seu dia a dia e promove a mudança de atitude, a forma como se olha para a institucionalização. Queremos que esta seja vista como uma possibilidade de ter um fim de vida com dignidade”, remata Amândio Costa.

Oriana Pataco

Leia a reportagem completa na edição de 16 de julho do Jornal da Bairrada