A comemorar 30 anos de vida, mas já a pensar no mercado para as próximas três décadas, a Kiwicoop – Cooperativa Frutícola da Bairrada, soube adaptar-se aos desafios do mercado, estimulando os seus produtores para novos projetos, apostando forte na inovação e na sustentabilidade ambiental.

José Carlos Soares, adminstrador da Kiwicoop, traça ao JB a história de 30 anos e a dimensão de uma cooperativa que ainda tem muito por onde crescer.

Jornal da Bairrada: Não precisaríamos recuar 30 anos para ver as grandes evoluções da Kiwicoop. No entanto, há aqui uma história enorme de grandes momentos. Quer fazer-nos uma breve resenha e/ou balanço destes 30 anos?

José Carlos Soares: A Kiwicoop nasceu do sonho de pouco mais de meia centena de kiwicultores da Bairrada, que logo perceberam a única forma de conseguir enfrentar o mercado… criar do lado da produção uma organização forte e que defendesse os seus legítimos interesses.

No início da década de 90 do século passado a Kiwicoop construiu uma central com capacidade para armazenar 3.500 toneladas de kiwis. Em 1992/93 há uma grande produção de kiwis em Itália, que fragiliza ainda mais a débil estrutura da cooperativa. Os anos seguintes foram muito complicados, com alguns dos sócios a terem de injetar muito dinheiro para levar por diante o projeto. Acontece a internacionalização da comercialização.

A partir de 1995 dá-se a inversão, com uma aposta forte na comercialização de fruta dos sócios e outros produtores do norte de Portugal, e segue-se a consolidação do projeto. No ano 2000 incentiva-se a plantação de 100 ha de pomares novos, que nos anos próximos se veio a ultrapassar.

Em 2007 foi substituída a calibradora existente pela atual, e também foi aumentada a capacidade da central para 5.000 ton. Um investimento tão necessário, quanto avultado.

Em 2015 foi executado o aumento da capacidade de frio para cerca de 10.000 ton., a montagem de uma pré-calibradora, e ainda foi implementado um projeto de racionalização de energia; entre outras medidas, foi montado um sistema de painéis fotovoltaicos com produção de 180KW. O investimento foi superior a 4.500.00 €.

Nesta altura estamos a modernizar, de forma faseada a automatização de todo o setor produtivo, fundamental para responder de forma mais rápida, mais cómoda, e com melhor qualidade.

Nestes 30 anos houve muitos prémios de várias Entidades Públicas e Privadas, que atestam o bom serviço prestado aos kiwicultores associados em 1º lugar, mas também à economia regional e nacional.

JB: Houve alguma altura na vida da Cooperativa que marcou, de forma especial, o rumo da sua atividade?

JCS: Há vários, mas penso que o mais marcante foi o ano de 1995, onde assumimos ser uma cooperativa dinâmica, eclética, com boas práticas, e muito sérios na forma de abordar o mercado. Essa postura mantem-se até hoje. Foi a forma de salvar o projeto – Kiwicoop, que hoje se vê de extrema importância.

Foi implementada uma abordagem empresarial ao funcionamento da Kiwicoop, conseguindo desta forma angariar fundos, para fazer face aos compromissos assumidos com a construção e funcionamento da sua central de conservação, normalização e embalagem de kiwis.

Foram anos muito difíceis e desafiantes, pois a Kiwicoop conseguiu granjear o respeito de todos os intervenientes – sócios, instituições bancárias e demais credores, bem como das Entidades Públicas, que sempre nos acarinharam e acreditaram na organização.

JB: Naturalmente que hoje os desafios são diferentes do que eram há 30 anos. A Kiwicoop soube adaptar-se a estas três décadas?

JCS: A Kiwicoop soube sempre, de forma conservadora, no melhor sentido em que este termo pode ser aplicado, responder ao mercado, tendo como pressupostos importantes servi-lo da melhor forma, nunca esquecendo o melhor pagamento a efetuar aos seus associados pela fruta entregue na cooperativa.

A Kiwicoop, sendo a maior Organização de Produtores de Kiwis em Portugal, conseguiu, pela sua atuação, que todos os kiwicultores de Portugal, mesmo não entregando a sua fruta na nossa cooperativa, recebessem mais dinheiro pelos seus kiwis. Porquê? Porque, como estrutura cooperativa, sempre pagámos o melhor possível aos nossos sócios e outros produtores que nos entregaram a fruta, e isso fez com que outras centrais se vissem obrigadas a efetuar pagamentos similares, em termos monetários.

JB: 30 anos volvidos, como vão ser assinalados?

JCS: No dia 22 de julho, dia em que fizemos 30 anos, enviámos mensagens de parabéns e obrigado a todos os sócios e colaboradores da cooperativa; eles são os elementos mais importantes desta caminhada… e dissemos-lhe que a Kiwicoop está cá para os próximos 30!

Estamos a terminar a nossa campanha 2017/2018, que foi longa, e em que temos de concentrar todos os nossos esforços. Vamos em setembro/outubro assinalar a data com uma série de ações para os sócios, colaboradores e demais pessoas ou instituições que sempre nos apoiaram e ajudaram a perseguir os nossos objetivos. A seu tempo, iremos falar desses eventos.

JB: Hoje, mais do que nunca, a Kiwicoop sente que a inovação, o ambiente e a sustentabilidade são ingredientes especiais para o sucesso. Tem feito por isso?   

JCS: A Kiwicoop é hoje uma Organização agrícola inconformada, com tudo o que de bom essa expressão encerra.

Em relação à sustentabilidade ambiental é uma preocupação constante, transmitida aos nossos kiwicultores, pelos técnicos da cooperativa; estes procuram constantemente as técnicas e os produtos amigos do ambiente; felizmente que também os nossos sócios, conscientes deste problema, procuram manter os pomares limpos através de maquinaria de corte de ervas, em detrimento de produtos químicos. Mesmo os adubos que usamos hoje são, regra geral, provenientes de produtos naturais, com grande proeminência dos adubos à base de algas e outros similares. Felizmente que o kiwi ainda não precisa hoje de grandes tratamentos com produtos químicos.

A Kiwicoop possui várias certificações, que lhe garantem um trabalho de qualidade e produtos com certificações em diversos âmbitos (qualidade, garantia, ambientais, sociais, etc.…).

Quanto à inovação, é uma aposta forte que temos vindo a fazer, juntamente com alguns sócios da Kiwicoop; melhoramento de técnicas produtivas, experimentações de novos produtos, de novas variedades de kiwis, como sejam o kiwi baby, diversas variedades de kiwis amarelos e os kiwis vermelhos; temos investido na evolução destas variedades, no campo de experimentação da Kiwicoop, com recurso a uma estufa, a campos com cobertura de rede, onde são monitorizadas e estudadas estas novas variedades.

O mercado e os nossos clientes reconhecem esse nosso esforço, e estão ávidos por receberem na nova campanha, as variedades que vão começar a aparecer no mercado, lançadas pela Kiwicoop.

JB: Qual é hoje a dimensão da Kiwicoop? Fale-nos de números. Produtores associados, produção anual, capacidade de produção, pomares, etc.?

JCS: No início de 2015 o número de associados era de 200, hoje são mais de 350. A área geográfica vai desde Leiria / Marinha Grande até ao rio Douro. Muitos outros queriam-no ser também, mais a norte de Portugal, mas não queremos interferir com outras congéneres da região.

Neste momento temos mais de 800 ha de pomares, plantados ou a plantar. A nossa capacidade de frio é de cerca de 10.000 ton. Quando todos os novos pomares estiverem a produzir, temos dificuldade em acondicionar toda a fruta. Daí termos optado em parar, para já, com a produção do kiwi verde (tradicional) e optado por fomentar as variedades de amarelo e vermelho, que por serem apanhados mais cedo (setembro/outubro), nos abre uma janela de oportunidade em termos de produção e armazenamento (rentabilização das câmaras, que vão ser utilizadas anualmente mais de uma vez), para além de serem de um sabor totalmente diferente do kiwi verde, e por isso ser consumido por outro tipo de consumidores.

A nossa capacidade produtiva é hoje o setor que temos de melhorar, e estamos a resolver com investimentos faseados, para podermos disponibilizar ao mercado o nosso produto quando este o requisita, na quantidade e condições desejadas.

JB: Fale-nos da expansão que a Cooperativa está a imprimir em termos de instalações. E em termos de recursos humanos?

JCS: A Kiwicoop está numa fase de crescimento controlado, quer em termos de instalações, como já falámos atrás, mas também de recursos humanos, onde pretendemos capacitar os diversos setores com recursos preparados para os desafios que lhes são colocados todos os dias.

Hoje o mercado exige de todos muito, e só os bem preparados conseguem ter êxito… nós perseguimos todos os dias esse objetivo, tendo presente que somos uma cadeia que vai da produção à comercialização. Todos temos de estar preparados para responder aos desafios; por isso, o nosso departamento técnico de campo, que acompanha os sócios da Kiwicoop no seu dia-a-dia, era há 3 anos composto por um único técnico, e hoje esse setor tem 3 técnicos superiores, preparados para acompanhar e responder às solicitações. Também noutros setores estamos a qualificar e modernizar.

JB: Os frutos kiwicoop tem argumentos fortes face à concorrência? É aguerrido o mercado?

JCS: A Kiwicoop faz agora 30 anos. É uma experiência acumulada que nos leva mais longe. Hoje em dia todos os setores tem uma concorrência forte, e quem a não tem, passa a ter num pequeno curso de tempo. Por outro lado, Portugal nunca será um produtor agrícola, em qualquer ramo de atividade, que produza quantidade. Por isso, temos de nos diferenciar por outros fatores competitivos, e a kiwicultura Portuguesa, e em especial a nossa zona, tem condições de clima e solo únicas para produzir um kiwi de qualidade superior… e é por aí que queremos ir! Se associarmos a este argumento, um outro imprescindível em todos os setores de atividade, que é a qualidade de serviço associado ao produto, teremos certamente a vida facilitada… e aí, temos uma máxima que é a de todos os dias superarmos a expectativa do nosso cliente.

JB: Que reserva o futuro à Kiwicoop?

JCS: Só pode reservar coisas boas. Como disse a princípio, a Kiwicoop foi a fórmula feliz e inteligente encontrada pelos sócios fundadores, para realizar os trabalhos complementares à sua produção de kiwis. Foi sempre dirigida de forma superior pelos seus elementos diretivos e demais órgãos sociais.

Vamos iniciar este ano a comercialização das variedades de kiwi amarelo; começar a comercialização do kiwi baby; iniciar a comercialização do kiwi vermelho, que por ser uma inovação completa, está a ter uma imensa avidez, tanto dos agentes de negócio das frutas, como do público em geral.

O conhecimento do mercado, e diversificação do trabalho, a resposta a dar a outros produtores, levou a cooperativa a começar a comercializar maracujá. Porquê? Porque podemos responder de forma positiva a um novo lote de produtores (que podem ou não vir a ser associados), neste caso de maracujá.

Também já neste setor temos condições técnicas de acompanhamento, com algum conhecimento e práticas adquiridas. A resposta do mercado tem sido muito boa à entrada da Kiwicoop nesta nova fruta… e os produtores só tem a ganhar.

Outras frutas poderão seguir este exemplo, nomeadamente o limão, onde temos já alguns sócios a trabalhar. Vamos sempre fazer as coisas com calma e de forma segura.

JB: Quais são as grandes preocupações e oportunidades para o futuro da Kiwicoop?

JCS: A Kiwicoop trabalhou em 2016 um documento importantíssimo para o seu futuro a médio prazo. Com a ajuda dos profissionais da cooperativa, elaborámos um Plano Estratégico 2017/2022, onde estão equacionados e trabalhados todos os desafios e oportunidades da Kiwicoop. É com base neste documento que elaboramos os Planos de Atividades anuais.

Tudo o que foi aqui falado, está trabalhado nesse documento, incluindo o caminho a seguir em relação ao kiwi e outras variedades a trabalhar.

Com muitas variáveis envolvidas, com todas as ameaças e oportunidades equacionadas, este documento leva-nos para uma meta auspiciosa, que em última instancia, tem por objetivo uma duplicação do valor de faturação anual.

E como dissemos aos sócios e colaboradores… estamos preparados para mais 30!