Por: Manuel Armando/Padre

Alguma confusão vai trabucando na minha cabeça, dita pensante, mas ainda bem, porque assim ocupo o meu espaço intelectual a interrogar tudo a muitos.
Umas vezes, encontro algumas respostas consensuais, outras, nem por isso.
Donde surgirá esta minha tortura que tanto me aflige e, naturalmente também, a muita mais gente? Basta haver o bom senso e sentido crítico, de que ninguém nos consegue despojar, para sentirmos as náuseas que uma sociedade, desmantelada e sem princípios morais norteadores, causa a quem deseja e procura caminhar com a segurança e a certeza de que os direitos e correspondentes obrigações deverão ser equivalentes para os ricos e pobres, grandes e pequenos, homens e mulheres, operários e políticos, inteligentes e orates, novos e idosos, isto é, para todos os seres humanos quantos gozam, pelo menos deviam gozar, do discernimento completo numa comunidade de irmãos ou membros simples e organizados civicamente.
Afigura-se-me, como uma galhofa de vida a motivar o meu pasmo e desencanto, o facto de as ruas continuarem atapetadas com passadeiras vermelhas para as passeatas soberbas de alguns sobre quem pendem acusações de falcatruas escandalosas, mas isentados das taxas e das condenações merecidas, enquanto outros, sem cheta para fianças de liberdade, são forçados a calcorrear as veredas enlameadas, até à prisão, onde vão apodrecendo ao peso da culpa de crimes – que nunca deixando de o ser, quase poderíamos considerá-los verosímeis virtudes, quando comparados com os desvios daqueles milhões, causadores da fome, miséria e revolta de tantos outros indivíduos que vão definhando e perdendo a noção de dignidade e autoestima.
Dizem-me, mas só para olear a minha maneira de pensar, de forma a não fazer barulho, que “dura lex, sed lex”.
Mas, então, interrogo eu, porquê ser a lei tão rigorosa e pesada sobre os desgraçados, enquanto demasiado fofa para os engraçados que vão fazendo dos seus procedimentos as anedotas de sociedade a fim de que os mais entristecidos sejam obrigados a rir sem vontade nem jeito?
Que ilações deveremos nós tirar do exemplo de um jovem, condenado a passar sessenta e alguns anos nas masmorras, por cúmulo dos seus maiores delitos – meter gasolina na sua carripana e fugir por não ter capacidade monetária de pagamento e mais alguns furtos, condenáveis, claro, para sustentar a dependência da droga – ainda que, depois, forçosamente pelas disposições legais, a condenação tenha sido resumida a uma dezena e meia de anos, mas sem permissão de saídas?
Agora, pergunte-se, muito baixinho, não vá alguém acordar: que fazem aos cabouqueiros das autênticas crateras económicas, devoradores daquelas tantas e diferentes vidas às quais deveria ser reconhecido o direito à dignidade e ao pão?
O dicionário diz-me que “prisioneiro” é aquele que está, sem liberdade, numa prisão. Por mim, recuso este significado porque entendo então como “prisioneiros” todos aqueles que, estando soltos, aprisionam – os espertos, os da alta e descarada manigância.
Os outros, os de arraia-miúda, é que são os aprisionados.
Concordemos, portanto, nesta conclusão simples, sintetizada e ruminada: o mundo anda totalmente às avessas, mas as leis produzidas pelo enorme desplante de muitos dos nossos responsáveis põem-no, mesmo, de cangalhas.