Por: José Manuel Carvalho
Anadiense/Docente Escola Superior Agrária de Santarém

Durante um determinado período de tempo estivemos focados na candidatura de Anadia 2020 a Cidade Europeia do Desporto, processo este que envolveu muitas e variadas fases, às quais o exercício de cidadania e participação popular foi um exemplo que se deve repetir, oportunamente.
Estou consciente que esta não era uma candidatura qualquer, pois exigia-se estar e saber fazer, tanto administrativa, como desportivamente e politicamente. Também sei que, uma das formas de se exercer esta capacidade exigiu planeamento, aptidão de ouvir, de realizar, de interagir, de gerir recursos com limites e de reconhecer onde começam e acabam outros interesses.
Tinha-se pouca experiência, mas muita personalidade, querer, alegria e transparência. Anadia tentou e ganhou… um ensaio de humildade, de fair-play e de maturidade, na medida em que sabe aceitar as vicissitudes, ainda que permaneça no ar uma qualquer justificação equitativa decisória plausível. Acreditou-se nos atributos, nas organizações, na inovação, no edificado, no validado, tudo indicadores positivos e que me fez acreditar e à quase totalidade dos anadienses… o que fica disto? Um mistério, porque ficam por explicar e por expor as referências da atribuição da nomeação tida. Mais, e desculpem-me a frontalidade, implicitamente percecionar e descobrir interesses instalados.
E porque falo em interesses instalados? Tem sido religiosamente escrito o apoio e toda a sensibilidade política para a interioridade, para as zonas rurais e periurbanas, para reduzir-se as assimetrias entre regiões, suportadas em novas e empreendedoras ideias, na construção de novos paradigmas de participação das instituições e inserção dos cidadãos, dinamizando-se um tecido social mais envelhecido ou desligado nas suas opções ou realidades existentes.
Afinal, estes propósitos não passam de preconceitos por quem tem de tomar decisões. Anadia é uma pequena cidade envolvida em belas paisagens, caracterizada pelo saber-fazer dos produtos tradicionais e produções agroindustriais, pela existência de monumentos e outras instalações típicas, pela vida nas festividades e romarias, com os seus traços característicos e de ruralidade, de bom ambiente e, igualmente, de fatores intangíveis, como a paz, o sossego, as atividades desportivas ao ar livre e a tipicidade apresentada. Sempre defendi e gostei desta vertente: estruturante e respeitadora dos seus residentes, dos seus modos, do saber receber.
Tiveram de despir Anadia de momentos, de partilhas e de sonhos, e o que era uma base comum de pertença e partilha de sentimentos, desmoronou-se, para se continuar a alimentar um teatro já saturado de irónicos e históricos povos centralizados. Odivelas pertence à Área Metropolitana de Lisboa, é preciso ser mais central?!?!?
Alguns, esses que decidem, teimosamente, têm tendência em fazer esquecer, ou esconder, uma realidade que, pelos vistos, só eles conseguem percecionar ou tocar. Mas nós não esquecemos. Aceitamos, mas discordamos. De repente, e face à decisão do ACES Europe, que me pareceu ser imprópria e tática, é caso para questionar onde permanecem e onde se aplicam afinal os tais critérios para estas cidades mais pequenas, mas dignas de qualquer uma destas nomeações. Demonstro porquê: as últimas localidades, cidades europeias do desporto foram: 2013, Guimarães; 2014, Maia; 2015, Loulé; 2016, Setúbal; 2017, Gondomar; 2018, Braga; 2019, Portimão; 2020 será Odivelas. Ou seja, títulos atribuídos a grandes cidades ou capitais de distrito. Valerá a pena escrever algo mais? Retiro-me apresentando as minhas sinceras felicitações e todas e a todos os que participaram neste processo, em especial ao promotor topo, a Câmara Municipal de Anadia. É importante não nos resignarmos, para continuarmos a ser grandes, até nestes pequenos deslizes.