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Anadia // Ciclismo // Sociedade  

Anadia a duas rodas: da indústria ao alto rendimento

De oficina pioneira à elite mundial, Anadia vive sobre duas rodas. Do histórico Sangalhos Desporto Clube ao Velódromo Nacional e ao centro europeu da União Ciclista Internacional, sem esquecer o “Bike Valley”, o concelho alia indústria e alto rendimento, afirmando-se cada vez mais como capital do ciclismo.

Por: Luís Alves, Estudante de Mestrado em Jornalismo

É como se Anadia fosse a capital do ciclismo. Há muito que o concelho gira sobre duas rodas, num entusiasmo antigo que fez deste lugar pioneiro. Podemos perguntar-nos se foi precisamente o fascínio das suas gentes pelas bicicletas que, desde cedo, alimentou e fez crescer o negócio dos armazenistas e importadores, definindo a partir daí a tradição das duas rodas nesta terra.

Em 1907, abria a ‘Velocipédica’, a primeira oficina de bicicletas da região. Foi o início de tudo. Com o setor em expansão, vieram os grandes armazéns, surgiram as fábricas e, com elas, o financiamento que ajudou a erguer o Sangalhos Desporto Clube, fundado em 1940, e que desde o início se afirmou dentro das suas modalidades, ciclismo e basquetebol.

Celestino Oliveira com o filho, Nelson Oliveira, no Museu das Duas Rodas

É extensa a lista de corredores que brilharam com a camisola do Sangalhos. Entre nomes consagrados como Alves Barbosa – tricampeão da Volta a Portugal (1951, 1956 e 1958) – e Joaquim Andrade, vencedor em 1969, surge Celestino Oliveira. Trabalhador da construção civil desde cedo, recorda como o ciclismo sempre fez parte do seu dia a dia. Era nas deslocações casa-trabalho que Celestino Oliveira e os colegas aproveitavam para competir: “até casa, era sempre corridas nas bicicletas pasteleiras”. Com o passar dos anos, foi percebendo que tinha talento e o grande objetivo passou a ser correr com a camisola do Sangalhos DC, o que acabou por conseguir. O antigo corredor recorda que, aos 18 anos, já disputava a Volta a Portugal e que, como amador de primeira, ganhava frequentemente aos profissionais. Mesmo a passagem pelo serviço militar não travou a sua progressão; enquanto cumpria serviço no Regimento de Artilharia de Costa, na zona de Lisboa, vinha “de bicicleta lá da Parede para casa” aos fins de semana, o que lhe deu “maneira de continuar no ciclismo”.

Em 1969, viveu um dos momentos mais marcantes da sua carreira ao vencer, em Sangalhos, uma etapa da Volta a Portugal. “Representar o Sangalhos e ganhar em casa é relevante”, recordando o entusiasmo do público que batia nas latas de publicidade da pista: “quando entrava um do Sangalhos, baterem nas latas, traz-traz, dava-nos uma força do caraças”. A história do apelido Oliveira continua a ser escrita no ciclismo pelo filho. Nelson Oliveira, que passou pelas camadas jovens do Sangalhos, sagrou-se vice-campeão do mundo de contrarrelógio em sub-23. Com 22 grandes voltas terminadas, Celestino destaca com orgulho: “é o ciclista a nível mundial que mais grandes voltas fez e sem nunca desistir”.

Tal como Nelson Oliveira, hoje Anadia é escola para os melhores talentos nacionais através da Bairrada Cycling Team, uma verdadeira “escola de campeões”. A equipa já tem lugar na história da modalidade, sendo reconhecida internacionalmente por ter formado grandes nomes que hoje correm no estrangeiro, como os irmãos Ivo e Rui Oliveira. Há apenas três anos, chegaram a ser considerados a melhor equipa de juniores do mundo, vencendo provas em França, na Bélgica e na Holanda com uma “super equipa” de jovens talentos.

Henrique Queiroz

Grande parte deste sucesso é obra de Henrique Queiroz, treinador que dedica a sua vida ao ciclismo há 33 anos. A exigência é a base de todo o trabalho. O treinador assume-se como “muito rígido” e impõe um método profissional onde, mesmo após as vitórias, a prioridade é corrigir o que correu mal. Focado na categoria de juniores, que considera ser atualmente a mais importante e disputada pelas equipas mundiais, Queiroz mantém uma mentalidade de foco absoluto no desempenho, afirmando que não liga a celebrações ou “parabéns”, pois o essencial é garantir que os seus atletas disputam as grandes corridas.
Todo este esforço industrial e desportivo ganhou frutos na primavera de 1961, com a inauguração da Pista de Sangalhos. A obra, que materializou o sonho dos entusiastas bairradinos, foi palco de provas históricas com estrelas internacionais, sendo o antecessor do atual Centro de Alto Rendimento de Anadia (CAR Anadia).

Em 2009, o cenário mudou definitivamente com a construção do Velódromo Nacional. Esta imponente obra de engenharia em pinho finlandês destaca-se pela sua pista de 250 metros elevada do solo, permitindo que o poço central seja utilizado por outras modalidades como judo, esgrima ou ginástica. Jorge Almeida, vereador do Desporto do município de Anadia, define a infraestrutura como uma “fábrica de campeões” e a maior montra internacional para vender a marca de Anadia, atraindo seleções de todo o planeta pela excelência das suas condições. Desde 2019, o espaço ganhou uma dimensão global ao tornar-se o centro de apoio europeu à União Ciclista Internacional (UCI). Sérgio Fernandes, responsável pelo CAR Anadia, destaca que a localização estratégica e a qualidade das instalações transformaram o local num centro internacional de referência, por onde já passaram seleções de pista da Austrália e equipas de BMX de França, Colômbia e Nova Zelândia. Este intercâmbio constante permitiu ao ciclismo português um desenvolvimento sem precedentes, somando já mais de 72 medalhas internacionais. Só no ano de 2023, o centro recebeu mais de 9.500 atletas de 67 países, provando que a aposta no desporto foi o caminho certo para colocar a Bairrada definitivamente na rota desportiva mundial.

Maior produtor de bicicletas da Europa

Fora das pistas, é a indústria que faz o país andar a duas rodas, sendo Portugal o maior produtor de bicicletas da Europa, com o “Bike Valley” de Anadia a transformar-se no coração industrial do setor.
A história desta pujança industrial confunde-se com a de empresários como José Maria, fundador da AJ Maias. Após uma longa passagem pela Venezuela, regressou a Portugal em 1974 e, mesmo sendo um estreante no ramo, ergueu um império que começou com o fabrico de quadros e a montagem para a Decathlon. Aos 85 anos, José Maria continua a ser uma presença assídua na fábrica, fazendo questão de manter o contacto direto com quem ali trabalha, cumprimentando todos os funcionários pelo menos duas vezes por semana. O empresário acredita que este acompanhamento é fundamental, afirmando que “pelo menos os empregados dizem que sim” quando questionado sobre a importância da sua presença. Apesar do seu importante papel, José Maria recusa o mérito individual, reforçando que o sucesso da empresa é um esforço coletivo: “um homem sozinho não faz nada. Faz é com a companhia e com os empregados”.

José Maria, fundador da AJMaias

Outro exemplo mora mesmo ali ao lado. Vindo de uma família ligada às duas rodas, Pedro Conceição e os sócios tornaram a Incycles, que era uma pequena empresa local, num gigante do setor. O negócio fundamental para este salto foi o fabrico das bicicletas para a Uber, o que o empresário recorda como o “clique” que permitiu escalar a produção para o mercado global e aumentar a equipa de 15 para cerca de 300 funcionários. Graças a esta parceria, a Incycles é hoje reconhecida em toda a Europa e afirma-se como a segunda maior empresa em vendas no concelho de Anadia. Apesar do sucesso industrial, Pedro Conceição sublinha que o uso da bicicleta em Portugal ainda enfrenta grandes barreiras, defendendo que “antes da mentalidade, é uma questão de infraestruturas”. Para o empresário, não se trata de uma falta de vontade dos cidadãos, mas sim de segurança, lamentando a ausência de vias cicláveis que permitam pedalar sem riscos, como acontece noutros países da Europa.

Uma das linhas de montagem da Incycles

Diferenciação e inovação

Enquanto as infraestruturas não mudam, a IBH põe em primeiro lugar o utilizador, funcionando como uma espécie de “alfaiataria das duas rodas”. O seu fundador, Celestino Pêgo, traz consigo uma vida dedicada ao ramo, desde a experiência com motas até à especialização em bicicletas. Esta sensibilidade levou-o a focar-se em soluções personalizadas, especialmente para pessoas com deficiência, um trabalho que desenvolveu desde muito novo ao lado do seu pai. Na IBH, a prioridade é a necessidade individual: “isto é a mesma coisa que um alfaiate fazer um fato. Faz-se normalmente uma bicicleta adaptada para a própria pessoa”, explica o empresário.

Nesta linha de diferenciação e inovação surge também a Bamboo Bicycles, criada por Joana Saavedra e pelo irmão. O projeto nasceu de uma paixão pelo material e pela curiosidade sobre as suas propriedades, resultando numa bicicleta que une design elegante e conforto. Inspirando-se nas tradicionais pasteleiras, Joana destaca que quiseram aproveitar ao máximo a capacidade do bambu: “nós apaixonamo-nos pelo bambu, percebemos a potencialidade e um dos primeiros produtos que lançamos foram as bicicletas”.

Processo de criação na oficina da Bambu Bicycles

A produção da Bamboo Bicycles afasta-se da escala industrial para abraçar um processo inteiramente artesanal. O bambu, que chega da Indonésia, é selecionado criteriosamente para garantir que o quadro seja composto apenas pelo material natural. É um trabalho de paciência e detalhe, onde cada unidade exige cerca de 40 a 45 horas de dedicação. Para Joana Saavedra, o desafio atual passa por furar a “bolha da produção” e pensar no impacto cívico: “se houver mais gente a andar de bicicleta, vai ser bom para todos”, num apelo a uma visão mais integrada entre a indústria e o território.

O futuro do ciclismo nesta região já começou a ser escrito. Seja no rigor das equipas que formam atletas de elite, na audácia de novos materiais como o bambu ou na resistência de uma indústria que não para de se reinventar. De um lado, a força de uma estrutura que ergueu fábricas de renome internacional; do outro, o brilho da pista onde se treinam os campeões de amanhã. Entre a tradição e a inovação, Anadia continua a pedalar a duas rodas.