Tiago Neves, natural do Silveiro, Oiã, viveu nos últimos dias momentos de tensão em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, na sequência do agravamento do conflito que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irão.
Residente no país desde setembro de 2017, o oliveirense trabalha como treinador de performance/preparador físico e vive em Abu Dhabi com a esposa, arqueóloga. Apesar de assegurar ao JB que, até ao momento, a situação se mantém sob controlo, descreve horas de incerteza marcadas por alarmes e interceções aéreas.
“Tudo começou no sábado (28 de fevereiro) de manhã. Estávamos a preparar-nos para sair de casa quando vimos notícias das primeiras interceções. Como ainda não era nada confirmado, continuámos com os nossos planos”, relata. Pouco depois, a realidade tornou-se mais evidente: “Momentos depois, começámos a ver e a ouvir o resultado de várias interceções das anti-aéreas na zona onde nos encontrávamos.”
Perante o cenário, o casal decidiu abandonar temporariamente a cidade. “Decidimos sair e ir passar o fim de semana a casa de uns amigos que moram a cerca de 150 quilómetros de Abu Dhabi.” O regresso, no domingo, foi feito já com outro estado de espírito. “O ambiente estava calmo, mas sentia-se uma tensão no ar.”
Durante a noite houve novo alerta. “Seguimos as ordens e direções do governo local”, afirma Tiago Neves. Na segunda-feira, o quotidiano retomou alguma normalidade. “Tudo normal, todos os serviços a funcionar normalmente, mas com a maioria das pessoas em trabalho remoto.”
Ainda assim, a tranquilidade foi novamente interrompida. “Durante a noite tivemos mais um alarme. Ouvimos sons de aparentes interceções, mais tarde confirmados pelos media locais.”
Neste momento, garante, a situação parece mais estável. “Para já está tudo mais tranquilo. Notamos um abrandamento dos ataques – pode ser aparente – e, para já, ainda não houve alarmes.”
Comunidade portuguesa unida
O jovem destaca o espírito de entreajuda entre os portugueses que residem nos Emirados. “A comunidade portuguesa está unida, com vários grupos de WhatsApp onde inclusive a embaixada transmite informações.” Essa rede informal de apoio tem sido fundamental para partilhar atualizações e orientações em tempo real.
Apesar da apreensão natural, Tiago Neves mantém confiança nas autoridades locais. “Claro que com o escalar do conflito o risco aumenta, mas tenho total confiança nos Emirados Árabes Unidos e nos seus líderes, pois acredito que tudo farão para resolver a situação o mais rapidamente possível.”
Ainda assim, não exclui um eventual regresso temporário a Portugal caso o cenário se agrave. “Caso o conflito escale ainda mais, tenho de manter a opção de voltar a Portugal real, ainda que temporariamente; pois a minha carreira profissional é aqui”, sublinha.
“Espero que se resolva com o mínimo de danos possíveis”
Questionado sobre o enquadramento geopolítico do conflito, prefere a prudência. “Não queria muito entrar por aí, pois não possuo informações nem capacidades geopolíticas para o debater. Mas espero que se resolva rapidamente e com o mínimo de danos possíveis.”
“Pelas informações que temos, isto não é um conflito contra os Emirados Árabes Unidos nem contra outros países do Médio Oriente. Acredito que os ataques realizados a estes países sejam uma forma de colocar pressão nos grandes agentes do conflito.”
Tiago Neves deixa os seus contactos, no caso de algum português naquela zona precise de ajuda: telefone e WhatsApp +971585800515; e-mail nevestiagofilipe@gmail.com .
Jornal da Bairrada entrou também em contacto com Amílcar Pereira (Dr.), que se encontra retido num navio de cruzeiro na região indiretamente envolvida no conflito. O cruzeiro partiu de Abu Dhabi e passou por Sir Ian Bas e Dubai, que ainda visitaram no sábado. Devia ter saído para o Qatar e Bahrein no domingo, com regresso a Abu Dhabi na quarta-feira, mas tal não aconteceu. O oliveirense (também de Oiã) encontra-se bem, aguardando ansiosamente por informações quanto ao regresso a Portugal.
Instabilidade controlada, mas imprevisível
O atual clima de tensão no Médio Oriente resulta de um agravamento do confronto indireto (mas cada vez mais direto) entre o Irão e Israel, com envolvimento e apoio estratégico dos Estados Unidos.
Nos últimos anos, Israel tem realizado operações contra alvos iranianos e contra estruturas apoiadas por Teerão na região, alegando motivos de segurança e prevenção face ao programa militar e nuclear iraniano. O Irão, por seu lado, tem respondido de forma indireta através de aliados regionais e, mais recentemente, com ações mais explícitas, aumentando o risco de confronto aberto.
O agravamento recente traduziu-se em ataques, ameaças e interceções aéreas que envolveram vários países da região, ainda que muitos não sejam parte direta no conflito. Em alguns casos, a utilização do espaço aéreo ou a proximidade geográfica aos principais intervenientes levou a situações de alerta e ativação de sistemas de defesa, como sucedeu nos Emirados Árabes Unidos.
É neste contexto de instabilidade controlada, embora imprevisível, que milhares de estrangeiros residentes na região, incluindo portugueses, acompanham com prudência a evolução dos acontecimentos.

